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terça-feira, 22 de outubro de 2013

[Comentários Apologéticos] O Deus conservador


3º Domingo depois da Epifania (Segundo a forma extraordinária do Rito Romano)

Evangelho: Mt 8,1-13
1. Tendo Jesus descido da montanha, uma grande multidão o seguiu.
2. Eis que um leproso aproximou-se e prostrou-se diante dele, dizendo: Senhor, se queres, podes curar-me.
3. Jesus estendeu a mão, tocou-o e disse: Eu quero, sê curado. No mesmo instante, a lepra desapareceu.
4. Jesus então lhe disse: Vê que não o digas a ninguém. Vai, porém, mostrar-te ao sacerdote e oferece o dom prescrito por Moisés em testemunho de tua cura.
5. Entrou Jesus em Cafarnaum. Um centurião veio a ele e lhe fez esta súplica:
6. Senhor, meu servo está em casa, de cama, paralítico, e sofre muito.
7. Disse-lhe Jesus: Eu irei e o curarei.
8. Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só palavra e meu servo será curado.
9. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: Vai, e ele vai; a outro: Vem, e ele vem; e a meu servo: Faze isto, e ele o faz...
10. Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: Em verdade vos digo: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel.
11. Por isso, eu vos declaro que multidões virão do Oriente e do Ocidente e se assentarão no Reino dos céus com Abraão, Isaac e Jacó,
12. enquanto os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores, onde haverá choro e ranger de dentes. 
13. Depois, dirigindo-se ao centurião, disse: Vai, seja-te feito conforme a tua fé. Na mesma hora o servo ficou curado.

Comentário Apologético

Meditemos a bela página evangélica de hoje. Um sopro de suave confiança perpassa a cena exposta e nos convida ver em Deus, não somente o Criador, o Senhor Soberano, mas o Pai querido, que sustenta e dirige tudo.

Jesus exalta a fé do centurião e a confiança ilimitada que tem em seu poder.

Esta confiança é o produto imediato desta fé admirável que sabe ver em tudo a ação ou o dedo de Deus, ação que se chama: a Providência

De fato, Deus não pode abandonar a sua criatura, Ele tem que conservá-la, orientá-la, através das mil peripécias da existência, donde vem o Dogma consolador da Providência, o Deus conservador.

Para excitar em nós esta mesma confiança do centurião, vejamos hoje:

1º. As provas da Providência divina.
2º. As conseqüências desta Providência.

Estas duas verdades bem compreendidas nos estimularão a aceitar com calma e resignação tudo o que Deus ordenar ou permitir a nosso respeito.


I. Provas da Providência divina


Deus conservador, ou Providência divina, são dois termos que têm a mesma significação.

A palavra “conservador”, aplicada a Deus, significa que Deus, depois de ter dado o ser às suas criaturas, toma cuidado delas com um desvelo paternal e as conduz ao fim para o qual as criou.

Conservar é continuar a existência, fazer perdurar o que existe.

Sem esta conservação a criatura não poderia subsistir e voltaria ao nada, como a pedra lançada no ar por uma força que não se sustenta, volta necessariamente para a terra.

As criaturas a respeito de Deus, são o que é a luz a respeito do sol, o rio, a respeito da nascente!... Se Deus cessasse de conservar o mundo, este deixaria de existir, de modo que a conservação do mundo é uma criação continuada.

Esta conservação tem um duplo objeto: os seres materiais e os seres racionais. Aos primeiros, Deus dá leis físicas; aos segundos, dá leis morais; aos primeiros, ele imprime a necessidade, aos segundos impõe a obrigação.

A existência da providência de Deus, sendo uma conseqüência imediata da própria existência de Deus, prova-se: pela razão e pela crença universal.

A razão nos diz que Deus é infinitamente bom e poderoso.

Ora, se Deus depois de ter criado os homens os abandonasse, não os guiando, nem sustentando, Ele deixaria de ser bom, se não o quisesse fazer; e deixaria de ser poderoso, se não o pudesse fazer.

Logo, a Providência divina deve dirigir tudo o que há neste mundo e de modo especial a sua criatura predileta: o homem.

