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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Escravos de Maria




CAPÍTULO VII
ESCRAVOS DE MARIA

Entramos no terceiro modo de dependência da Santíssima Virgem. Não satisfeitos com laços ordinários que nos unem a Ela como criaturas e como cristãos, almejamos confirmar este estado de dependência, dando-nos, como o amor se dá: sem reservas nem restrições.

O primeiro grau na Consagração voluntária à Santíssima Virgem e que serve de fundamento aos outros graus é conforme a palavra do Evangelho: “Quem se humilhar será exaltado”. Devemos humilhar-nos perante a Virgem Santíssima, para que Ela nos eleve até Jesus. Em outros termos: devemos proclamar-nos seus escravos, para que Ela nos eleve como filhos. Nada de mais ínfimo, nem de mais humilde que o escravo.

I. O que é a escravidão

Que é, em verdade, a escravidão de amor?

A escravidão é a dependência total e absoluta para com um senhor, de modo que o escravo não se pertença mais, mas fique sob o poder de seu dono, para que este se sirva dele à vontade e em proveito próprio.

“O escravo – diz Monsenhor Pio – pertence completamente e para sempre a seu dono, com tudo o que possui, sem exceção nenhuma. Trabalha sem exigir nenhum salário, sem que o Senhor tenha sobre ele direito de vida e morte (a lei natural como também a mosaica e as leis modernas não reconhecem tal poder a não ser por um mandato especial de Deus, que é o Senhor da vida). Montfort se põe aqui simplesmente do ponto de vista do fato, conforme as leis civis dos países onde vigorava em seu tempo a escravidão. Seu intento, abstraída a moralidade do ato, é dar um exemplo de dependência total (nota da 4.ª edição). O servo, ao contrário, é livre; presta seus serviços por um salário durante um tempo determinado, reservando sempre para si o direito de mudar”.

Basta esta simples definição para convencermo-nos que somos não simplesmente servos de Jesus Cristo e de Maria Santíssima, mas verdadeiramente escravos. E notai que não é uma fórmula nova, suspeita ou inspirada por uma devoção repleta de entusiasmo sentimental... É o pensamento fundamental da religião; ideia do Santo Batismo, que é o que há de mais radical em nós, como cristãos, (cf. Lhomeau, op. cit.). Montfort salienta três espécies de escravidão, ou, ao menos, três títulos que motivam esta dependência de Deus:

O primeiro – diz ele – é a escravidão por natureza; todas as criaturas são escravas de Deus neste sentido.

O segundo é a escravidão por constrangimento, em que alguém é reduzido à servidão, seja por violência, seja por uma lei justa ou injusta. Tal a escravidão dos demônios e dos réprobos.

O terceiro, enfim, é a escravidão por amor, ou por livre vontade. Esta é a mais gloriosa para Deus, que vê o coração e que se chama o Deus do coração ou da vontade amorosa.

Em resumo, e como aplicação destas três espécies de escravidão: todas as criaturas são escravas de Deus pelo primeiro modo; os demônios e réprobos, pela segunda; os justos e santos, pela terceira.

II. Significação do termo

Praticamente esta devoção da Santa Escravidão não é outra coisa, senão a ratificação, por livre escolha, do que já somos por natureza, isto é que constitui a glória e a felicidade dos justos e santos.

O sentido atual da palavra servo é recente; antigamente só se conhecia o senhor e o escravo. É neste sentido que se devem tomar as palavras latinas: servus – ancilla, empregadas outrora.

Quando os profetas designam o Messias como Servo de Deus (“Servus Dei”); quando São Paulo nos ensina que Jesus Cristo tomou a aparência do servo (“formam servi accipiens”); quando a Virgem Santíssima se intitula: “a serva do Senhor” (“ancilla Domini”); quando o grande Apóstolo dá a si mesmo o nome de servo de Cristo, etc., todos empregam esta palavra no sentido de escravo.

“Sou a escrava de Cristo – dizia Santa Ágata – e por este título me declaro de condição servil”.

“Para ser devoto escravo do Filho – escreveu Santo Ildelfonso – suspiro por tornar-me fiel escravo da Mãe”.

E São Bernardo: “Sou um vil escravo, para quem é honra demais servir, como tal, o Filho de Maria”.

Assim fala grande número de santos e de piedosos, sábios, como São Pedro Damião, Santa Teresa, São João Eudes, Venerável Olier, Padre de Condren, etc. A tão estimada oração de Santo Inácio: “Recebei, Senhor, minha liberdade”, bem como a do Pe. Zucchi: “Ó minha soberana...”, não são mais que fórmulas expressas da Santa Escravidão.

Os soberanos Pontífices sancionaram estas fórmulas. Urbano VIII, em 1636, aprovava os Cônegos do Espírito Santo, que se consagravam na qualidade de escravos a Jesus e Maria.

Leão XIII, em 1887 aprovou igualmente os “Escravos do Sagrado Coração”, e enriqueceu de indulgências uma congregação inspirada por Jesus Cristo a Santa Margarida Maria, que termina dizendo: “Quero fazer consistir toda a minha felicidade em viver e morrer como sua escrava”.

III. Escravo e amigo

A escravidão não está em oposição com o espírito de infância e de amor que anima o Cristianismo. Jesus disse: “Não vos chamarei mais servos, porém amigos”.

Isto, porém, nada prova contra esta devoção.

Quando um príncipe, pela amizade que tem a um de seus escravos, cumula-o de benefícios e o chama seu amigo, deixando-o no estado onde se acha, não deixa aquele de ser escravo, apesar do título de amigo do príncipe. Seu dono pode libertá-lo, sem dúvida.

