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domingo, 18 de agosto de 2013

Honrar e Invocar a Mãe de Deus

Pe. Júlio Maria De Lombaerde

Ecce mater tua: eis a tua mãe (Jo 19,26). Sendo a nossa mãe, a Santíssima Virgem tem o direito a uma honra e a um culto acima das honras e do culto que tributamos às outras criaturas.

Honramos e exaltamos os grandes homens da terra, os heróis, os gênios, os beneméritos da humanidade; e não honraríamos, nem exaltaríamos aquela a quem devemos o Redentor, o Filho de Deus, numa palavra: a salvação! O bom senso se revoltaria contra tal asserção negativa!

E não somente honramos os benfeitores da humanidade; nós fazemos os seus retratos, erigimos-lhes estátuas e monumentos; e não o faríamos para a mais bela, a mais santa e mais benfazeja das criaturas, que é a Virgem Mãe de Deus? O coração humano se revoltaria contra a asserção negativa!

Tiremos a conclusão: é, pois, lícito é lógico, é necessário honrar a SS. Virgem.

Honrá-la não é o bastante. É preciso invoca-la, pois a invocação é uma parte constitutiva do culto. As horas prestadas exaltam a grandeza e a virtude. A invocação exalta o poder e a bondade.

Maria Santíssima é grande pela sua qualidade de Mãe de Deus e pelas exímias virtudes que a adornam. Ela é poderosa e bondosa como a mãe dos homens; poderosa para poder ajuda-los; bondosa para querer fazê-lo.

Ora, nós, aqui na terra, somos pobres pecadores, somos necessitados e fracos; precisamos de auxílio, de forças e de generosidade. A quem pedi-los? Aos homens? Os homens sabem apenas dar a esmola material; só Deus pode sustentar e fortificar a alma. É dele, pois, que devemos receber a esmola espiritual.

E esta esmola é transmitida aos homens pelas mãos da Santíssima Virgem. Ela é a cheia de graça (Lc 1,28) para poder transmitir aos homens a graça, como o canal transmite aos campos, ressequidos pelo sol, as águas do oceano.

Tal um canal repleto, que recebe as águas e as transmite aos campos, assim a Virgem Maria recebe de Deus as graças divinas para comunica-la aos homens.

Maria, diz São Bernardo, “está colocada entre Jesus Cristo e os homens para ser o canal que esse divino salvador derrama sobre a humanidade... Deus escolheu Maria –diz ainda o nosso doutor- para ser o canal das graças, e ele quer que as alcancemos todas pela sua intercessão” (Sermo de Aquæducto).

Maria Santíssima pode, pois, ajudar-nos, porque é Mãe de Deus... Ela quer ajudar-nos, porque é nossa Mãe. Ela nos ajuda, porque é o ofício de que o próprio Deus a encarregou.
Fonte: Luz nas Trevas. Petrópolis: Editora Vozes, 1955, p. 38-39. 

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Maria na Igreja

Pe. Júlio Maria De Lombaerde, sdn


[...] A Virgem Maria é o mais profundo reflexo da doutrina da Igreja, porque nos mostra perfeitamente Jesus Cristo, fundador da mesma. 

Maria Santíssima, Mãe da Igreja

Ao primeiro encontro do céu e da terra, a Verdade divina apresenta-se no mais amplo desenvolvimento, contendo em si mesma todo cristianismo e pela sua união a Maria, por efeito de reciprocidade, todo o cristianismo está repleto da Virgem-Mãe. 

Do mesmo modo que, para se ter uma idéia completa dos diferentes efeitos da luz sobre a natureza, é preciso estudá-la sob a influência do sol, ou sob a influência da lua que é o seu mais poderoso refletor, assim também, para ter a fisionomia integral e completa da religião cristã é preciso contemplá-la, não só na irradiação de Jesus Cristo, sol de verdade, mas ainda no místico luar da Virgem Imaculada, que a Escritura chama “bela como a lua”.

Deste modo é pelo conhecimento do culto de Maria que podemos estudar e contemplar tudo que há de interior e profundo na Igreja, da qual é boa e caridosa Mãe. Como contraprova, não se conhece perfeitamente Maria e não podemos honrá-la dignamente, senão entrando no espírito desta mesma Igreja, a quem foi confiado o místico santuário de seu amor.

Fonte: Por que amo Maria, pp. 56-57.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Levar em si Maria


Dando continuidade ao tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, neste segundo dia publicamos mais um belo texto do Fundador. É mais uma gota de sua espiritualidade eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento


Era ainda muito cedo. Abrindo um livro piedoso, que uma pessoa distraída –talvez voluntariamente – deixara na sala de visitas, encontrei estas linhas, tão curtas e tão cheias de sentido e de vida sobrenatural.

Leva em ti Maria;
Em redor de ti irradie Maria;
Dá a todos Maria!

Não sei o que se passou em minha alma, no meu coração, em todo o meu ser.

Depositei o livro; uma lágrima, - perdoem-me esta sensibilidade – uma lágrima ardente queimou-me as pálpebras e as faces... E escondendo a cabeça nas mãos, afastei-me sem demora: Mas, durante todo o dia, ia repetindo:

Ó Maria!
Deixa-me levar-te em Mim;
Deixa-me irradiar-te, em redor de mim;
Deixa-me dar-te a todos;
Que se aproximam de mim!

Oh! querida alma, nós que almejamos amar ardentemente nossa terna Mãe, repitamos muitas vezes durante o dia esta pequena oração, tão curta, tão penetrante e decerto, tão agradável a Maria.

Levar em si Maria, é não possuir todas as virtudes de Maria, mas trabalhar para adquiri-las.