Tal tem sido e sempre será a crença de todos os povos que acreditam que Deus dirige todas as criaturas: eis porque todos os povos recorrem a Ele em suas aflições e lhe agradecem os benefícios recebidos.

Ora, toda crença universal, independente de climas, costumes e educação, vem de Deus.


II. As conseqüências desta providência


As conseqüências se medem pela extensão da Providência divina.

Ora, ela se estende sobre todos os acontecimentos do mundo, organizando tudo com número, peso e medida (Sap. VIII. 1) e sobre todas as criaturas, grandes e pequenas, tomando conta de cada uma em particular, como se fosse o único objeto da sua solicitude.

Notemos bem que esta Providência de Deus não tira a liberdade do homem: ele fica o que é pela sua natureza, completamente livre em sua vontade.

Deus lhe faz compreender o que é o bem e o mal: atrai-o ao bem pelas promessas, e o afasta do mal pelas ameaças, mas não o força.

Deus, tão pouco, é a causa do mal que prevê, que poderia impedir e que, no entanto, deixa fazer-se.

Se ele impedisse o mal e obrigasse a fazer o bem, o homem deixaria de ser homem, pois não teria mais
liberdade: seria uma máquina automática, não seria mais um ser racional.

Deus permite, pois, o pecado para não retirar a liberdade do homem. Ele respeita esta liberdade para dar ao homem ocasião de merecer; e exige este mérito para aumentar a felicidade do homem.

Há pessoas que se queixam da Providência divina, apontando as desgraças que esmagam a humanidade, as injustiças, o pecado, etc.

São queixas injustas, pois nunca devemos perder e vista que a vida presente é uma vida de expiação, resultado do pecado, de provações e de méritos. A provação fortifica a virtude, o mérito é a semente da glória.


III. Conclusão


A importância da fé na Providência divina é de grande alcance em nossa vida.

A convicção sólida de que tudo depende de Deus, que nada acontece sem a sua ordem e permissão é um fator preponderante da atividade espiritual.

a) Preserva de toda solicitude inquieta e exagerada para o futuro, como para o presente;
b) Preserva do desânimo nos empreendimentos;
c) Preserva da impaciência nas contrariedades;
d) Preserva da presunção nas obras da salvação.

O pensamento da Providência paternal de Deus inspira confiança nas lutas, dá resignação nas provações, força na ação, paz ao espírito e consolação nas tristezas.

É a contemplação desta doce Providência que ditou a Santa Terezinha as belas e tocantes páginas do caminho da santa infância... cuja prática fez dela uma das mais fulgurantes santas dos tempos modernos.


Exemplos


1. Os três Hebreus na fornalha

Inchado de orgulho por causa de suas grandes vitórias, o rei Nabucodonosor fez se erigisse uma estátua de ouro e mandou que todos os seus súditos a adorassem.

Invejosos dos companheiros de Daniel, os grandes da corte acusaram Ananias, Misael e Azarias de desprezarem a ordem do rei e os três jovens Hebreus foram lançados numa fornalha ardente.

Um anjo do Senhor desceu sobre eles, afastou as labaredas e os preservou de todo o perigo, de sorte que andavam no meio das chamas, cantando e louvando a Deus.

Nabucodonosor quis ser testemunho do prodígio: veio perto da fornalha e viu com os três Hebreus uma quarta personagem de aspecto majestoso que os conduzia no meio das chamas.

Tendo-os feito retirar do fogo, o rei averiguou que nem um cabelo de suas cabeças havia sido queimado e que suas vestimentas não tinham a mínima queimadura.

O rei publicou então um edito, em que proibiu sob pena de morte, blasfemar o nome de Deus e elevou os jovens Israelitas às mais altas dignidades.

No meio dos maiores perigos, lembremo-nos de que há uma Providência divina que vela sobre nós.

2. São Paulo, o eremita

São Paulo vivia no deserto e havia 60 anos que diariamente um corvo lhe trazia meio pão para a sua refeição.

Santo Antônio tendo vindo visitá-lo, os dois santos passaram o dia em conversar sobre as coisas de Deus, quando apareceu o corvo, trazendo neste dia um pão inteiro.

Oh! Como Deus é bom, exclamou São Paulo; Ele duplicou hoje a ração acostumada, para podermos louvá-lo mais tempo e com maior fervor!