Servindo-nos da comparação, somos como escravos diante de Deus. Deus, entretanto, não pode libertar-nos, pois que nossa escravidão está essencialmente ligada à nossa condição de criatura. Como o escravo feito amigo de seu príncipe, podemos tornar-nos “Amigos de Deus”, sem cessar de sermos escravos (cf. Franzelin: De Verbo Incarnato – Thes. 38. teol. 2).

As odiosas e abomináveis lembranças do paganismo desacreditaram a palavra escravidão; mas não queremos dizer que, preconizando a ideia de nossa servidão para com Deus, não repudiamos a tirania de muitos donos e a degradação dos escravos. Estas foram circunstâncias acidentais, que de nenhum modo entraram na essência desta condição.

Coraríamos de ser escravos de Deus, escravos de Jesus Cristo, escravos da ideal beleza de Maria, nós que nos gloriamos de ser escravos do nosso dever, escravos da honra, escravos de uma beleza efêmera às vezes?

Jesus Cristo e a sua Santíssima Mãe não estão infinitamente acima de todos esses passageiros encantos, que muitas vezes nos atraem para o ilícito, ao passo que a beleza de nossa Mãe nos atrai para o alto e nos transfigura?

IV . Humildade e elevação

Mas não se esqueçam: o que nos eleva e transfigura é o que nos humilha: “Qui se humiliat exaltatur”. E quanto mais profunda for nossa humilhação, tanto maior será nossa elevação.

Desejais crescer na intimidade de Deus? Abaixai-vos até o último grau; tornai-vos escravos...

Desenvolveremos mais tarde as belas e animadoras conclusões que defluem deste princípio. Basta, por enquanto, ter indicado e classificado a Santa Escravidão, seu fundamento e a retidão de seus termos e de sua prática.

Concluamos com as palavras de São Luís Maria Grignion de Montfort, o grande Apóstolo de Maria Santíssima:

“Atesto firmemente que, tendo lido quase todos os livros que se referem à Mãe de Deus e conversado familiarmente com os mais santos e sábios personagens destes últimos tempos, não conheci nem aprendi prática para com a Santíssima Virgem semelhante à que vou expor, capaz de exibir de uma alma os maiores sacrifícios por Deus, desapego de si mesma e de seu amor próprio, mais fidelidade na conservação da graça, ou na aquisição desta, que a una de modo mais perfeito e mais fácil a Jesus Cristo, e, finalmente que seja mais gloriosa para Deus, mais santificante para a alma e mais útil ao próximo” (Tratado da Verdadeira Devoção).

Paremos no pensamento da sublimidade desta prática e peçamos a Deus a sua compreensão, pois é um segredo, e um segredo que não se revela senão às almas humildes e generosas.

Oxalá sejamos deste número!

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Segredo da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria [VIII]