É imitar a criança a quem se dá uma santinha: aperta-a sobre o coração, beija-a com efusão e depois a leva para sua mãe, com cuidado, receosa que se amarrote.

Não podemos, de certo, receber o corpo de Maria Ssma. como recebemos o corpo de Jesus Cristo, mas, na sagrada comunhão, recebendo a Jesus Cristo, não é verdade que recebemos um pouco de Maria? Qualquer coisa de Maria? Este divino alimento de nossa alma, não é ele formado do sangue de Maria? Caro Christi, caro Mariae, diz Sto. Agostinho.

Levando em nós a Jesus, levamos, pois, a Maria. Jesus e Maria são inseparáveis. Não procureis em outro lugar o divino Filho da Virgem, senão nos braços de sua mãe; é lá o lugar d’Ele, o seu trono, o seu céu.

Levar em si Maria, é pois aproximar-se muitas vezes e com devoção da Sagrada Mesa Eucarística; e durante o dia lembrar-se o mais possível deste ato solene.

É unir-se a Maria, - e com ela adorar a Jesus, - trabalhar para Jesus, numa palavra, é viver com ela da doce vida de intimidade.

Ó Maria, deixa-me levar-te em mim!

Irradiar Maria, em redor de si, é possuir algumas das virtudes de Maria, tão doces, tão atraentes, tão praticáveis para todos.

Na contrariedade e na provação; é ficar calmo e paciente.

No abatimento: é conservar-se amável e sorridente.

No aborrecimento: é apresentar-se prestável e manso.

Para todos que nos cercam, é ter pronto:

- este sorriso dos lábios, que atrai;
- esta palavra de coração, que dilata;
- este gesto de benevolência, que acalma e anima;
- esta conversação, que eleva, sobrenaturaliza e faz dizer:

            Oh! como ele é bom!

Tem-se dito de Maria Santíssima que ela era o ostensório de Jesus!

Possam dizer de nós que somos o ostensório de Maria.

O ostensório serve para conter, mostrar e fazer resplandecer a Jesus escondido, escondido na Sagrada Eucaristia. O esforço de uma alma devota da Santíssima Virgem deve ser de conter, de mostrar e de fazer resplandecer a Virgem Santa, pela imitação de suas virtudes.

Ó Maria, deixa-me irradiar-te em redor de mim!

Dar Maria a todos que se aproximam de si. Oh! certo, não é dizer-lhes: eu venho dar-te Maria, mas é ter simplesmente o desejo e a vontade firmes e atuais de fazer amar a Virgem Santa.

Nunca saias de casa, nunca faças uma visita sem dizer esta pequena oração:

“Minha querida Mãe, vem e vive em mim!”

Talvez que não o saibam, mas em hora oportuna, a Mãe de Jesus servir-se-á de ti, agirá por ti, dar-se-á por ti.

Tu darás Maria a todos, que te cercam, às vezes sem sabê-lo e sem os outros conhecê-lo.

Passarás, como Jesus, fazendo o bem, fazendo amar a Virgem Imaculada.

E como Maria também amar-te-á! Como ela te conduzirá a Jesus!

Tu deste Maria aos homens; Maria te dará a Jesus!


Pe. Júlio Maria De Lombaerde, Voz de Nazareth, nº 67 - julho de 1918.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Porta do Céu


Publicamos hoje, no primeiro dia do tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, esse belíssimo texto da pena do Revmo. Pe. Júlio Maria. Os grifos são nossos. É um texto antigo, e há que se considerar o contexto filosófico-histórico do autor. Mesmo assim, é uma das mais belas páginas da teologia eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento,
na capela do Seminário Apostólico de Manhumirim-MG
A Igreja incluiu nas ladainhas da Santíssima Virgem esta significativa invocação:

Maria, porta do céu, rogai por nós!

Poucos talvez, compreendem o alcance destas palavras.

Maria é a porta do céu. Não se entra numa casa senão pela porta.

É-nos impossível entrar no céu sem que passemos pela porta que Deus mesmo aí colocou... e esta porta é a Virgem Imaculada.

Se o céu é um lugar de delícias, é porque nele a alma possui a Jesus Cristo Nosso Senhor, de tal maneira que possa dizer que “o céu é Jesus Cristo!”

A porta do céu, a porta do coração de Jesus é Maria, é impossível nele entrar sem passar por Maria.

“Possuerunt me custodem” (Cant 1, 5). “Colocaram-me qual guarda”, nos diz ela mesma.

E ainda “In me gratia omnis viae”. Em mim se acha a graça do caminho que se deve seguir. Donde a conclusão rigorosa que o Espírito Santo coloca ainda sobre os lábios da Virgem. “Aqueles que me acham, acham a Vida eterna”. Qui me inuenerit, inveniet vitam”. (Prov. VIII, 35).

Tais trechos da Sagrada Escritura são a confirmação desta invocação, que os resume “Porta do Céu”. Maria Santíssima é a guarda, a porta da vida eterna.

O céu é a posse de Deus, de seu amor, de sua glória, posse até de qualquer coisa de sua eternidade, na medida que esta pode ser o apanágio da criatura, eternidade que tem um princípio, mas que jamais findará.

E a porta desta posse é sempre a Virgem! É por Ela que tudo há de passar.

O céu é a “contemplação de Deus, face a face”, tal qual é, contemplação de sua grandeza, de seu poder, de seu amor, e, sobretudo, de todos os seus divinos atributos.

E a porta desta visão é Maria... Sem ela é impossível gozar desta bem-aventurança.

O céu é a “manifestação” da glória de Deus. Aqui na terra esta divina glória é desconhecida, desprezada às vezes, só aparece parcialmente e por intervalos. Lá em cima manifestar-se-á em todo o seu esplendor, em toda sua extensão, sem sombras.