A Providência divina cuidava até da refeição dos dois santos solitários.

3. O funil às avessas

Muitas vezes nós somos os causadores dos nossos sofrimentos e atribuímos tudo a Deus.

Um dia vi um homem querendo encher uma garrafa com vinho: serviu-se de um funil. Inexperiente e nunca tendo visto um tal instrumento de transfusão, colocou o funil às avessas, aplicando a grande abertura sobre o colo da garrafa e derramando o líquido no orifício pequeno.

Naturalmente o vinho espalhou-se em redor da garrafa e nada penetrava nela.

Então o homem encolerizou-se, xingando funil e funileiros.

O funil, no entanto, estava bem feito: bastava saber usá-lo

Deus organizou bem este mundo e o dirige por meio de seus mandamentos; porém os homens não se servem das coisas de Deus, como Ele indica, nem cumprem os seus mandamentos. E acham que tudo vai mal... e atribuem o mal a Deus.

De quem a falta?

Não sabem servir-se do funil...

terça-feira, 8 de março de 2011

[Comentários Apologéticos] O destino do homem

2º Domingo depois da Epifania (Segundo a forma extraordinária do Rito Romano)

Evangelho: Jo 2,1-11

1.         Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus.
2.         Também foram convidados Jesus e os seus discípulos.    
3.         Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho.    
4.         Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou.       
5.         Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. 
6.         Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. 
7.         Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. 
8.         Tirai agora , disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram.           
9.         Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo     
10.       e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora. 
11.       Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.


Comentário Apologético

Lendo o Evangelho de hoje, ficamos encantados pelo desvelo da Santíssima Virgem, a sua atenção carinhosa com os recém-casados.

Tudo isso converge admiravelmente para a grande finalidade que Jesus tinha em vista: manifestar a sua glória e robustecer a fé de seus discípulos, como diz o Evangelista na última frase de sua narração: Jesus deu início a seus milagres e manifestou a sua glória.

Manifestar a glória de Deus era, de fato, o resumo da vida de Jesus como deveria ser o resumo de nossa própria vida.

Jesus veio neste mundo para glorificar o seu Pai; e nós estamos neste mundo para esta mesma glorificação.

Deus nos deu um destino conforme a nossa natureza, nossas faculdades e tendências, o qual devemos prosseguir durante a nossa vida inteira.

Meditemos hoje este belo assunto, mostrando:

1º Qual é o nosso destino.
2º Como devemos alcançá-lo.

Estas considerações complementarão o que já vimos anteriormente da imortalidade e da liberdade da nossa alma.

I – Qual é o nosso destino

O destino do homem é a glorificação de Deus e a possessão do soberano bem, que é Deus.

O homem, pela sua alma imortal e livre, tende irresistivelmente a esta felicidade perfeita, e não encontra pleno repouso senão depois de tê-la encontrado, diz Santo Agostinho.

Notemos bem que o homem não foi criado para um fim natural. Se o fosse, ele deveria encontrar no cumprimento dos preceitos da lei natural uma beatitude natural.

O destino que Deus escolheu para nós:
Convivermos com os Santos contemplando-O face-a-face.
Ora, tal beatitude não existe, porque o homem foi elevado por Deus à ordem sobrenatural. 

É pois unicamente nesta ordem sobrenatural que está o seu destino e sua felicidade.

A vida presente pode oferecer ao homem satisfações que agradam ao corpo, como saúde, força, honras e fortuna; pode até dar um certo contentamento à sua alma pela ciência e pela virtude; pode apresentar a seu coração as afeições da amizade e da gratidão, porém nenhum destes bens passageiros pode saciá-lo completamente.

Somente Deus pode plenamente satisfazê-lo, porque só Ele possui tudo o que corresponde às aspirações do homem. Estas aspirações são: conhecer, amar e servir a Deus neste mundo, e possuí-lo no outro.

Conhecer a Deus é aplicar a nossa inteligência a estudar suas obras e perfeições.

Amar a Deus é dar-lhe o primeiro lugar em nosso coração, e não admitir nenhuma afeição reprovada por ele.

Servir a Deus é obedecer a seus mandamentos com prontidão e constância.