CAPÍTULO VI
 OS FILHOS DE MARIA

Após o título de “servo de Maria”, comum a todas as criaturas, existe um outro, mais íntimo, mais consolador, mais fecundo em graças, e que não constitui apenas uma garantia de salvação, mas um penhor de perfeição. É aquele que nos é conferido pelo Santo Batismo: filhos de Deus e de Maria – Este capítulo, embora trate em geral dos filhos ou filhas de Maria, convém, de um modo especial, às FILHAS DE MARIA, que ao seu título comum ajuntam o título particular de “Pia União”, externando assim uma dependência mais amorosa da Virgem Imaculada.
Sejam estas almas ESCOLHIDAS dignas deste nobre título... Para elas, sobretudo, a Santíssima Virgem será sempre Mãe cheia de ternura.
Ser SERVO de Maria é já esplêndido e consolador! Mas ser FILHO ou FILHA de uma tal Mãe é ter com segurança, sempre a nosso serviço:
Seu coração, para compadecer-se de nossas penas;
Seu olhar, para seguir-nos em toda parte;
Suas mãos, para comunicar-nos os tesouros de seu Filho;
Seus braços, para sustentar-nos no caminho;
Sua alma, sobretudo, para nela acharmos com que cobrir nossas misérias e adornar a nossa alma com seus merecimentos.
E não temos nós necessidade de tudo isso? O servo trabalha por interesse; seus serviços são devidamente remunerados. É na recompensa que o servo encontra o maior motivo de dedicação.
O filho nada espera; seus serviços são prestados sem recompensa convencionada. Trabalhando para seus pais, sabe que trabalha para si. É um membro da família, a ela está ligado pelos laços mais íntimos de amizade e de afeição... dedica-se unicamente por amor.
Também ele, é servo. Porém, é mais que isso: é filho; serve... mas serve por amor.
Ó Maria, doce e incomparável Virgem, tu és verdadeiramente nossa Mãe!... Faze que sejamos teus dignos filhos! Dignos de teu coração – dignos de teus cuidados, de tua solicitude; dignos sobretudo, de tua bondade!
I. Grandeza deste título
Maria é nossa Mãe! Doce e consoladora verdade!
Pensemos com amor na consequência: Somos seus filhos!
“Confiança preciosa! Refúgio seguro! – exclama Santo Anselmo – a Mãe de Deus é minha Mãe! – Mater Dei est Mater mea”.
“Ah! Minha alma – acrescenta São Boaventura – diz com toda a segurança: Alegrar-me-ei, exultarei de prazer, porque, seja qual for o julgamento que mereça, minha sentença depende de meu Irmão e de minha Mãe”.
Não o esqueçamos, porém: “Nobreza obriga”.
Os filhos, geralmente, se comprazem em ouvir falar que são dignos de seus pais, que têm traços de semelhança com eles, etc.
Filho e filha de Maria, não sejais estranhos a este justo sentimento!
Um servo de Maria pode adiar na dependência da Virgem Santa uma garantia de salvação. Um filho de Maria deve nela achar um penhor de perfeição.
Que fazer para conseguí-lo? Ser um verdadeiro filho de Maria!
II. Deveres de um Filho
Um filho deve à sua mãe: obediência, honra e amor.
Jesus Cristo cumpriu este tríplice dever para com Aquela que Ele chamava “sua Mãe” e que, na verdade, o era. Seria possível haver hesitação para seguirmos seus passos e prestarmos à Virgem-Mãe homenagens, de que Ele próprio nos deu o exemplo?
Obediência a Maria, para cumprir os mandamentos da lei de Deus e da Igreja, e nossos deveres de estado.
Honra, para prestar, com sinceridade, o culto que lhe é devido. Amor, invocando-a e esforçando-nos para nos assemelharmos a Ela, tanto quanto possível.
Somos filhos de Maria! Doce e consolador pensamento!
Aqui na terra um filho se orgulha da honra de sua mãe, da bondade, do poder daquela que lhe deu a vida. Oh! Como podemos ufanar-nos de Maria! O título de filho de Maria contém entretanto mais que isso. O servo trabalha para seu dono; o filho, ainda fraco, não pode trabalhar, por estar na idade de formação... Deve primeiro ser educado. O filho deve ser educado. – Palavra profunda e significativa!
De fato, a mãe educa seu filho, em primeiro lugar na vida material, até que, superando sua fraqueza nativa, ele possa sustentar-se.
Verdadeiramente, tudo isso é a tarefa da Virgem Mãe e a imagem de nossa educação espiritual.
Não precisamos ser elevados acima desta vida dos sentidos; terrestre e animal, na qual fraquejamos e caímos a cada instante?
Fracos demais para sustentar-nos, temos como as crianças, necessidade da mão materna que nos sustenha a cada instante, que nos encaminhe e nos soerga para as coisas elevadas.
Mas, se temos as fraquezas e defeitos da infância, podemos, e até mesmo devemos, adquirir as qualidades d’Ela.
O que as crianças são por condição e necessidade, devemos ser por virtude.
Este é o sentido daquela palavra de Jesus: “Se não vos assemelhardes às crianças, não entrareis no reino do céu”.
III. A dependência dos filhos
É próprio da infância, e é seu distintivo mais notável viver em estado de dependência. A quem está entregue a criança? À mãe.
De toda criança pode-se dizer o que Monsenhor Gay escreve a respeito do Menino Jesus:
“Sua infância esteve entregue a sua Santa Mãe. Durante os nove meses que Ela o trouxe em suas puríssimas entranhas, só pertencia a Ela. Todo o tempo de sua meninice, Ele não a deixou. Era nos seus braços que repousava e sobre o seu peito que respirava e vivia; era d’Ela imediatamente que dependia em todas as coisas. José é o chefe da Sagrada Família; mas durante os primeiros anos o pai aparece menos que a Mãe. Mais tarde, em Nazaré, sua autoridade se exerce mais visivelmente; é a ordem, pois o pai deve dirigir o filho adolescente. Em Belém, no Templo de Jerusalém, e no começo de sua vida no Egito, o primeiro papel cabe a Maria. Somente Ela o envolve e o veste; somente Ela o alimenta e aquece; e quando é preciso ir aqui ou ali, Ela é quem o leva” – cf. Mons. Gay, XIX, Elevação.
 Tal deve ser o papel da Virgem Santíssima para conosco, seus filhos. Precisamos ser     educados na sua escola, pelos seus cuidados, sob o seu olhar... Devemos viver perto d’Ela.
Viver perto de Maria, sob seu olhar vigilante, perto, pertinho de seu coração... eis a vida de um verdadeiro filho de Maria!
Não vivemos de coração e de espírito com aqueles que nos são caros, mesmo depois de a morte no-los ter arrebatado dos braços?
Por que não viveríamos deste modo perto de Maria?
Sua lembrança seria tão suave, tão animadora, nas horas de fraqueza! Suas lágrimas e seus sorrisos, suavizariam tanto as revoltas e rebeliões dos sentidos!...
Que irradiação de paz seria para as almas o sentirem-se amadas!
Que esperança de perdão para o culpado o ver-se protegido!
Ser dirigido, que abundância de graças para o coração que deseja dedicar-se!
Que luz nas dificuldades da vida! Uma mãe está sempre presente.
“Podeis ter amigos, quantos quiserdes – diz Monsenhor Pio – amigos fiéis, ternos quanto possível; nunca uma criatura vos amará como vossa mãe”.
“Maria nos ama – diz Santo Stanislau Kostka – como Ela amava a seu Filho Jesus”. – Ela tem por nós o mesmo interesse e nos cerca dos mesmos cuidados, da mesma dedicação. É preciso, pois, ir a Ela com a mesma confiança que seu divino Filho.
Oh! Vivamos perto de nossa Mãe! Cerquemo-nos da lembrança de Maria, como de um manto para abrigar-nos, como de uma luz e de uma força que não nos deixem nunca separar de Deus. Servos de Maria, devemos-lhe dedicação. Filhos de Maria, devemos-lhe filial amor.
IV. O exemplo do Menino Jesus
Para terminar, escutai esta página de São Francisco de Sales:
Se alguém tivesse perguntado ao Menino Jesus, durante o tempo em que foi levado nos braços de sua Santa Mãe, onde ia, Ele teria respondido:
– Não vou, é minha Mãe que vai por mim.
– Mas, ao menos, vais com tua Mãe?
– Não, se vou onde minha Mãe me leva, não vou com Ela, nem com meus próprios passos, mas vou pelos passos de minha Mãe, por Ela e nela.
– Mas, ao menos, ó querido Menino, te deixas levar por tua doce Mãe?
– Não, de certo nada quero de tudo isso; mas como minha bondosa Mãe anda por mim, também Ela quer por mim. Deixo-lhe igualmente o cuidado de ir e de querer ir por mim, aonde bem lhe parecer, e, como ando somente pelos seus passos, assim só quero pelo seu querer.