Esta glória nos cercará, nos penetrará, nos elevará e nos tornará partícipes da glória de Deus.

Mas a porta desta glória é sempre, é unicamente Maria; é por Ela, pois que devemos alcançá-la.

Oh! sim como tem razão os santos a repetirem sempre: “Tudo por Maria”, “nada sem Maria!”

Tudo, de fato, nos vem por intermédio da Virgem. tudo que nos vem do céu; graças, auxílios, luz, consolação, força, amor.

E tudo que sobe ao céu: orações, sacrifícios, virtudes, tudo passa também pela “porta”, pelas mãos de Maria.

Penetremos bem o significado desta invocação: Maria, porta do céu, rogai por nós!

Mas não há somente o Céu do Céu, se assim posso dizer, isto é, Jesus Cristo, glorificado no céu, há também o Cristo oculto no Tabernáculo.

Porta do primeiro céu, Maria Santíssima é também porta do segundo, sendo que este difere somente daquele, porque o primeiro é “glorioso” ao passo que o segundo é “escondido”. Dizendo que Maria Santíssima é a porta do Tabernáculo, quero dizer que para chegar a Jesus Hóstia, é preciso ainda passar por Maria “possuerunt me custodem”. E para que Jesus Sacramentado desça até nós, com suas bênçãos e graças, é mister sair pela porta que é Maria.

A vontade de Deus, diz São Bernardo, é que recebamos tudo das mãos de Maria.

Oh! suave pensamento que nos indica as relações tão reais e tocantes da Sagrada Eucaristia com Maria.

Jesus Cristo está verdadeiramente no seu Sacramento de amor. Aí fica escondido na pequena hóstia, atrás da porta visível do Tabernáculo, do mesmo modo que esconde a glória e o amor, atrás da outra porta – invisível aquela – que se chama a Mãe de Deus.

Pode-se dizer que Maria Santíssima está presente na Sagrada Eucaristia?

Por si mesma, não! mas está presente por Jesus de um modo inefável, pois se trata de uma verdade acima de nossa compreensão.

Para explicar a união Jesus e Maria, será insuficiente a comparação das relações que unem mãe e filho, visto existir aí intimidade superior ao nosso entendimento.

Digamos somente que Jesus é, e sempre fica como ele mesmo o disse “filho do homem”.

Aí está o seu título próprio “Filius hominis” Filho do homem... então Filho de Maria Santíssima.

A Sagrada Eucaristia é a continuação da Encarnação. Pois a Encarnação é Maria dando ao filho de Deus a vida humana.

A Eucaristia é ainda Maria gerando, Deus à vida escondida do Tabernáculo.

Do mesmo modo que o primeiro mistério se cumpriu por Maria, assim o segundo, prolongamento do primeiro, deve operar-se por Maria. Jesus nascendo em Belém, nasce de Maria Santíssima.

Jesus, nascendo sobre o altar, entre as mãos e em virtude das palavras do sacerdote, nasce ainda de Maria.

Precisamos perguntar então se Maria está presente nesse mistério e qual é o seu papel.

O papel da Santíssima Vigem é introduzir Jesus Cristo no mundo, como também de conduzir as almas aos pés de Jesus.

Essa grande verdade está sendo atualmente estudada pelos teólogos, que ainda não deram uma fórmula certa e teológica ao mistério. Tal falta nos obriga a uma certa reserva na expressão; entretanto, os corações eucarísticos e amantes descobrirão neste pouco um horizonte novo de amor ao divino hóspede do Tabernáculo.

Oh! Maria, porta do Céu, rogai por nós!

Compreendeis, agora, almas piedosas, o alcance da vida de intimidade com a Mãe de Jesus.

Se viverdes perto, esta “porta divina” abrir-se-á diante de vós. “Beatus homo... qui vigilat ad fores meãs quotide” (Prov VIII) Oh! sim, bem aventurado, diz o Espírito Santo, quem vela todos os dias à porta do céu!

Na terra, por Maria, ireis a Jesus Sacramentado, e Jesus descerá até vós.

Rematará lá em cima a vida de intimidade com sua divina Mãe, pela posse de si mesmo; pois lá ainda na glória é e sempre fica, o Filho de Maria Santíssima, a flor brotada da virgindade perpetua de Maria, nutrida pela humildade e pelo amor da Virgem-Mãe.

Oh! sim! ficai sempre perto de Maria, e que seja ela a porta pela qual desce a vós, e pela qual haveis de ao céu subir.

Maria , Porta do Céu, rogai por nós!

Pe. Júlio Maria De Lombaerde. In Voz de Nazareth, nº 83: novembro de 1919.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A Beleza de Maria [II]

Pe. Júlio Maria De Lombaerde
II - MARIA, BELA EM SUA CONCEIÇÃO


Maria é, pois, bela!... Bela com todas as belezas de Seu Filho, bela pela plenitude de graça que Ela reside. De Fato, é a graça santificante que dá à alma o seu valor real, sua graça, para agradar a Deus e ser por Ele amada; é a veste nupcial que a torna digna de assentar-se ao banquete do Cordeiro, e sem a qual não é permitido entrar na sala do festim.

Uma alma em estado de graça é tão bela, que é impossível a Deus não amá-la; possui direitos tão ingentes, que é impossível a Deus não se dar todo a ela.

Para compreender a beleza da alma de Maria, seria, pois, necessário fazer-se uma idéia das graças que Lhe foram outorgadas, pois a beleza aumenta à medida que aumenta a graça.