Tal é o fim do homem; é para conseguir este fim que Deus lhe deu o nobre destino sobrenatural de possuí-lo um dia na glória do Céu.

II – Como devemos alcançá-lo

Para realizar este destino o homem não pode ficar entregue a si mesmo; ele precisa de uma orientação: tal orientação está claramente indicada na Lei de Deus.

Do mesmo modo que Deus não podia criar o homem sem dar-lhe um destino de acordo com a sua natureza, assim o seu poder criador deveria orientar o homem pelas Leis, cujo cumprimento deveria recompensar e cuja violação devia castigar.

Deus, como criador, tem este direito, e o homem, como criatura, tem o dever de seguir estas leis.

A ordem da divina sabedoria, diz Santo Tomás, dirige tudo para um fim conveniente por meio de leis.

E quando Deus nos deu estas leis?

A primeira lei foi dada no momento da criação, e chama-se lei natural, fazendo, por assim dizer, parte da natureza do ser racional.

É chamada lei natural em oposição à lei sobrenatural ou revelada, de que já tratamos precedentemente. A lei natura refere-se a Deus, ao próximo e a si mesmo.
Para com Deus nos ensina o dever de adoração, do respeito, da submissão e da dependência absoluta.

Para com o próximo nos impõe o dever de tratá-lo, como queremos ser tratados por ele.

Para conosco, nos obriga a conservar a nossa vida e a nossa dignidade.

O homem conhece estas leis pela consciência e pela razão.

Há no homem um duplo instinto: um instinto físico que lhe faz conhecer o que agradável ou desagradável aos sentidos; e um instinto moral, que lhe faz experimentar alegria ou tristeza. É este instinto moral que chamamos consciência.

O que a consciência nos faz perceber, a razão no-lo mostra com clareza.

A razão nos mostra a obrigação de seguir a consciência, sob pena de sermos castigados por Deus.

III – Conclusão

A conclusão a tirar destas considerações é a necessidade de deixar-nos guiar pela nossa consciência, no caminho do bem, para evitar dois excessos: o escrúpulo que estreita exageradamente o caminho do céu e o relaxamento que o alegra além da medida, arrastando pouco a pouco ao pecado formal.

A nossa alma imortal tem um destino certo e imperioso. Deus lhe deu três faculdades essenciais que devem convergir para Ele:

A inteligência, que deve conhecê-lo;
O coração, que deve amá-lo,
A vontade, que deve serví-lo.

Estas faculdades para não deslizarem no erro e no vício devem seguir a lei marcada por Deus, lei que se manifesta pela consciência e pela razão, quanto à parte natural, e pela submissão a Deus, quanto à parte sobrenatural.

Assim fazendo, conseguiremos o nosso eterno destino, que é glorificar a Deus e salvar a nossa alma.

Exemplos

1.    Os diversos reinos

Num exame escolar, um professo perguntou aos alunos a que reino pertence a pedra!

- Ao reino mineral, foi a resposta.
- E as plantas?
-Ao reino vegetal.
-E os animais?
-Ao reino animal.
-E o homem?

Silêncio completo. Os alunos entreolharam-se... De repente um pequenito levantou-se e respondeu: - Ao reino de Deus.

Não podia ser mais exato.

2.    Salvar a alma

Um soberano pediu ao Santo Padre Bento XII uma decisão contra a sua consciência.

O pontífice respondeu:

-Sim, se tivesse duas almas, eu podia sacrificar uma para serví-lo; mas como tenho somente uma, não posso perdê-la para lhe agradar.

3.    Representação da alma
É difícil representar uma coisa invisível... Os primeiros cristãos procuraram fazê-lo, entretanto.

Para figurar a presença da alma no corpo, representavam um pássaro numa gaiola. A gaiola era o corpo; o pássaro era a alma; no dia da morte o pássaro escapa da gaiola.

Geralmente este pássaro era uma pomba: símbolo da pureza que era a alma a conservar, depois de tê-la adquirido pelo batismo.

Outras vezes, a alma era figurada por um cavalo em plena carreira, para conquistar o prêmio destinado ao vencedor.