Eis, em resumo, nossa regra de comportamento como “filhos de Maria”: a docilidade e a vida de união. Conceda-nos a boa Mãe viver uma tal vida, pois é tão suave viver perto de um coração de mãe!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O Segredo da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria [VII]





CAPÍTULO V
SERVOS DE MARIA

Todos nós pertencemos a Maria Santíssima. Por natureza, todos os homens são necessariamente Servos de Maria. Exprime-o São Bernardino de Sena: “Quantas são as criaturas que servem a Deus, tantos são que devem servir a Maria. E estando os anjos, os homens, e todas as coisas que há no céu e na terra sujeitos ao império de Deus, submetidos devem estar, também, ao domínio desta celeste Rainha”.

Pelo Batismo, que nos faz filhos de Deus e herdeiros do seu reino, apertam-se os vínculos de nossa união à Virgem Santíssima; e nos tornamos seus filhos, mediante a nossa elevação a uma ordem superior.

Como homens, somos, então: SERVOS de Maria Santíssima.

Como cristãos, somos: SEUS FILHOS.

I. Título de dependência

Estes títulos são gerais e convêm a todos. Mais, não seria possível irmos além... subirmos ainda mais alto pela doação de nós mesmos à augusta Mãe de Deus? Mostra-nos o exemplo dos santos que a estes títulos comuns, a estes laços de afetos podemos juntar outros mais particulares, mais íntimos, inspirados por um amor intenso.

Servos, por natureza – filhos, pelo Batismo – podemos proclamar- nos escravos de Maria Santíssima por amor. E não é só. Impulsionados pelo ardor de torná-la conhecida e amada, podemos fazer-nos seus apóstolos. E, muito mais ainda, almejando participar plenamente de sua vida de imolação, poderemos ofertar-nos a ela como vítimas.

E por que não dizer tudo? Há um derradeiro título, mais sagrado ainda que os outros, e que parece reuni-los todos numa intimidade de vida e de ação; título que ultrapassa todas as nossas humanas e ínfimas concepções; é o de esposo espiritual da Virgem Imaculada.

Este grau não convém a todas as categorias de pessoas, conquanto todos a ele possam aspirar. Somente as almas superiores que se sentirem apaixonadas por Maria Santíssima poderão tomá-lo sob o impulso da graça e consentimento de um competente diretor espiritual.

Em resumo: acima do que já somos por natureza e em virtude do Batismo, podemos declarar-nos por amor:

ESCRAVOS de Maria;
APÓSTOLOS de Maria;
VÍTIMAS de Maria;
ESPOSOS ESPIRITUAIS de Maria.

Ponderemos cada um destes modos de dependência, assim como as obrigações que cada um contém. Por fim, concentremo-nos sobre o modo que parece ser, há um tempo, princípio e base dos outros: – a Santa Escravidão. É ela a Verdadeira Devoção ensinada por Santo Luís Maria Grignion de Montfort.

São Luís Maria Grignion de Montfort, nasceu em 1673, em Montforf-sur-mer – França, e morreu em 1716, em Saint Laurent-sur-Sèvre, depois de uma vida maravilhosa, toda dedicada à Virgem Santíssima, com o auxílio de quem fez inumeráveis conversões. Pode ser colocado na galeria dos grandes apóstolos da França. Escreveu diversas obras. A principal intitula-se: “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria”. Obra que parecendo inspirada, serve hoje de base a todos os estudos referentes à Mãe de Deus. Foi canonizado a 20 de julho de 1947.

II. Deveres de um servo

Principiemos pelo título de servo.

Já dissemos que todos nós somos servos da Santíssima Virgem, pois, como diz São Bernardino de Sena, “a soberania da Mãe de Deus não tem limites nem no céu nem na terra”. “Todos os seres, sem exceção alguma, estão sob o domínio divino, e pela mesma razão, sob o domínio de Maria”. “O Filho comum de Deus Pai e da augusta Virgem colocou, por assim dizer, em igual plano a autoridade de sua Mãe e a de seu Pai” – cf. De Nativ. B. V. cap. VI.

E Dionísio, o cartuxo, exclama, por sua vez: “Ó Rainha gloriosa e cumulada de graças, é justo que tudo se coloque sob vosso domínio, seja no céu, seja na terra; pois Deus, o Criador de tudo, houve por bem obedecer-vos” – cf. De laud B. V. cap.VI.

Mas, que é um servo?

É um homem a serviço de outro que recebe por remuneração de seu trabalho um salário de antemão combinado. O servo entra na família de seu amo; deve tomar a peito os interesses da propriedade, defender seu senhor, e prestar-lhe todos os serviços possíveis.

Pela criação e redenção, todos somos servos de Deus e, em conseqüência, servos de sua Santa Mãe. Somos, pois, membros da família de Maria. O templo de seu divino Filho é nossa morada. Seus interesses devem ser os nossos. Por recompensa de nossos serviços, a Virgem Santíssima nos promete o céu. É o que afirma São Bernardo: – “Um verdadeiro servo de Maria não pode perder-se”.

E então, que é preciso para sermos verdadeiros servos, e termos direito a tão animadora promessa? Muitas pessoas pensam que é suficiente recitar de quando em vez uma oração em honra de Maria Santíssima. Que basta enfeitar-lhe uma imagem. Que basta queimar em seus santuários, de tempos em tempos, algumas velas. Que é o bastante ser fiel a alguma prática de devoção, sem mesmo renunciar ao pecado.

