sexta-feira, 18 de março de 2011

A Caridade do Pe. Júlio Maria


Por Pe. Aureliano de Moura Lima, sdn
Conselheiro Geral

A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é ‘meu’; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é ‘dele’, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso ‘dar’ ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é ‘inseparável da caridade’, é-lhe intrínseca. (CinV, 6).

Ao iniciar com as palavras de Bento XVI em sua última encíclica Caritas in Veritate (CinV), quero dizer que o Pe. Júlio Maria foi um homem que exerceu a caridade na verdade. Deu de sia para aquelas realidades sofridas que ele buscou transformar a partir de dentro. Tudo o que ele tinha de mais precioso: sua vida, suas provisões, sua estima e honra, sua terra natal, sua família distante, ser caluniado, injustiçado, ameaçado, noites de sono, lazer, tudo o Pe. Júlio ofereceu para as obras que realizou pelo bem das pessoas e da Igreja.

O Bispo missionário na África pediu uma esmola para os pobres africanos. O jovem Júlio Emílio (mais tarde Pe. Júlio Maria) decidiu oferecer a sua vida pela missão. Não quis dar algo, mas deu-se a si mesmo. E fê-lo sem recuar jamais. Passou pela África, retornou à Europa, foi enviado para o Brasil e por aqui viveu 32 anos sem jamais voltar à sua terra natal. Dedicou-se totalmente à missão que lhe foi confiada. Mais. Não se satisfazia em cumprir o estabelecido. Talvez esse seja seu grande mérito. Foi além. Fundou três Congregações Religiosas para cuidar dos pobres que lhe eram muito caros.

Preocupava-se com os doentes: arranjou uma farmácia e ajudou a construir um hospital. E as crianças abandonadas? Um patronato para elas! O que fazer pela juventude sem perspectiva? Irmãs para a educação e fundação de colégios! O que fazer com os idosos abandonados? Asilos, abrigos! E a formação moral, intelectual, religiosa do povo, como fica? Livros, jornais, Congregações para dar-lhes apoio e suporte!

Vejam que o Pe. Júlio Maria não parava. Olhava o mundo com o olhar de Jesus. Não se limitava a uma caridadezinha de assistência aqui ou acolá, não. Os projetos pululavam em seu coração e sua mente. Arranjava jeito e gente para levar adiante seus projetos. Contagiava, aquecia o coração de seus seguidores. E os entusiasmava de tal maneira que levavam adiante suas iniciativas.

Hoje estamos tentando alavancar, de modo novo, a ‘caridade na verdade’ que sustentou as obras sociais do Pe. Júlio Maria. Muitas vezes somos premidos pelas exigências legais da filantropia e deixamos de realizar o bem caritativamente. Corremos o risco de realizar os projetos sociais em vista do cumprimento duma exigência jurídica. Será que não estamos querendo apenas ser justos, isto é, dar o que é do outro? E o Papa diz que o plus da caridade é que nela damos o que é nosso, daquilo que é meu. Aí está a verdade da caridade. “Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a atividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os atuais” (CinV, 5).

Vale a pena mencionar ainda Caritas in Veritate (6): “A ‘cidade do homem’ não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo”.

Nas pegadas do Pe. Júlio Maria queremos que a nossa ação social seja marcadamente eucarística: “Façamos ação social eucarística” dizia nosso fundador. Para isso é preciso superar a mentalidade do jogo de interesses que caracteriza nossa sociedade neoliberal e entrarmos na lógica da Eucaristia: amar até o fim.

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