O prêmio destinado à alma cristã é o céu.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

[Comentários Apologéticos]A liberdade da alma

1º Domingo depois da Epifania (Segundo a forma extraordinária do Rito Romano)

Evangelho: Lc 2,42-52

42. Tendo ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa.

43. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o menino Jesus em Jerusalém, sem que os seus pais o percebessem.

44. Pensando que ele estivesse com os seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e o buscaram entre os parentes e conhecidos.

45. Mas não o encontrando, voltaram a Jerusalém, à procura dele.

46. Três dias depois o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os.

47. Todos os que o ouviam estavam maravilhados da sabedoria de suas respostas.

48. Quando eles o viram, ficaram admirados. E sua mãe disse-lhe: Meu filho, que nos fizeste?! Eis que teu pai e eu andávamos à tua procura, cheios de aflição.

49. Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?

50. Eles, porém, não compreenderam o que ele lhes dissera.

51. Em seguida, desceu com eles a Nazaré e lhes era submisso. Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração.

52. E Jesus crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens.

Comentário Apologético

O Evangelho do domingo passado nos deu ocasião de falar da imortalidade da alma; o de hoje vai mostrar-nos a liberdade desta alma.

A narração evangélica nos mostra a vida suave e escondida de Nazaré, deixando apenas entrever a vida submissa de Jesus.

Um raio de luz vem, entretanto, iluminar esta vida calma e mostrar-nos a liberdade com que Jesus agia: É a sua ida a Jerusalém com Maria e José, o seu desaparecimento, o seu encontro no meio dos doutores, a sua veneração para com seus pais e, enfim, o seu crescimento em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens.

Vimos Jesus agir, inspirado pela vontade de seu Pai, sem paixão que o perturbe, sem medo que o faça parar, seguindo em tudo a voz de seu Pai a qual lhe ditava a sua consciência.

Nós também somos livres, temos diante de nós o bem e o mal: o primeiro para fazê-lo, o segundo para fugir dele.

Tal liberdade é muitas vezes mal compreendida, por isso vamos meditar hoje:

1° As provas da liberdade da alma.

2° Em que consiste tal liberdade.

São noções simples, mas que nos darão uma idéia clara das exigências da liberdade e da necessidade de aproveitá-la para a virtude.

I – Provas da Liberdade

Entende-se por liberdade ou livre-arbítrio a faculdade que o homem tem de fazer ou não fazer um ato, ou de escolher uma coisa em preferência a outra.

Toda vontade que pode determinar-se em sua escolha, produzir um ato ou abster-se dele, é livre.

Existe a liberdade física ou exterior, e a liberdade moral ou liceidade.

O homem é livre, antes de agir, pela escolha do ato que pretende fazer.

É livre enquanto age, podendo continuar, interromper ou deixar o ato começado.

É livre também depois de agir, conservando a consciência de ter agido livremente; felicitando-se ou censurando-se do ato feito.

Os adversários desta grande verdade chamam-se fatalistas ou deterministas.

Os fatalistas atribuem tudo ao destino ou acaso.

Os deterministas pretendem que o homem se determine pelas leis da natureza em geral e as da sua natureza em particular.

***

Tais aberrações dissipam-se diante da dupla prova da liberdade humana, que é o nosso sentimento íntimo, e a conduta do gênero humano.

Nós Sentimos perfeitamente que somos livres.

Sentimos em nós um desejo irresistível da felicidade: este desejo é da natureza, e não é livre, mas sentindo um desejo de dar um passeio, de ler, de escrever, sentimos que podemos fazer isto ou não fazê-lo, conforme a nossa vontade.

O gênero humano, por sua vez, prova tal liberdade, pois todas as nações, mesmo as selvagens, são regidas por certas leis, e uma sanção é imposta aos transgressores de tais leis.

Ora, se o homem não é livre de fazer e não fazer, para que impor-lhe leis? Para que recompensar a fidelidade a lei e castigar a transgressão?

Não se dão leis, nem se recompensa, nem se ameaça de castigar uma máquina, pois esta faz necessariamente o serviço para o qual foi construída.

Os maiores criminosos sabem muito bem que são responsáveis porque eram livres... e a qualquer um deles, se ele alegar a cólera, o ódio ou outro vício, podemos responder: Era preciso resistir, pois eras livre!