Nenhuma destas devoções é má em si mesma. Contanto que não se prevaleçam delas para viver na inimizade de Deus. Podem elas até alcançar a conversão do pobre pecador. São, porém, insuficientes, para assegurar a salvação eterna. Para que um servo de Maria tenha direito às consoladoras promessas da Rainha do céu, é mister que se mostre digno e verdadeiro servo.

“Por isso, acrescenta um teólogo, – Vermeersch, S. J., Meditações, P. 240 – nossa devoção deve ser sincera e cristã”. E para ser sincera, é preciso que o coração deseje, verdadeiramente, honrar Maria e testemunhar-lhe confiança. Nenhuma prática particular é exigida para isso. Entretanto, a que se adotar seja significativa e exprima uma verdadeira confiança nesta boa Mãe. Nossa devoção deve ser cristã, isto é, em ordem à nossa santificação.

III. O estado de graça

O estado de graça é indispensável. Ora, o pecador pode recobrar, por Maria, a graça e amizade de Deus e chegar ao termo da predestinação – Bordaloue: Sermão sobre a devoção a Maria Santíssima, 2.ª parte.

Mas é preciso ao menos um certo desejo de recuperar a graça de Deus, uma vontade de proceder melhor. E é a isso que devem tender as práticas de devoção a Santa Mãe de Deus. Não basta a intenção de agradar à Santíssima Virgem. Devesse pôr como princípio de boa vontade, a fuga do pecado e a volta completa para Deus. Só deste modo poder-se-á obter, por intermédio da Mãe celestial, a misericórdia divina.

Portanto, é absolutamente necessário banir da alma a temeridade estulta de procurar, numa prática de devoção, um meio de continuar a pecar impunemente. Maria quer levar-nos a Jesus Cristo; é impossível, pois, que Ela satisfaça intento tão criminoso como seria honrar a Mãe para mais facilmente ofender o Filho!

Esta condição é essencial. Não se pode duvidar, entretanto, que a devoção produzirá tanto mais segura e magnificamente seus efeitos em nós, quanto maior e mais sincera for nossa dedicação.

Ser servo de Maria é, pois, uma garantia de salvação. No entanto, esta dependência não muda nenhuma das condições de salvação, estabelecidas por Deus. Seremos salvos pela graça de Deus. E alcançamos esta graça mediante os merecimentos de Jesus Cristo e nossa cooperação. Mas esperamos um auxílio de Maria Santíssima, uma oração sua que faça descer sobre nós favores mais abundantes da graça, e assim teremos a certeza de morrer bem. É, pois, em razão de nos assegurar tal auxílio, que a devoção à Mãe de Deus é sinal e penhor de eterna salvação.

IV. A salvação por Maria

Mas, se assim é, dirá alguém, porque celebrar esta segurança de salvação como sendo um apanágio da devoção à Mãe de Deus? Ora, será reprovado aquele que é verdadeiramente dedicado a Deus? – Evidentemente, não! Como poderíamos duvidar do poder e da bondade do Salvador de nossas almas, d’Aquele que criou Maria Santíssima e que sempre, com tamanha ternura, acolheu os pecadores desejosos de conversão?

Acharemos resposta à dificuldade, se ponderarmos que, para alcançar um fim, não basta possuir os meios: é preciso saber empregá-los. Jesus Cristo é Juiz e Salvador.

Ora, como será possível, em face disto, que o pecador tenha por Ele uma devoção inspirada pela confiança? Após o pecado, o grito natural da alma é o grito de São Pedro: “Senhor, afasta-te de mim que sou um pecador”. Este obstáculo à confiança desaparece somente quando podemos apresentar-nos a Jesus Cristo apoiados nesta Rainha puríssima, toda misericordiosa.

Eis o socorro por que Maria completa acidentalmente o desígnio divino da redenção. Eis como, sem nada subtrair à glória do Filho primogênito, Ela salva a todos os outros filhos que Deus lhe deu.

Pobres pecadores! A justiça do Filho pode espantar-vos e ameaçar-vos! Mas, que a misericórdia da Mãe vos atraia! Quando uma criança incorre na indignação do pai, e este a ameaça, ela se lança nos braços da mãe, não para afrontar o pai, mas para receber o perdão por meio dela que, com certeza, há de sentir-se comovida ante este ato de confiança.

Assim deve ser conosco. Digamos, então, muitas vezes, a esta boa Mãe que não cesse de implorar por nós diante de seu Jesus, de seu Filho, de Nosso Senhor. “Assidue pro nobis precare Iesum, Filium tuum et Dominum nostrum”. – Dizia São João Crisóstomo. E teremos certa a nossa salvação. É o que diz Santo Agostinho: – “Aquele por quem a Mãe de Deus reza ainda que só uma vez, salvar-se-á irrevogavelmente” – Cf.. muitos textos dos Santos Padres sobre o assunto em nossa obra: “Porque amo Maria”, cap. XIV.

Feliz aquele que se mostra verdadeiro servo de Maria!

Pode ter fraquezas e até cair, mas contanto que deseje sair deste seu estado e que invoque a Maria, alcançará a força de viver como bom cristão e de não ser indigno da proteção da Rainha do céu.

Postas estas condições, ele poderá pretender, com sua dedicação à Santíssima Virgem, uma garantia de perdão e de salvação.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O Segredo da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria [VII]



CAPÍTULO IV
O MEIO DE UNIÃO A JESUS

Depois de mostrar a meta e o caminho que conduz até lá, é preciso indicar o meio. Indiquemo-lo desde já. Este meio é Maria Santíssima.

O papel de Maria é gerar Jesus Cristo em nós.  Provemos esta verdade, estudando como se faz tal gestação.

