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quinta-feira, 12 de maio de 2011

Maria Santíssima e o Tabernáculo


Último dia do tríduo preparatório para a festa de Nossa Senhora do santíssimo Sacramento – que é também o dia do missionário sacramentino. Pe. Júlio Maria De Lombaerde fazia questão de solenizar essas comemorações.

Hoje, segundo o número 23 do Diretório da Congregação dos Missionários Sacramentinos, “far-se-á uma penitência, determinada pela comunidade”.

Nesse espírito de preparação, publicamos um texto do Fundador, em que ele aprofunda mais a sua teologia sacramentina. Os negritos são nossos.

*

O Anjo da noite baixou à terra. Devagar, num gesto majestoso, desdobrava por sobre os montes e vales o longo manto escuro, qual um lençol fúnebre. E após ele descia, ainda mais grave e mais majestoso, o anjo do sono. Passava... semeando a mãos cheias este reconfortante da vida. Pouco a pouco fez uma calma completa: as luzes deixaram de cintilar nos salões dos ricos como nas choupanas do pobre. O silêncio era absoluto. Através das vidraças envelhecidas de uma igreja cintilava uma pequena luz, raio quase imperceptível a indicar que alguém vigiava.

Entremos, pois a porta ficou aberta.

Tudo está escuro. Lá em cima, uma pequena lâmpada encarnada projeta uma luz quase misteriosa, iluminando a fronte de uma estátua, colocada perto do Tabernáculo.

No meio do silêncio, uma voz suave e melodiosa, qual um concerto do céu, cristalino, qual voz de criança, fez-se ouvir e murmurou:

- Estou velando!

E tudo recai no silêncio. Mas, decorridos apenas uns instantes, uma outra voz responde em tom de amor.

Ecce ancilla Domini! Eis a serva do Senhor!

É a voz da Santíssima Virgem. Aí está, em cima do seu trono, perto do Tabernáculo, para consolar a solidão de Jesus, como a consolava antes em Belém, em Nazareth, no Egito.

Oh! não Jesus nunca está só. Perto de si tem sua Mãe. No Tabernáculo, como no presépio, sorri-nos dos braços de Maria Santíssima.

A Igreja, que tão eminentemente possui a intuição das cousas divinas, o compreende; e é por isso que, perto do Tabernáculo, coloca uma imagem da Virgem Imaculada.

Muitas vezes a imagem de Maria Santíssima domina o altar e aí, do alto de seu trono, a Mãe vela ainda sobre o filho, assim como do fundo do Tabernáculo, Jesus nos diz ainda:

Ecce Mater tua! Eis aqui a Vossa Mãe!

Suave pensamento aquele: Aproximando-me do Tabernáculo, ali encontro Maria Santíssima; e é ela que me dá Jesus.

Quando bato à porta do Tabernáculo e grito: JESUS! JESUS! é Maria Santíssima que me vem receber, abre a porta e me diz: “O meu Jesus, ei-lo aqui!”

A Santa Igreja aprovou esta profunda e tocante invocação “Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, rogai por nós!” Já aprovara esta outra: “Nossa Senhora do Sagrado Coração, rogai por nós!”

Cotejemos estas invocações: “O Coração de Jesus está no Tabernáculo: é o Coração Eucarístico de Jesus. A Santíssima Virgem é pois também  - Nossa Senhora do Sagrado Coração: rogai por nós!”

É a reunião de tudo o que, na religião, há de mais nobre, mais sublime e mais consolador!

O Coração de Jesus,

A Sagrada Eucaristia,

A Virgem Maria!

Notai como a Virgem Santa se acha unida a tudo o que há de mais adorável na religião! Assim como no “Credo” seu nome está ao lado dos nomes divinos do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A Santa Igreja há de, sem dúvida adotar um dia, esta bela invocação: “Nossa Senhora do Coração Eucarístico de Jesus, rogai por nós!”

Almas amantes da Imaculada, continuemos a nos unir à Maria, a viver perto de Maria, a amar Jesus por Maria. Apertemos cada vez mais, os laços que nos unem a esta Virgem bendita para que ela aperte os laços que nos unem ao Coração Eucarístico do Senhor.

Fortifique-se em nós o seu amor, tornando-nos apóstolos de seu Coração.

Oxalá este amor nos transforme e nos faça mais semelhantes à Hóstia do Tabernáculo!

Ele é branco: sejamos puros;

Ele está escondido: sejamos humildes;

Ele se deixa fazer: sejamos obedientes;

Ele é imolado, sejamos mortificados.

Estas virtudes são a grande preparação dos Corações eucarísticos, amantes e famintos do pão dos anjos. E a Santíssima Virgem no-las ensina tão suavemente pelo exemplo e pelas palavras.

Oh! sim, cada vez que nos aproximamos de Jesus Hóstia, cada vez que a sua divindade e humildade veladas repousam no nosso coração pela Sagrada Comunhão, roguemos a Jesus que nos transforme em Maria, que faça de nós “outra Maria”, para que possa achar em  nosso coração as suas complacências, como as achou no coração de sua divina Mãe.

Oh! Mãe querida, abri-nos o Coração de Jesus.

Conduzi-nos ao Tabernáculo.

Mas sempre ficai perto de nós, como ficais perto de Jesus.

Sede verdadeiramente para nós: Nossa Senhora do Coração Eucarístico de Jesus.