Ora, quem poderia imaginar as graças concedidas Àquela que era "cheia de graça", e isto já desde a Sua Conceição imaculada, sem por isso estar na incapacidade de aumentar, de acrescer ainda este tesouro, pois a Virgem deve não somente ser cheia de graças, mas tê-las em superabundância, para que possamos receber de Sua plenitude.

Vejamo-lA primeiramente em Sua Conceição imaculada. Como desde já esta plenitude se irradia!...

Esta beleza da imaculada Conceição é tanta, que nem mesmo é necessário começar a descrevê-la. Antes de elevarmos os olhos para este fascinante esplendor, mais fácil seria inclinarmo-nos sobre o abismo de misérias, a que nos relegou a queda original, e fazermos assim, por contraste, uma longínqua idéia da alma virginal de Maria. Falemos apenas uma única palavra de nossas chagas íntimas.

A primeira chaga é a perda de toda justiça: - da graça santificante, virtudes infusas, equilíbrio das potências de nossa alma, subordinação do corpo ao espírito, direito a uma proteção especial de Deus. Todos estes dons nos foram retirados, e Maria, ao contrário, foi enriquecida de todos estes bens, desde ao Seu primeiro instante.

"Cheia de graça", nEla circula a vida divina.

É uma beleza, uma riqueza, uma luz, uma força.

É a paz, a ordem, a harmonia.

A inteligência vê claramente, a vontade governa, e Deus vela sobre a Sua obra com um cuidado invejoso.

Nós não somos apenas despojados, somos manchados.

Não somente somos deformados, somos positivamente culpados.

Carregamos o peso da inimizade divina.

E Maria é toda bela, toda pura, toda agradável.

Ela inflama de amor o Coração de Deus, e Ele não se sacia nunca de contemplar a primeira e única criatura, sobre a qual Ele pode baixar os olhos com complacência. E Ele também não contém a Sua alegria por encontrar, enfim, sobre quem expandir a Sua ternura.

Chama-A Sua única, Sua amada, Sua pomba, Sua irmã, Sua esposa.

Maria é a "Bendita", a "Bem-aventurada", Aquela a quem estão reservadas todas as honras possíveis e todas as beatitudes imagináveis...

O batismo restitui-nos a graça, apaga a nossa culpa e remite a nossa pena.

Como é bela a alma batizada!...

Ei-la: - é perfeita, radiante, estabelecida em sua integridade esplêndida, à semelhança da alma de Maria!...

Teria a nossa pureza reconquistada o mesmo valor que a pureza original de Maria?...Oh! não... E bem o sentimos nós desde o despertar de nossas faculdades e desde o primeiro vôo que a nossa alma quer tomar. Ela foi perdoada, reavivada, mas suas asas ficaram amortecidas e suas faculdades feridas.

Um véu de ignorância se estende sobre o nosso espírito, um mundo de malícia pesa sobre nossa vontade, um foco de concupiscência se aninha bem no fundo de nosso coração e uma fraqueza mórbida anemiza todo o nosso ser.

E, mais ainda, este langor paralisa a vontade. Estas concupiscências todas sobem como nevoeiros diante dos olhos já enfraquecidos da nossa inteligência. Não possuímos mais a noção justa das coisas, deixamo-nos fascinar pelos falsos bens, e somos curiosos, frívolos, perturbadores, inconstantes.

Talvez isto ainda não é mais que o defeito; brevemente, porém, será o pecado.

Apenas criada, a alma inteiramente límpida da Virgem Imaculada, vibrante de sentido, de força e de amor divino, conhece Seu bem supremo, voa até Ele, prendendo-se-Lhe irrevogavelmente.

A candura da luz eterna se reflete neste espelho sem mácula. As claridades de Deus são as Suas, e Sua é também a vontade de Deus.

Todas as Suas potências, todas as Suas tendências se dirigem para Ele. Não experimenta, nem pode experimentar o atrativo, não digo de um mal qualquer, mas nem do menor bem, nem doutro bem a não ser Ele.

Tão impossível Lhe é escolher a imperfeição, como é às almas beatificadas dos eleitos cometer o pecado. Entretanto, Ela guarda ainda o mérito da liberdade. Nela tudo é impulso irresistível para Deus, mas é um impulso querido, refletido, meritório!...

E tamanha perfeição e pureza, que fizeram de Maria, desde o primeiro instante de Sua Conceição, a Rainha de todas as santidades angélicas e humanas, nEla não é mais que um ponto de partida, um germe, um começo.

Ela irá crescendo de beleza em beleza, de virtude em virtude, até à hora em que Sua alma, envolta num suspiro de amor, alcançar a mais alta perfeição que possa realizar uma simples criatura.

A faísca que se propaga na floresta, torna-se um oceano de chamas; a imaculada Conceição, irradiando sobre a vida de Maria, lança sobre Ela um resplendor diante do qual empalidecem todas as purezas criadas.

Oh! devem cantar as glórias e as belezas da Virgem sem mácula os anjos, únicas testemunhas deste inefável mistério!...

Se os ouvidos do homem estivessem tão atentos e lhe tivesse Deus concedido ouvir seus cânticos e suas aclamações, teriam experimentado alguns destes acentos que mais tarde deveriam ouvir os santos e os doutores, teriam recolhido em seu espírito e em seu coração graciosas imagens.

Ouçamos um pouco os ecos chegados até nós:

Uns diziam: "O doce Sol de misericórdia não poderia tardar a aparecer. Eis a Sua obra, dEle recebendo os Seus raios, projetando-os ao céu e sobre a terra, e expelindo as sombras da noite". - Maria aurora praenuntia Dei. (S. Bern.)