Esta função encerra toda a economia de sua intercessão e da sua mediação, e resume as questões mais profundas de nossa santa religião.

Embora seja um ponto um tanto filosófico, não devemos, entretanto, preteri-lo.

Para mostrar que tudo devemos a Maria, e que tudo nos vem por meio d’Ela, podemos apoiar-nos sobre este axioma: “Causa causae est causa causati”. Isto é, a uma causa se deve atribuir não somente o que ela mesma opera, mas também tudo o que ela faz operar pelos outros.

Jesus feito Homem é o Nosso Salvador. E é d’Ele que nos chega toda graça. Ele é a causa imediata e eficiente de nossa salvação.

Mas foi por Maria que Ele se fez Homem. Foi como Salvador e Senhor que Maria O concebeu e O deu à luz.

Logo, Maria é a causa mediata e moral de nossa salvação, já que, segundo o desígnio divino, sem Ela, estaríamos privados do Salvador.

“Do mesmo modo que Eva pela desobediência foi causa de sua ruína e da ruína de todo o gênero humano, – diz Santo Irineu – assim Maria, pela obediência, é a causa da sua salvação e da salvação de todos os homens” – Santo Irineu – Adversus haereses, III. C. XXXIII.

I. O que é graça
Para compreendermos a mediação de Maria e a glória inefável que d’Ela lhe advém, é preciso que tenhamos uma noção exata do que seja graça.

A graça – dizem os teólogos – não é uma substância. Não pode subsistir em si mesma, como a brancura de uma casa, o perfume de uma flor, a beleza de um quadro, não podem subsistir sem esta casa, sem esta flor, ou este quadro, dos quais são qualidades.

A brancura é um acidente, um modo de ser, uma qualidade da casa; o perfume é uma qualidade da flor; a beleza, uma qualidade do quadro. Assim, a graça é uma qualidade de nossa alma.

É a qualidade que a torna agradável a Deus. Ou, sob outro ponto de vista, um acidente que a dispõe para operar de modo sobrenatural.

A graça atual é, de fato, qualidade sobrenatural que nos faz agir de um modo sobrenatural; ou, ainda, são atos da Providência divina, dispondo as coisas com o fim de nos proporcionar a graça, e finalmente a salvação.

Tal é a graça, quer santificante – também chamada habitual – quer atual.

Pois bem, todas estas graças, Deus no-las dá por Maria Santíssima. É a Virgem sem mancha que no-las distribui. É uma verdade aceita por todos.

A razão é que “a ordem estabelecida por Deus não muda”. Aprouve-lhe dar-nos, por Maria Santíssima, o autor da graça. É preciso, por conseguinte, que todas as graças derivadas desta graça primeira – e todas derivam dela – nos venham por Maria.

É o raciocínio de Bossuet.Montfort diz por sua vez: “Quem quer ser membro de Jesus Cristo deve ser formado em Maria, pela graça de Cristo, que nela está em plenitude, para ser comunicada aos membros verdadeiros do Salvador” – cf. Segredo de Maria.

II. Elevação de Maria
Maria é a tesoureira das graças divinas. Mas, como acabamos de ver, não se distribuem graças como se distribuem moedas. A moeda existe em si mesma, independente de quem a distribui: Mas a graça não subsiste em si; é uma qualidade da alma.

Antes, pois, de dá-la, é mister que o doador a possua primeiro em sua própria alma. Maria é a dispensadora de todas as graças divinas. É ela quem tudo distribui. Logo, é d’Ela esta graça ou vida divina. Não é, sem dúvida, uma porção de sua substância; mas é, verdadeiramente, uma coisa que lhe pertence.

Que suave este pensamento que eleva a Santíssima Virgem a uma altura quase infinita! E não podia ser doutro modo; se,como diz Santo Tomás, é infinita a dignidade da Mãe de Deus, infinita deve ser, também, a sua elevação, pois uma deve ser proporcional à outra.

Sublime elevação!

Todas as graças, quer habituais, quer atuais antes de adornar nossas almas, adornaram a alma de Maria.

A comunicação da graça é, deste modo, uma espécie de contacto de nossa alma com a alma da Virgem Imaculada. Contacto dulcíssimo em que, nossa alma se aquece, ilumina e diviniza.

Compreendeis agora a intimidade que existe entre Deus e Maria, entre Maria e nossa alma? Como dissemos acima, é um círculo perfeito:

De Deus, por Jesus,
a nós, por Maria.
E, nossas relações com Deus:
Por Maria, a Jesus;
Por Jesus, a Deus.

Depois disso, podemos compreender melhor como a graça é verdadeiramente uma participação da natureza divina; participação que se faz por intermédio de Maria.

É a essência mesma da religião. Deus e o homem se encontram. E a Virgem Mãe é o templo em que se efetua este encontro.

Compreendemos, também, agora, as expressões dos santos aparentemente exageradas ao proclamarem a graça da Mãe de Deus superior à de todos os anjos e santos; ao afirmarem que Ela é mais querida de Deus e ama a Deus muito mais que todas as criaturas reunidas.

III. Papel de Maria
Mostremos como se opera a comunicação da graça de Maria Santíssima às nossas almas. Para compreendê-lo, basta que nos lembremos do papel da Santíssima Virgem no mistério da Encarnação; suas funções na distribuição da graça, são as mesmas que neste mistério.

Quando o Verbo se fez carne, foi o Espírito Santo quem formou seu corpo. Maria Santíssima forneceu a matéria, o sangue imaculado, depois de ter consentido que o mistério se realizasse – cf. A. Lhoumeau: – “La vie spirituelle à l’école du Montfort”, obra de profunda e sólida teologia.