II – Em que consiste a liberdade

O homem, no estado atual, pode fazer o bem ou o mal. Digo que pode, isto é: tem a liberdade, porém, não tem o direito de fazer o mal, e tem o dever de fazer o bem.

Isto é tão claro que, quando faz o mal, ele sente em si o remorso, e quando faz o bem, experimenta uma satisfação íntima.

A essência da liberdade consiste inteiramente na potencia ativa de escolher entre duas coisas boas, e não em escolher entre o bem e o mal.

O homem tem o poder de fazer o mal, mas não tem o direito de fazê-lo.

Jesus Cristo possui a plenitude da liberdade, mas não pode fazer o mal.

Maria Ssma. Gozava desta mesma plenitude, embora fosse confirmada em graça e não pudesse fazer o mal.

Deus é soberanamente livre em tudo o que faz, entretanto a sua perfeição infinita esbarra diante da impotência absoluta de escolher o mal.

Temos pois a distinguir a verdadeira liberdade que se exerce na esfera da honestidade e do bem, supondo sempre a ordem e a lei, em outros termos: é o direito de cumprir o seu dever.

A falsa liberdade é aquela que se exerce sob o império das paixões, na independência e na desordem. – Pode-se defini-la: o pretenso poder de fazer o mal.

É o estado atual em que nós nos encontramos neste mundo: temos a triste liberdade de fazer o mal, mas não temos o direito de usar desta liberdade.

III – Conclusão

Temos, pois, diante de nós, o bem e o mal; isto quer dizer que há ações boas e ações más.

Distinguimos estas ações por meio de uma voz interior que está em nós, e que chamamos de consciência. Tal voz está encarregada por Deus, de dizer-nos: isto é bem, isto é mal.

Às vezes as paixões e preconceitos falsificam a consciência ao ponto que em um caso particular, ela tome o mal pelo bem, entretanto nunca podem fazer desaparecer a distinção que separa as ações boas das más.

Podemos distinguir tais ações pela conformidade ou oposição de um ato com as leis de Deus: umas gravadas no fundo do nosso coração, que chamamos lei natural; e cuja voz é a consciência; outras promulgadas exteriormente por Deus, e chamadas: lei escrita. É o Decálogo ou dez mandamento da lei de Deus.

Exemplos

I – Uma palavra de Napoleão

Os fatalistas negam a liberdade ou livre-arbítrio do homem, sob pretexto de que o porvir está regulado com precisão, nas previsões divinas e que o que “está escrito escrito está”.

Um dia falaram diante de Napoleão desta fatalismo dos muçulmanos.

O imperador respondeu: Os próprios turcos nem acreditam nisso, senão como teriam médicos entre eles, ou pelo menos curandeiros?

Quanto aos que habitam no terceiro andar de uma casa, tendo de sair, não se dariam ao trabalho de descer pela escada: lançar-se-iam logo pela janela abaixo: é mais curo, e se o que deve acontecer, acontece fatalmente, a janela não é mais perigosa do que a escada.

II – Um dissabor de Lombroso

O fatalista Lombroso, tornou-se conhecido pela sua teoria do criminoso nato.

Conforme esta opinião, um criminoso está ferreteado para o crime desde o seu nascimento por particularidades físicas de sua natureza.

E Lombroso acreditava nisso, como até nossos dias, há gente que nisso acredita.

O pobre Lombroso passou um dia por um dissabor apertado.

A opinião pública ficou indignada pelo crime de um assassino famoso.

Fotografias de mãos humanas foram publicadas pelos jornais, como sendo do criminoso.

Lombroso quis estudar o caso, e demonstrou doutoralmente, pelo afastamento dos dedos, pela forma das unhas e falanges, por certas diferenças entre as duas mãos, que o assassino estava predestinado ao crime, e não tinha liberdade de afastar este destino: havia de ser assassino.

Pouco depois foi demonstrado que tais fotografias eram das mãos de um bom e honesto operário, estimado por todos...

Foi um aplauso de gargalhadas em honra de Lombroso.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

[Comentários Apologéticos]A imortalidade da alma

Domingo da Epifania (Segundo a forma extraordinária do Rito Romano)

Evangelho: Mt 2,1-12

1. Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do oriente a Jerusalém.