Continuaram outros: "Salve, ó belo arco-íris, Vós és para a terra o sorriso de um Deus prestes a apaziguar-Se; anuncias o fim dos trovões, das tempestades e das ameaças". - Maria iris mystica. (Alegrin d'Abbville)

E outros, enfim: "Corre, ó graciosa nave! Por Vós o Verbo divino sulcará as ondas do mar lodoso do mundo, estenderá a mão aos infelizes que naufragaram, e reconduzi-los-á todos ao porto". - Maria navicula Domini.(Adam des Iles)

Santo Ildelfonso chama-A: "Terra nova, novo Éden, plantado pela mão de Deus, no qual Deus tornará a conversar com o homem. Campo florido, odorífero, fecundo, no qual germinará uma flor da eternidade." -Maria campus floris aeterni. (S.Ildefonso)

E ainda Hugo de S. Vítor: "Raiz viva! Floresta verdejante! Haste cheia de nobreza! e gloriosa, cuja flor será Deus". - Maria radiz vitae florens; Virga, cujus flos Christus. (Hugo de São Vítor)

Santo Antoninho pôde escrever: "Até então se haviam as vozes da humanidade perdido nos ecos do mundo. Nenhuma tivera o poder de penetrar as nuvens. Eis a grande, a poderosa voz, cujos sons chegaram ao céu". - Maria vox clamantis in caelum. (S. Antonino)

E um outro panegirista de Maria assim se expressa:

"Sua perfeição, diz ele, força atrativa e irresistível triunfará de qualquer obstáculo. Como um magnete precioso, Ela atingirá até ao Verbo divino em Sua eternidade, e atraí-lO-á para o tempo". - Maria magnes spiritualis. (Adam de Perseigne)

"Eleva-te, exclama Santo Anselmo, ó maravilhosa escada, que deve unir o céu e a terra, escada sagrada, pela qual, enfim, Deus descerá até ao homem, e o homem subirá até Deus". - Maria scala, Dei descendetis et homini ascendentis. (Sto. Anselmo de Luca).

E Ricardo de São Vítor:

"Eis preparada a morada hospitaleira do Verbo eterno feito peregrino no tempo. Eis o leito de honra, sobre o qual repousará a Sua adorável humanidade, o trono vivo sobre o qual Se assentará para inaugurar o Seu reino, o altar sagrado sobre o qual começará a Sua vida e o Seu holocausto". - Maria diversorium Dei peregrinantis (Ricardo de São Vítor).Maria thalamus humanitatis Christi (São Cripiano). Maria altare terrenum (Pedro de Celles).

Aclamando-A, diz o grande bispo de Hipona: "Primeiro e magnífico esboço do Cristo Redentor! Em Sua alma e em Seu corpo, em Suas aspirações e em Suas virtudes, Ela é como que um Jesus começado. Ela é o molde admirável, em que serão fundidas, indissoluvelmente unidas, reduzidas à unidade de uma só pessoa, a humanidade e a divindade do Verbo". - Maria forma Dei. (S. Agost. Sermão da Assunção)

Enfim, outros exclamam: "Em Maria imaculda reconheçamos o penhor das antigas promessas, o sinal da alegria univerdal, o grande aleluia dos corações fiéis". - Maria pignus promissionis (Absalon de Trèves). Maria Alleluia fidelium (Sto. Anselmo de Cantuária)

Eis o que teria percebido o ouvido atento. Mas não há apenas hinos de alegria para a terra; há sobretudo um tesouro!... Ter uma Virgem imaculada nas fileiras da família humana, este pensamento não excita somente a admiração, mas ainda um outro sentimento, que é a consolação.

Se Maria é toda bela e imaculada, não é apenas uma honra, que redunda sobre nós, mas é um tesouro em que nos podemos saciar.

Ela é o nosso tesouro de pureza, com a missão de enriquecer-nos.

Não é isto consolador?...

O nosso canto é o "Miserere"; o Seu é o "Magnificat"!!!

Cada túmulo diz à podridão e ao vermes: "Vós sois minha mãe, sois minha irmã" (Jó 17).

O túmulo da Virgem dirá às estrelas: "Deixai passar a minha pomba".

A Sua imaculada Conceição prepara a Sua assunção. E do alto do céu, compadecer-se-á Ela de nossas misérias e de nossos túmulos.

Oh! como este dogma da Conceição Imaculada inunda de indizíveis consolações a alma do crente!...

O pobre pecador pode dizer de si para si: Sou infeliz, iníquo, coberto de manchas, mas há ao menos em minha família uma criatura bela, que é a mesma pureza, e não só a pureza, mas até a caridade...

Uma dobra de Seu manto cobrirá a minha miséria diante do justo Juíz!...

Deste modo a prerrogativa da imaculada Conceição torna-se um como bem de família e um tesouro em que nos podemos enriquecer. É o que fazia dizer a S. Hugo Magno: "Ó Maria, eu vos comparo a uma gota de orvalho que bastaria para purificar o mundo".

Porque Amo Maria? Ed. Paulinas, 1960 - págs 341-346.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Beleza de Maria [I]

Pe. Júlio Maria De Lombaerde

I - O IDEAL

A verdadeira beleza reside na alma. Só e isolada da beleza interior, a beleza visível é excessivamente vã, frágil e mesmo perigosa, desde o pecado, para ser digna de atrair os olhos criados para contemplar a Deus.

Há coisa melhor que a beleza física do semblante, pois há uma beleza moral, um esplendor das almas. Desde que o pecado perverteu o gosto do homem - ó coisa lamentável! - a beleza unicamente exterior não é mais que um atrativo da volúpia e uma fonte de desordens.

O mundo não sabe mais elevar-se acima do que o adula, para se elevar até ao Autor de toda beleza, e é nisto que consiste a sua miséria, sua dolorosa degeneração.

