CAPÍTULO VI
OS FILHOS DE MARIA
Após o título de
“servo de Maria”, comum a todas as criaturas, existe um outro, mais íntimo,
mais consolador, mais fecundo em graças, e que não constitui apenas uma
garantia de salvação, mas um penhor de perfeição. É aquele que nos é conferido
pelo Santo Batismo: filhos de Deus e de Maria – Este capítulo, embora trate em
geral dos filhos ou filhas de Maria, convém, de um modo especial, às FILHAS DE
MARIA, que ao seu título comum ajuntam o título particular de “Pia União”,
externando assim uma dependência mais amorosa da Virgem Imaculada.
Sejam estas
almas ESCOLHIDAS dignas deste nobre título... Para elas, sobretudo, a
Santíssima Virgem será sempre Mãe cheia de ternura.
Ser SERVO de
Maria é já esplêndido e consolador! Mas ser FILHO ou FILHA de uma tal Mãe é ter
com segurança, sempre a nosso serviço:
Seu coração,
para compadecer-se de nossas penas;
Seu olhar, para
seguir-nos em toda parte;
Suas mãos, para
comunicar-nos os tesouros de seu Filho;
Seus braços,
para sustentar-nos no caminho;
Sua alma,
sobretudo, para nela acharmos com que cobrir nossas misérias e adornar a nossa
alma com seus merecimentos.
E não temos nós
necessidade de tudo isso? O servo trabalha por interesse; seus serviços são
devidamente remunerados. É na recompensa que o servo encontra o maior motivo de
dedicação.
O filho nada
espera; seus serviços são prestados sem recompensa convencionada. Trabalhando
para seus pais, sabe que trabalha para si. É um membro da família, a ela está
ligado pelos laços mais íntimos de amizade e de afeição... dedica-se unicamente
por amor.
Também ele, é
servo. Porém, é mais que isso: é filho; serve... mas serve por amor.
Ó Maria, doce e
incomparável Virgem, tu és verdadeiramente nossa Mãe!... Faze que sejamos teus
dignos filhos! Dignos de teu coração – dignos de teus cuidados, de tua
solicitude; dignos sobretudo, de tua bondade!
I. Grandeza deste título
Maria é nossa
Mãe! Doce e consoladora verdade!
Pensemos com
amor na consequência: Somos seus filhos!
“Confiança
preciosa! Refúgio seguro! – exclama Santo Anselmo – a Mãe de Deus é minha Mãe!
– Mater Dei est Mater mea”.
“Ah! Minha alma
– acrescenta São Boaventura – diz com toda a segurança: Alegrar-me-ei,
exultarei de prazer, porque, seja qual for o julgamento que mereça, minha
sentença depende de meu Irmão e de minha Mãe”.
Não o
esqueçamos, porém: “Nobreza obriga”.
Os filhos,
geralmente, se comprazem em ouvir falar que são dignos de seus pais, que têm
traços de semelhança com eles, etc.
Filho e filha de
Maria, não sejais estranhos a este justo sentimento!
Um servo de
Maria pode adiar na dependência da Virgem Santa uma garantia de salvação. Um
filho de Maria deve nela achar um penhor de perfeição.
Que fazer para
conseguí-lo? Ser um verdadeiro filho de Maria!
II. Deveres de um Filho
Um filho deve à
sua mãe: obediência, honra e amor.
Jesus Cristo
cumpriu este tríplice dever para com Aquela que Ele chamava “sua Mãe” e que, na
verdade, o era. Seria possível haver hesitação para seguirmos seus passos e
prestarmos à Virgem-Mãe homenagens, de que Ele próprio nos deu o exemplo?
Obediência a
Maria, para cumprir os mandamentos da lei de Deus e da Igreja, e nossos deveres
de estado.
Honra, para
prestar, com sinceridade, o culto que lhe é devido. Amor, invocando-a e
esforçando-nos para nos assemelharmos a Ela, tanto quanto possível.
Somos filhos de
Maria! Doce e consolador pensamento!
Aqui na terra um
filho se orgulha da honra de sua mãe, da bondade, do poder daquela que lhe deu
a vida. Oh! Como podemos ufanar-nos de Maria! O título de filho de Maria contém
entretanto mais que isso. O servo trabalha para seu dono; o filho, ainda fraco,
não pode trabalhar, por estar na idade de formação... Deve primeiro ser
educado. O filho deve ser educado. – Palavra profunda e significativa!
De fato, a mãe
educa seu filho, em primeiro lugar na vida material, até que, superando sua
fraqueza nativa, ele possa sustentar-se.
Verdadeiramente,
tudo isso é a tarefa da Virgem Mãe e a imagem de nossa educação espiritual.
Não precisamos
ser elevados acima desta vida dos sentidos; terrestre e animal, na qual
fraquejamos e caímos a cada instante?