2. Perguntaram eles: Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo.

3. A esta notícia, o rei Herodes ficou perturbado e toda Jerusalém com ele.

4. Convocou os príncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo.

5. Disseram-lhe: Em Belém, na Judéia, porque assim foi escrito pelo profeta:

6. E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades de Judá, porque de ti sairá o chefe que governará Israel, meu povo(Miq 5,2).

7. Herodes, então, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a época exata em que o astro lhes tinha aparecido.

8. E, enviando-os a Belém, disse: Ide e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu também vá adorá-lo.

9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que e estrela, que tinham visto no oriente, os foi precedendo até chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou.

10. A aparição daquela estrela os encheu de profunda alegria.

11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra.

12. Avisados em sonhos de não tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.

Comentário Apologético

Jesus havia nascido em Belém, numa gruta abandonada, deitado numa manjedoura de animais.

Ele esconde a sua majestade e abaixa sua grandeza, enquanto os anjos o aclamam e uma estrela resplandecente convida os reis magos a irem adorar o Rei recém-nascido.

Os reis do oriente, tendo encontrado este Rei misterioso, cujo trono é uma manjedoura e cuja púrpura são uns paninhos de pobres, prostram-se, adoram-no e lhe oferecem os seus presentes: ouro, incenso e mirra.

O ouro exalta a realeza do menino. O incenso proclama a sua imortalidade. A mirra significa a sua humanidade.

Deus é o grande, o supremo Imortal.

Os homens participam desta prerrogativa, pela sua alma, criada à imagem e semelhança de Deus. Consideremos esta prerrogativa de nossa alma, examinando:

1º A natureza da imortalidade.

2º As provas desta imortalidade.

Estas considerações nos farão compreender melhor a grandeza do homem e a sublimidade de seu destino.

I – A natureza da imortalidade

Chama-se imortalidade da alma a prerrogativa de que é dotada de não morrer.

Tudo o que é material está sujeito à lei da corrupção ou decomposição.

A nossa alma, sendo simples, espiritual, sem nenhuma composição, não pode estar sujeita a esta lei; a sua espiritualidade conduz logicamente à idéia da sua permanência depois da morte natural.

O que chamamos morte, não é o aniquilamento, é uma decomposição ou dissolução, palavras que indicam uma separação de partes.

A alma, não tendo partes, não está pois sujeita à morte. Cícero, apesar de pagão, tem a este respeito uma frase sublime, nos Tusculanos l. 1. 29.

“A alma, diz ele, é necessariamente uma substância muito simples, sem mistura, sem composição, sem elementos diversos. Segue-se daí que não se pode nem dissolve-la, nem dividi-la, nem rompe-la, nem quebra-la. É pois imortal, porque a morte não é mais que a separação das partes que antes estavam ligadas”.

Na própria natureza da alma, encontramos já uma prova da sua imortalidade.

Todos nós experimentamos o desejo de uma felicidade que não podemos alcançar aqui na terra.

Ora, Deus não pode infundir na alma desejos irrealizáveis, senão seria uma oposição em sua própria obra.

É preciso pois que na outra vida, na sobrevivência possamos alcançar esta felicidade que não encontramos neste mundo.

O homem está em marcha para o infinito que persegue sempre, mas que sempre lhe escapa.

Ele concebe, sente este infinito, trá-lo dentro de si: daí provém este instinto de imortalidade, esta esperança universal de uma outra vida, que exprimem todos os cultos, todas as poesias, todas as tradições.

Se assim não fosse, a maior das criaturas estaria maltratada: seria até um monstro eterno, pois nunca chegaria à perfeição de seu estado e de suas aspirações.

II – Provas da sua imortalidade

A alma, não podendo ser decomposta, podia ser aniquilada. Isto, porém, não é concebível. Aniquilar e criar são dois atos iguais.

Para aniquilar a alma, Deus deveria exercer um ato positivo de sua divindade.

Ora, na natureza não encontramos um único exemplo de aniquilamento. Nada é aniquilado, mas simplesmente transformado.

O corpo do homem, o dos animais, mesmo as plantas são simplesmente dissolvidos, transformados, mas não aniquilados.

Aliás a semelhante aniquilação se opõem a sabedoria, a justiça e a veracidade divinas.