Auxílio e consentimento – eis em que consiste, de modo principal, sua cooperação. Deus produz a graça, e Maria concorre como ministro e instrumento; ou, ainda, para nos dispor a recebê-la, ministerialiter et dispositive, segundo o dizer dos teólogos.

Para receber a graça é necessário o concurso e a vontade de Maria Santíssima.

Disse um dia a Virgem Santíssima à sua pequena Serva, Maria Lataste: “Pede-se uma graça, Deus consente, meu Filho concede-a, e eu a transmito”.

Dar-nos a graça, fazer-nos comungar a natureza divina... que é isto senão formar Jesus Cristo em nós, fazê-lo crescer em nós?

Tudo isto mostra, luminosamente, a função de Maria Santíssima na obra de nossa santificação. Que é santidade? A santidade não é outra coisa senão a plena conformação de nossa vontade com a vontade de Deus.

Um notável escritor ampliou esta asserção, dizendo: “A santidade consiste em aderir a Deus, de maneira a ter com Ele um só e mesmo espírito; de maneira a estar penetrado de sua graça, de sua vida, dependente de seus impulsos, conformando-se a seus pensamentos, abandonando-se a seu belprazer; de modo enfim, a estar possuída por Ele, e a não ter mais uma vida própria e independente” – Mgr. Gay. 105. De la Sainteté.

Eis o fim. Vejamos o meio de alcançá-lo. Este meio, nos é indicado pelas mesmas palavras do virtuoso Bispo, aplicadas a Maria Santíssima.

A santidade é, assim, aderir a Maria de maneira a ter com Ela um só e mesmo espírito; de maneira a estar penetrado de sua graça – já explicamos no começo deste capítulo, § II, em que sentido a graça pode ser chamada SUA – , de sua vida, dependente de seus impulsos, conformado com seus desejos, abandonado a sua vontade; de maneira, enfim, a estar como possuído por Ela, e a não ter mais uma vida própria e independente.

IV. União com Maria
A doutrina precedente merece atento estudo, pois demonstra a necessidade que temos de uma Consagração completa de nós mesmos à Virgem Santíssima.

Nossa perfeição consiste em estarmos unidos a Jesus Cristo pela graça. E a graça está em Maria. Será pois, mais intimamente unido a Jesus, e conseqüentemente mais perfeito quem mais intimamente se unir à Virgem Mãe. A união a Maria e a medida de união a Jesus Cristo, e portanto de perfeição. Quem mais semelhante for à Santíssima Virgem, mais se parecerá com Jesus Cristo.

Modelar-se sobre a Santíssima Virgem é modelar-se sobre Jesus Cristo. Depender de Maria é depender de Jesus. Viver para Ela é viver para Deus, pois quem vive em Maria é Jesus, Jesus que ela faz viver em nós.

Quanto mais íntima for a nossa união com Maria, tanto mais Jesus Cristo viverá em nós, e tanto mais abundante será a nossa graça.

Após estas verdades fundamentais, bem provadas, cumpre examinar de que modo podemos unir-nos a Maria Santíssima, e que dentre estes diversos modos é o mais profícuo para nós mesmos. Será o assunto dos capítulos seguintes.

sábado, 5 de março de 2011

O Segredo da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria [VI]




CAPÍTULO III
A META E O CAMINHO

Antes de entrarmos nos pormenores da doutrina que queremos desenvolver aqui, é mister considerar e determinar teologicamente a meta final e o caminho que nos deve conduzir até lá. Evitaremos assim, toda hesitação em questões delicadíssimas de tão profundo alcance na vida espiritual.

Precisemos, pois, rigorosamente,o papel da Virgem Imaculada em relação a Jesus Cristo e a nossa alma. Este ponto de vista, substancialmente contido no axioma, hoje clássico: – “Ad Iesum per Mariam” – “A Jesus por Maria” – é a base fundamental da espiritualidade mariana.

I. Presença de Jesus em nós

É por não terem compreendido esta meta e esta via, que certos autores, embora louvem e exaltem a Virgem Santíssima, não lhe dão, entretanto, o lugar que merece e deve ocupar conforme os desígnios divinos. Receando exagerar, diminuem-lhe o valor. E deste modo, mostram-nos Maria diminuída, muito abaixo do ideal de nossos corações e da realidade. Oxalá possamos evitar este escolho e mostrar Maria tal qual é, em todo o esplendor de seu poder e condescendente misericórdia!

Nosso Senhor disse de si mesmo, que Ele é para todos: “ o caminho, a verdade e a vida”. São Paulo, na sua linguagem enérgica, nos diz que a sua vida sobrenatural é Cristo: “Mihi vivere Christus est”.

Jesus Cristo deve viver e crescer em nós. “Cresçamos, – diz ainda o grande Apóstolo – cresçamos em Cristo, de toda maneira, por toda espécie de boas obras, santificando-nos em todas as coisas”.

Jesus Cristo vive em nós, porque é o princípio e a causa eficiente de nossa vida sobrenatural, da mesma forma que é o exemplar de nosso estado de graça.

Quem examina a fotografia de alguém, diz: “É ele mesmo!” De igual modo e com mais razão se pode dizer da alma em estado de graça: “É Cristo mesmo!”.

Jesus reside em nós pela fé e pela caridade, segundo sua própria palavra: “Se alguém me ama... meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos n’Ele nossa morada” – Jo 14, 23.

Mas como entender esta presença de Jesus Cristo em nós? Não pode ser pela substância de sua humanidade. Esta sagrada humanidade só está substancialmente em nós na Comunhão Eucarística. Resta apenas um outro meio de sua presença: pela divindade.

E como está Ele em nós pela divindade?