É por isso que se deviam antepor aos seus olhos, mais vezes e com mais instância, visões feitas de luz, de heroísmo e de pureza.

Da visão ao amor há apenas um passo, e o amor dirigido para o ideal divino, para a beleza moral, é o começo da regeneração e da santidade. O ideal da beleza absoluta só existe em Deus, pois só nEle se encontram, em todo o Seu esplendor, o "Verdadeiro" e "Bom", que, sem ser a essência do "Belo", são, entretanto, duas partes constitutivas, de tal modo que sem "Verdade" e sem "Bondade" a beleza não pode existir.

Difícil seria dizer precisamente em que consiste a beleza.

É uma certa relação, uma graça, uma harmonia de natureza, um não sei que, que todo mundo conhece e que se não pode ver sem amar.

O céu é a pátria do "Belo". - É sua morada, e aí pode o homem contemplá-lO a descoberto... ofuscar-se à Sua visão... lançar-se nEle... e dEle viver!...

Aqui na terra não possuímos mais que uma débil irradiação desta inefável beleza nas criaturas. Mas Deus não se contentou com isso. Querendo fazer-nos entrever este Belo infinito e essencial, que a alma nem sequer tinha suspeitado, abriu-se o céu por um instante para encantar o mundo com o seu ideal.

E era esta manifestação divina que fazia brotar do peito do imortal gênio de Hipona, Santo Agostinho, este brado de saudade e de deslumbramento: "Ó beleza sempre antiga e sempre nova, quão tarde eu te conheci, quão tarde eu te amei!"

"O belo essencial, disse Lamennais, é Cristo, em quem o ideal existe em seu mais alto grau. O Criador e a criação nEle são ao mesmo tempo distintos e inseparáveis - Aquele incorporado em Sua obra, esta espiritualizada em seu exemplar eterno. É o Belo completo, o Belo em suas relações com o Verdadeiro e com o Bom". (Esboço duma filosofia, III, p. 130)

Daí provém os dois caracteres distintos do Belo, cuja idéia não era conhecida pela antiguidade: - o infinito e o amor.

O Cristo é o infinito em perfeição. - Ele é o amor. É Deus sensível ao coração... - Deus amado como Homem, com o infinito de Deus. Mas como desceu esta beleza infinita até nós?

- É a grande pergunta que se deve fazer depois de cada um dos mistérios com que aprouve ao céu cercar-nos. Como?... - Por Maria: - "Mariae de quanatus est Christus".

Este belo é uma flor, e Maria é a sua haste! É Ela que O recebeu, tal qual Ele é em si mesmo, nesta beleza essencial e incriada que extasia os anjos e o próprio Deus, que reluz através de todas as maravilhas da natureza.

Maria tornou-se, como diz São Tomás, "A arca do Ideal!"

Por isso mesmo, dia o autor da "Virgem Maria", Maria é a obra prima deste Belo que se reproduziu nEla. Porque como Ele veio para se reproduzir nas almas, pela virtude sobrenatural de Sua graça, inerente à Sua encarnação, a primeira alma que Ele havia embelezado é a da Virgem, em que Ele se fez carne.

Eis por que, antes mesmo de descer nEla, preveniu-A com Suas graças, preservou-A com a arte de um Deus e todo o amor de um Filho, como o Seu tabernáculo, com a substância de que Ele mesmo queria ser feito.

Ela era desde então "cheia de graça".

E qual não devia ser Sua beleza, para que a natureza angélica se inclinasse diante dEla, e que o próprio Deus, na admiração de Sua obra, exclamasse, à Sua vista:

"Tota pulchra es, amica mea, et macula non est in te!" - Sois toda bela, ó minha amiga, e mácula alguma há em Vós!"

Já que chamamos Maria de "Santidade criada", podemos também chamá-lA, a beleza criada, isto é, a beleza por excelência entre todas as belezas criadas, desde a flor dos campos até ao serafim, não sendo sobrepujada senão pelo belo infinito e criador, que foi aqui na terra o fruto da virgindade, e que, saindo dEla, deixou-Lhe Sua forma de todas as belezas que Ele semeou em todo o universo.

Mas em que consistia esta beleza de Maria?...

"Consistia, diz o P. Binet, numa espécie de combate da natureza e da graça que entre si rivalizaram em enriquecê-lA e orná-lA de seus mais belos adornos".

"Afirmamos audaciosamente, diz Santo Alberto Magno, que a Virgem ultrapassou em graça e em beleza a todas as mulheres, pois possuiu em supremo grau a perfeição de que foi capaz um corpo mortal e que a natureza nada podia fazer de mais excelente".(Quaest. sup. missus est, 15, 3)

"Convinha, e este é o pensamento de Dionísio o Cartucho, que o Filho de Deus e a Mãe de Deus fossem dotados, no mais eminente grau, de todas as perfeições da natureza e da graça: - o Filho, por causa de Sua união hipostática à divindade; a Mãe, por causa da união com Deus, a mais estreita depois da que é própria ao Seu divino Filho". (De laud. excell. B. Virg., T. I, lib. 6, C. 9, n.18)

A beleza exerce sobre os homens um império soberano. Longe, aqui, as belezas profanas! Trata-se da beleza da alma, cujo irradiamento sobre uma fronte humana desanima o artista, maravilha os próprios anjos.

Maria é a criatura que mais se aproxima da beleza de Deus e que dEle trouxe o reflexo mais puro. Convinha que a Mãe do nosso Pontífice fosse como Ele "santa, inocente, imaculada, separada dos pecadores e mais elevada que os céus".