Fracos demais
para sustentar-nos, temos como as crianças, necessidade da mão materna que nos
sustenha a cada instante, que nos encaminhe e nos soerga para as coisas
elevadas.
Mas, se temos as
fraquezas e defeitos da infância, podemos, e até mesmo devemos, adquirir as
qualidades d’Ela.
O que as
crianças são por condição e necessidade, devemos ser por virtude.
Este é o sentido daquela palavra de Jesus: “Se
não vos assemelhardes às crianças, não entrareis no reino do céu”.
III. A dependência dos filhos
É próprio da
infância, e é seu distintivo mais notável viver em estado de dependência. A
quem está entregue a criança? À mãe.
De toda criança
pode-se dizer o que Monsenhor Gay escreve a respeito do Menino Jesus:
“Sua infância esteve entregue a sua Santa
Mãe. Durante os nove meses que Ela o trouxe em suas puríssimas entranhas, só
pertencia a Ela. Todo o tempo de sua meninice, Ele não a deixou. Era nos seus
braços que repousava e sobre o seu peito que respirava e vivia; era d’Ela
imediatamente que dependia em todas as coisas. José é o chefe da Sagrada
Família; mas durante os primeiros anos o pai aparece menos que a Mãe. Mais
tarde, em Nazaré, sua autoridade se exerce mais visivelmente; é a ordem, pois o
pai deve dirigir o filho adolescente. Em Belém, no Templo de Jerusalém, e no
começo de sua vida no Egito, o primeiro papel cabe a Maria. Somente Ela o
envolve e o veste; somente Ela o alimenta e aquece; e quando é preciso ir aqui
ou ali, Ela é quem o leva” – cf. Mons. Gay, XIX, Elevação.
Tal deve ser o papel da Virgem Santíssima para
conosco, seus filhos. Precisamos ser
educados na sua escola, pelos seus cuidados, sob o seu olhar... Devemos
viver perto d’Ela.
Viver perto de
Maria, sob seu olhar vigilante, perto, pertinho de seu coração... eis a vida de
um verdadeiro filho de Maria!
Não vivemos de
coração e de espírito com aqueles que nos são caros, mesmo depois de a morte
no-los ter arrebatado dos braços?
Por que não
viveríamos deste modo perto de Maria?
Sua lembrança
seria tão suave, tão animadora, nas horas de fraqueza! Suas lágrimas e seus
sorrisos, suavizariam tanto as revoltas e rebeliões dos sentidos!...
Que irradiação
de paz seria para as almas o sentirem-se amadas!
Que esperança de
perdão para o culpado o ver-se protegido!
Ser dirigido,
que abundância de graças para o coração que deseja dedicar-se!
Que luz nas
dificuldades da vida! Uma mãe está sempre presente.
“Podeis ter
amigos, quantos quiserdes – diz Monsenhor Pio – amigos fiéis, ternos quanto
possível; nunca uma criatura vos amará como vossa mãe”.
“Maria nos ama –
diz Santo Stanislau Kostka – como Ela amava a seu Filho Jesus”. – Ela tem por
nós o mesmo interesse e nos cerca dos mesmos cuidados, da mesma dedicação. É
preciso, pois, ir a Ela com a mesma confiança que seu divino Filho.
Oh! Vivamos
perto de nossa Mãe! Cerquemo-nos da lembrança de Maria, como de um manto para
abrigar-nos, como de uma luz e de uma força que não nos deixem nunca separar de
Deus. Servos de Maria, devemos-lhe dedicação. Filhos de Maria, devemos-lhe
filial amor.
IV. O exemplo do Menino Jesus
Para terminar,
escutai esta página de São Francisco de Sales:
Se alguém tivesse perguntado ao Menino
Jesus, durante o tempo em que foi levado nos braços de sua Santa Mãe, onde ia,
Ele teria respondido:
– Não vou, é minha Mãe que vai por mim.
– Mas, ao menos, vais com tua Mãe?
– Não, se vou onde minha Mãe me leva, não
vou com Ela, nem com meus próprios passos, mas vou pelos passos de minha Mãe,
por Ela e nela.
– Mas, ao menos, ó querido Menino, te
deixas levar por tua doce Mãe?
– Não, de certo
nada quero de tudo isso; mas como minha bondosa Mãe anda por mim, também Ela
quer por mim. Deixo-lhe igualmente o cuidado de ir e de querer ir por mim,
aonde bem lhe parecer, e, como ando somente pelos seus passos, assim só quero
pelo seu querer.
Eis, em resumo,
nossa regra de comportamento como “filhos de Maria”: a docilidade e a vida de
união. Conceda-nos a boa Mãe viver uma tal vida, pois é tão suave viver perto
de um coração de mãe!
Nenhum comentário:
Postar um comentário