Mediante a graça, que é uma participação à natureza divina. “Pela graça – diz São Pedro – participamos da natureza divina” – “Divinae consortes naturae...”. Escutemos a este respeito o grande Santo Tomás – I. q. XLIII, a. 3.

“Acima do modo comum, pelo qual Deus habita em toda criatura, há um modo especial, por que Ele exclusivamente habita na criatura racional, e é como o conhecido está naquele que o conhece, e o amado no amante” – Sicut cognitum in cognoscente et amatum in amante.

“Mas, como a criatura que conhece e ama – trata-se do conhecimento pela fé, e o do amor pela caridade – alcança Deus mesmo por sua operação, resulta disso que Deus, por este modo de presença, não só está presente na criatura, mas nela habita, como em um templo”.

II. Participação da natureza divina

Notemos ainda que a graça não muda a nossa natureza na de Deus. A natureza divina é incomunicável. Ficamos totalmente homens. Só Deus nos pode dar uma perfeição modelada sobre sua natureza – um grande teólogo, Franzelin, caracteriza a nossa participação na natureza divina por duas palavras: formaliter et analogice. É uma forma de maneira de ser divina. Mas, em Deus, ela é a essência; em nós, acidente. Isto nos permitirá operar como Deus, enquanto a criatura for capaz de assim agir.

Qual é a operação própria de Deus?

É a de conhecer-se e amar-se com um amor correspondente a este conhecimento. Logo, quando, pela graça, Deus nos faz conhecê-lo e amá-lo aqui na terra na ordem da fé, e no céu, na ordem da glória, participamos, verdadeiramente da natureza divina. Temos em nós a vida de Deus. Pois, como disse Nosso Senhor, “a vida eterna consiste em conhecer-te, a ti só, Deus verdadeiro, e Àquele que enviaste, Jesus Cristo” – Jo 17,23.

Pela fé e pela caridade alcançamos a própria essência de Deus! Não diz São João que a essência de Deus é caridade? – “Deus Caritas est”. Sem dúvida, a fé não faz conhecer a Deus senão imperfeitamente. Ela no-lo mostra, diz São Paulo, “como num espelho”. Mas, um dia, na glória, a nossa inteligência poderá vê-lo face a face.

E quanto à caridade, que sempre acompanha a graça, ela é, nesta vida, da mesma natureza que na pátria celeste. É um amor de amizade, pelo qual Deus e a alma se dão mutuamente. “Possessio Dei fruendum”, diz a teologia.

Possuímos a Deus para d’Ele gozarmos. Ora, como não se pode gozar plenamente senão daquilo que está substancialmente presente, é preciso concluir que a divindade habita em nós, substancialmente pela caridade.

Eis o que está sólida e irrefutavelmente estabelecido. É o fundamento da teologia ascética e mística. Nossa vida é Cristo. O aumento da nossa vida (pois tudo que vive deve crescer) é ainda Cristo crescendo em nós. A glória será também Cristo coroando-se a si mesmo em nós.

Que inefável bondade de Deus!... Que glorioso destino para nós!...

A vida de nosso corpo é a alma; a vida de nossa alma é Cristo. Nossa vida é, portanto, verdadeiramente, Cristo. Qual a união que existe entre nós e a nossa vida, entre nossa alma e nosso corpo? Tal deve ser também a união existente entre Jesus e nossa alma.

III. Nossa deificação

Assim sendo Jesus Cristo é o fim e a via de nossa deificação. São Dionísio, o Areopagita, diz de fato: “A deificação da criatura consiste, quanto possível, na semelhança e na união com Deus” – Deificatio est Deo; quantum fieri potest, assimilatio et unio. – Hierarch. Ecc. 1,3.

Quanto mais íntima for nossa união com Jesus Cristo, tanto maior será também nossa graça e nossa semelhança com Ele, pois, união e semelhança com Deus, é o resultado da sua presença sobrenatural em nós.

E tanto nos adiantamos em santidade quanto crescemos em Jesus Cristo, ou, melhor, quanto Ele cresce em nós. “Todos os dons – afirma Santo Tomás – nos advêm da união a Jesus Cristo, da participação à sua graça”.

É esta verdade, tão consoladora e tão sólida, que constitui a base da nossa dependência de Maria Santíssima.

IV. Jesus e Maria

Até agora só tratamos de Jesus Cristo, de sua vida em nós, e de nossa união com Ele que é nosso termo e nosso caminho. Mas de Jesus a Maria a transição é fácil e suave. Se entendermos bem como cresce em nós a graça, ser-nos-á fácil deduzir o papel da Santíssima Virgem neste divino crescimento; Jesus Cristo nunca se separa de Maria. O fim de nossa devoção é vivermos numa completa dependência de Jesus Cristo. Mas para estabelecer esta completa dependência o meio escolhido pelo próprio Deus é Maria Santíssima.

Terminemos com esta verdade profunda e básica: Jesus Cristo vive em nós; deve ver coroada em nós sua obra; e para realizar este mistério de amor fez-nos participantes da natureza divina, para que fôssemos capazes de produzir obras dignas de Deus.

* * *

Pedimos aos leitores pouco afeitos a leituras teológicas não se esmoreçam diante da aparente aridez deste começo.

É necessário pôr um fundamento sólido, inabalável. Depois, é preciso mostrar aos homens de estudo e de leituras sérias, que a devoção à Mãe de Deus se baseia nos dogmas mais sagrados de nossa santa religião, e não é, como alguns pensam, efeito de sentimento, ou de piedoso entusiasmo.

Ponderemos este capítulo e o que dele deriva e, pouco a pouco, das aparentes trevas surgirá a luz precursora dum incêndio de amor, que abrasará nossos corações em face desta obra-prima das mãos do Todo-Poderoso – Maria.