Era necessário ao novo Adão, como o fora ao primeiro, "uma auxiliar semelhante a si mesmo". Era necessária a plenitude de vida, de vida natural e de vida sobrenatural; era necessária a beleza encantadora! Como outrora, após Jesus, "todo mundo vai após Ela".

Beleza radiante! - Ela embeleza a religião e a Igreja.

No Credo Seu nome esparge como que um sorriso sobre os demais dogmas.

Seu exemplo, Sua ação nas almas faz florescer na Igreja as mais belas e heróicas virtudes.

Sem Ela a Igreja seria "como um ano sem o mês de maio".

É da alma, sobretudo, que vem a beleza. E é a graça que dá à alma seu aparato e seu brilho, de tal modo que as almas mais favorecidas da graça divina são, por isso mesmo, as mais belas.

Sigamos um instante esta maravilha da graça em Sua Conceição e em Seu contínuo crescimento - crescimento da graça, da glória e das virtudes.

Tantos abismos insondáveis, sem dúvida, mas cuja vista, não poderá senão deslumbrar nossos corações.

Ó Maria, aqui na terra o homem vai empós da beleza, para dar-lhe seu coração e suas afeições, deixa-se ofuscar por um pequeno raio, por uma sombra que passa! Por que não se apegaria ele ao contemplar-Vos... como o seu coração se dilataria a este espetáculo, como se encheria deste amor puro, ardente, forte como a morte, que Vossa beleza faz nascer em todos aqueles que A contemplam!...


Porque Amo Maria? Ed. Paulinas, 1960 - págs 337-341.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mês de Maio - Mês de Maria



Sem Ela a Igreja seria "como um ano sem o mês de maio".

Pe. Júlio Maria, em "Porque amo Maria?"

quinta-feira, 3 de março de 2011

A vida da Virgem em Nazareth...

Quem, durante a vida de Maria, passasse diante da casinha de Nazareth, nada notaria que destoasse da existência comum às famílias operarias: pobreza, trabalho, retraimento, eis o que caracterizava a aparência do lar humilde que abrigou o mais formoso dos filhos dos homens, e a mais santa das filhas de Eva.

Esta verdade não foi logo compreendida pelos artistas que porfiaram por fixar em suas telas a vida de Nossa Senhora em Nazareth.

É natural.

As coisas de Deus são, como as ciências terrestres, aprofundadas aos poucos. O tempo, a reflexão, a experiência ensinam a desembaraçar a verdade das meadas do erro. A meditação cristã foi ao culto mariano o que é a picareta ao veio precioso escondido nas entranhas do sub-solo. Até encontrar o ouro da verdadeira devoção marial, foi mister cavar e remover muitas idéias menos justas.

É assim que os primitivos pintores da Idade Média representavam a Virgem em atitudes hieráticas, numas posições solenes, com ares severos e feições um tanto duras. Maria rigidamente sentada, carrega com uma sacerdotal gravidade a Jesus que parece, não o menino amorável de Nazareth, mas sim o Soberano Senhor das coisas e o Doutor Universal. Nestas pinturas há mais o reflexo do temor reverencial do que do amor filial que à Virgem nos deve prender.

Esta representação de Nazareth era inexata.

Bem o compreenderam os artistas posteriores que humanizaram o delicioso grupo de Maria e de Jesus.

Jesus aparece ais menino, mais humano, deliciosamente infantil: esperneia, tende os bracinhos, chora, ri sorrir e tem todos os adoráveis caprichos dos petizes acalentados sobre o peito da mamãe. Embora nimbado com o arrebóis da divindade, o Jesus dos pintores ulteriores é mais parecido com o encantador bebê de Nazareth.

Maria desce igualmente de seu pedestal sublime e torna a ser a mãe meiga e solicita. Amamenta, envolve em cueiros, amima, consola, embala beija, abraça e acaricia a Jesus que, deste modo, participa de todos os carinhos que sabe inventar o afeto das mães. Os grandes mestres do pincel medieval nada esqueceram das graciosas atitudes que, verossimilmente, Maria tomou em Nazareth para provar ao seu filho o seu imenso amor, e para desempenhar o seu oficio de Mãe diligente.

Meditem as mães cristãs o seguinte edificante trecho de antigo autor:

“Em Nazareth, Maria repousava o rosto sobre as faces do filhinho a quem amamentava, consolando-o melhor possível, por isso que Jesus, como fazem as criancinhas, chorava freqüentes vezes porque abraçara a miséria de nossa humanidade”. 

Os pintores tiveram no Lar Nazarento uma inesgotável fonte de inspiração, e não deixaram inaproveitada nenhuma das cenas tocantes que fazem das famílias uns santuários de inocência, de pureza e de afetos ternos.

Queira Deus, Nosso Senhor, multiplicar os lares onde, à longínqua semelhança do de Nazareth, reinem, sobrenaturalisados pelo amor de Deus, os belos sentimentos


Fonte: Revista "Voz de Nazareth", nº 4, abril de 1930.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A Virgem Amável

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A amabilidade é uma virtude maior e mais sobrenatural do que se acredita geralmente: é irmã da caridade, ao mesmo tempo em que é o seu mais suave fruto. É um verdadeiro reflexo do Céu. E destes reflexos do Céu tanto precisamos nesta pobre terra, tão fria, tão gelada! O que a faz resplendecer um pouco, o que a reanima, é o calor do Céu.

A mesma coisa dá-se quando se trata da nossa existência: para levantá-la, animá-la, fazê-la brilhar um pouco, é preciso um resplendor do Céu. Pois se a caridade é a irradiação da alma, pode-se dizer que a amabilidade é a irradiação do coração.

Ser amável é possuir ao mesmo tempo um atrativo que atrai o coração dos outros, e um laço que liga esse coração ao nosso.