Deus, em sua sabedoria infinita fez a nossa alma imortal em sua natureza, pois tudo o que é espiritual é eterno. Ele fez esta alma a sua imagem e semelhança, sendo ele o Imortal.

A alma, sendo superior ao corpo, deve ter um destino que seja superior a este.

Ora, o nosso corpo não será aniquilado: nem um de seus componentes voltará para o nada, mas será apenas separado dos outros elementos.

Ora, se a alma morresse, a sua sorte seria menos nobre que o de seu inferior, o que repugna a sabedoria de Deus.

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Deus é infinitamente justo, e esta justiça exige que o mal seja punido e o bem recompensado.

Ora, a alma não encontra neste mundo a sanção do bem que faz, nem o mal que comete. É preciso pois que haja uma outra vida, onde triunfe a justiça divina... e esta outra vida exige a imortalidade da alma.

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Deus é verdadeiro, e este Deus não somente nos faz aspirar à imortalidade, mas nos obriga a crer nela. A ressurreição da carne, a vida eterna, são dogmas sagrados da nossa fé.

Logo, tal imortalidade existe, claramente ensinada pelo próprio Deus.

III – Conclusão

As consequências práticas da crença na imortalidade da alma são o que mais fortifica e estimula a vida. Esta crença nos consola no meio dos sofrimentos da vida. Ela é um estímulo constante na aquisição de méritos e de virtudes.

Ela conserva o homem numa nobre dignidade, inspirando-lhe o respeito a si mesmo.

Com este dogma da imortalidade, a infelicidade é consolada, a virtude excitada, o vício reprimido, a providência justificada, o homem e o mundo moral estão explicados.

Basta deste dogma para formar grandes homens, elevar as grandes virtudes, aceitar grandes sacrifícios para Deus, para a religião e para a sociedade... enquanto que suprimir este dogma, seria suprimir toda a religião, toda virtude, todo dever!

Deus não morre, exclamava Garcia Moreno.

A alma também não morre, devemos ajuntar.

Ambos são imortais, porque a segunda é feita à imagem do primeiro.

EXEMPLO

1 – A lição do tic-tac

Um professor católico de Belfort quis dar a seus alunos a idéia da imortalidade da alma. Procurou um meio de tornar sensível à inteligência infantil esta verdade: que a morte do corpo não tira a vida da alma.

Tirou o seu relógio da algibeira e chamando os meninos, lhes disse: Escutem como o relógio faz tic-tac, e como ele está numa caixa de ouro.

Todos escutaram e admiraram o relógio. Então o professor tirou o mecanismo da caixa e conservando cada uma das peças em mão diferente, perguntou: Qual dos dois é o relógio.

- É a parte que faz tic-tac, responderam estes.

- Pois bem, estão vendo que a caixa, separada do mecanismo, tornou-se muda, enquanto o relógio continua a andar, embora separado de seu invólucro, a caixa. Assim acontece conosco.

A morte separa a alma do corpo, então o corpo torna-se mudo, a alma, porém, privada de seu invólucro, o corpo, continua a existir e a agir.

A comparação, sem dúvida, é muito imperfeita, mas os meninos compreenderam assim perfeitamente a verdade de tal modo provada.

2 – O martírio do Anamita

Nas últimas perseguições que assolaram a cristandade de Tokyo, um jovem cristão de 17 anos, chamado Moï, excitou a admiração dos próprios pagãos pelo heroísmo da sua constância.

-Pisa este crucifixo e renega a tua religião, bradou-lhe o juiz, e te darei $ 100,00!

-Excelência, não basta.

-Pois bem, eu te darei $ 500,00.

-Não basta ainda!

-O que?... pois bem, darei $ 1.000,00.

-É barato demais, Excelência!

O juiz, estupefato pela calma do cristão, perguntou-lhe nervoso: mas, então, quanto queres?

-Excelência, se queres que eu perca a minha alma, pisando o crucifixo e renegando a minha religião, dai-me bastante dinheiro para comprar uma outra alma imortal.

E o valente anamita marchou para o suplício com o sorriso sobre os lábios, deixando juiz e algozes boquiabertos de tanta coragem.

É que o anamita compreendia o que é uma alma imortal.