Seria a beleza, a elegância, a ciência, a educação, a virtude em geral?

Não! é mais do que isso. Sem dúvida, sem virtude é impossível ser perfeitamente e durante muito tempo amável; mas não se deve concluir que a virtude, debaixo de qualquer forma que se apresente, seja sempre amável. É preciso, como o diz o Apóstolo, que ela se faça tudo para todos, que se derrame, que se dê, e se dê sorrindo.

Em Nazareth houve, num supremo grau, esta arte deliciosa da amabilidade. Amabilidade que atraía, que ligava à Virgem Santa aos corações daqueles que se lhe aproximaram, como ainda em nossos dias, sem ver a sua fisionomia bendita, sua bondade e sua beleza atraem e ligam os corações daqueles que a conhecem, e isso ao ponto que São Bernardo a chamou: arrebatadora dos corações, “Raptrix cordium”.

Quem nos dera uma idéia das encantadoras cenas de amabilidade que se passaram debaixo do humilde teto de Nazareth.

Não falemos do Menino Jesus. É o ideal desafiando toda descrição. Quantas vezes por dia, quantas vezes de noite até, Maria e José se conservaram imóveis diante do adorável Menino, atraídos pela sua graça, ligados pela contemplação de tamanhas maravilhas de bondade.

Que suaves lágrimas derramaram os olhos da ditosa Mãe, quando o pequeno Jesus, veio propor-lhe suas perguntas infantis, radiantes de simplicidades e de candura.

“- Boa Mãe, não posso ser útil?”

“- Não posso ajudá-la nesta ocupação?”

“- Não poderia poupar-lhe esta pena?”

“- Dê-me uma ordem, mamãe, que bem obedecerei!”

“- Tanto gostaria de lhe provar meu amor!”

“- Tanta vontade tenho de agradar-lhe!”

Oh! doces suaves colóquios de amabilidade!

E quando a Virgem, que já levava no coração, a espada cruciante, que nele cravara o velho Simeão, no dia da Apresentação; quando Maria, via seu Jesus, a ser imolado um dia, para a salvação dos homens; Ela não mais continha suas lágrimas mas tomava o Menino, apertando-o ao coração, como que para subtraí-lo aos algozes. Oh! então como chorava, como sua santa mãe e como se esforçava por consolá-la!

“- Minha boa Mãe, por que choras? Ter-lhe-iam causado alguma mágoa? Quem são os que te fazem sofrer?”

E com sua mãozinha, cingindo o colo da Virgem, escondia a loura cabeça debaixo do véu de sua mãe, repetindo:

“Oh! boa mamãe, não chores, eu tanto te amo, e mais ainda amar-te-ei, mas enxuga teu pranto”.

Doce, a sublime comunhão do coração da Virgem e do seu divino Filho.

Algumas vezes derramaram-se lágrimas, em Nazareth... freqüentemente, até! Mas como estas lágrimas, depressa foram enxugadas pelo calor deste reflexo do Céu, que se chamava: a amabilidade de Jesus.

Se houve lágrimas, houve também alegrias profundas. Alegrias que nasceram desta amabilidade, qual nascem sob a influência do sopro tépido da primavera, flores que recreiam a vista, perfumam o ar, e produzem uma renovação de bem-estar e de vigor.

A amabilidade não é uma virtude separada: é a reunião de diversas grandes virtudes.

É a caridade, que se dá. E dar-se constitui uma felicidade incomparável, que só pode compreender quem já a experimentou.

É a humildade, que se abaixa. E abaixar-se é a marca das almas grandes e dos corações generosos.

É a paciência, que suporta. E suportar as injustiças e desatenções daqueles que nos cercam é a grande fonte de merecimento que devemos aproveitar para o Céu.

É afinal a força que nunca desanima, porque continuadamente tem diante dos olhos, o modelo e a recompensa.

E estas grandes virtudes enfeixadas constituem a amabilidade: virtude meiga, virtude atraente, e sobretudo virtude subjugadora.

Ser amável – é fazer refulgir nos outros esta luz de nossa alma que faz desabrochar o sorriso dos lábios e dilata o coração, como o raio de sol que faz desabrochar o botão de rosa.

Ser amável – é sempre ter nos lábios a doce palavra que levanta, reanima, consola, fortifica, como a gota de orvalho reergue, revigora e dar cor à planta que estava a fenecer.

Ser amável­ – é conservar no seu exterior esta graça de comportamento, esta simplicidade de maneiras, esta serenidade da fisionomia, esta benevolência do olhar, que se transmitem, se comunicam e que atraem as pessoas das nossas relações.

Tudo isso fazia-se em Nazareth, com uma naturalidade, com uma sinceridade, e com uma convicção que não reproduziremos, sem dúvida, mas de que nos podemos aproximar.

Por isso, basta afastar o que obsta ao desenvolvimento desta amabilidade.

O que é que fecha os corações? é o egoísmo. O que é que os estreita? é o amor das comodidades. O que é que os esfria e os insensibiliza? é a preocupação de si mesmo. O que é que os impede de atrair e de ligar-se aos outros? é a falta de fé e de caridade. Oh! pede, pois a Deus:

Esta bondade: que torna previdente;

Este amor: que torna dedicado;

Esta piedade: que impede a tristeza;

Este teto: que sabe agradar;

Esta união com Deus, que tudo sobrenaturaliza!

Resolução:

Em nossas relações com o próximo, com as pessoas, sobretudo, que nos são um tanto antipáticas, perguntêmo-nos às vezes: Como Maria Santíssima teria tratado tais pessoas?

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Pe. Júlio Maria De Lobaerde, Voz de Nazareth, nº 37, janeiro de 1916.