Pe. Júlio Maria De Lombaerde, Voz de Nazareth, nº 96 - dezembro de 1920.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Levar em si Maria


Dando continuidade ao tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, neste segundo dia publicamos mais um belo texto do Fundador. É mais uma gota de sua espiritualidade eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento


Era ainda muito cedo. Abrindo um livro piedoso, que uma pessoa distraída –talvez voluntariamente – deixara na sala de visitas, encontrei estas linhas, tão curtas e tão cheias de sentido e de vida sobrenatural.

Leva em ti Maria;
Em redor de ti irradie Maria;
Dá a todos Maria!

Não sei o que se passou em minha alma, no meu coração, em todo o meu ser.

Depositei o livro; uma lágrima, - perdoem-me esta sensibilidade – uma lágrima ardente queimou-me as pálpebras e as faces... E escondendo a cabeça nas mãos, afastei-me sem demora: Mas, durante todo o dia, ia repetindo:

Ó Maria!
Deixa-me levar-te em Mim;
Deixa-me irradiar-te, em redor de mim;
Deixa-me dar-te a todos;
Que se aproximam de mim!

Oh! querida alma, nós que almejamos amar ardentemente nossa terna Mãe, repitamos muitas vezes durante o dia esta pequena oração, tão curta, tão penetrante e decerto, tão agradável a Maria.

Levar em si Maria, é não possuir todas as virtudes de Maria, mas trabalhar para adquiri-las.

É imitar a criança a quem se dá uma santinha: aperta-a sobre o coração, beija-a com efusão e depois a leva para sua mãe, com cuidado, receosa que se amarrote.

Não podemos, de certo, receber o corpo de Maria Ssma. como recebemos o corpo de Jesus Cristo, mas, na sagrada comunhão, recebendo a Jesus Cristo, não é verdade que recebemos um pouco de Maria? Qualquer coisa de Maria? Este divino alimento de nossa alma, não é ele formado do sangue de Maria? Caro Christi, caro Mariae, diz Sto. Agostinho.

Levando em nós a Jesus, levamos, pois, a Maria. Jesus e Maria são inseparáveis. Não procureis em outro lugar o divino Filho da Virgem, senão nos braços de sua mãe; é lá o lugar d’Ele, o seu trono, o seu céu.

Levar em si Maria, é pois aproximar-se muitas vezes e com devoção da Sagrada Mesa Eucarística; e durante o dia lembrar-se o mais possível deste ato solene.

É unir-se a Maria, - e com ela adorar a Jesus, - trabalhar para Jesus, numa palavra, é viver com ela da doce vida de intimidade.

Ó Maria, deixa-me levar-te em mim!

Irradiar Maria, em redor de si, é possuir algumas das virtudes de Maria, tão doces, tão atraentes, tão praticáveis para todos.

Na contrariedade e na provação; é ficar calmo e paciente.

No abatimento: é conservar-se amável e sorridente.

No aborrecimento: é apresentar-se prestável e manso.

Para todos que nos cercam, é ter pronto:

- este sorriso dos lábios, que atrai;
- esta palavra de coração, que dilata;
- este gesto de benevolência, que acalma e anima;
- esta conversação, que eleva, sobrenaturaliza e faz dizer:

            Oh! como ele é bom!

Tem-se dito de Maria Santíssima que ela era o ostensório de Jesus!

Possam dizer de nós que somos o ostensório de Maria.

O ostensório serve para conter, mostrar e fazer resplandecer a Jesus escondido, escondido na Sagrada Eucaristia. O esforço de uma alma devota da Santíssima Virgem deve ser de conter, de mostrar e de fazer resplandecer a Virgem Santa, pela imitação de suas virtudes.

Ó Maria, deixa-me irradiar-te em redor de mim!

Dar Maria a todos que se aproximam de si. Oh! certo, não é dizer-lhes: eu venho dar-te Maria, mas é ter simplesmente o desejo e a vontade firmes e atuais de fazer amar a Virgem Santa.

Nunca saias de casa, nunca faças uma visita sem dizer esta pequena oração:

“Minha querida Mãe, vem e vive em mim!”

Talvez que não o saibam, mas em hora oportuna, a Mãe de Jesus servir-se-á de ti, agirá por ti, dar-se-á por ti.

Tu darás Maria a todos, que te cercam, às vezes sem sabê-lo e sem os outros conhecê-lo.

Passarás, como Jesus, fazendo o bem, fazendo amar a Virgem Imaculada.

E como Maria também amar-te-á! Como ela te conduzirá a Jesus!

Tu deste Maria aos homens; Maria te dará a Jesus!


Pe. Júlio Maria De Lombaerde, Voz de Nazareth, nº 67 - julho de 1918.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Porta do Céu


Publicamos hoje, no primeiro dia do tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, esse belíssimo texto da pena do Revmo. Pe. Júlio Maria. Os grifos são nossos. É um texto antigo, e há que se considerar o contexto filosófico-histórico do autor. Mesmo assim, é uma das mais belas páginas da teologia eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento,
na capela do Seminário Apostólico de Manhumirim-MG
A Igreja incluiu nas ladainhas da Santíssima Virgem esta significativa invocação:

Maria, porta do céu, rogai por nós!

Poucos talvez, compreendem o alcance destas palavras.

Maria é a porta do céu. Não se entra numa casa senão pela porta.

É-nos impossível entrar no céu sem que passemos pela porta que Deus mesmo aí colocou... e esta porta é a Virgem Imaculada.

Se o céu é um lugar de delícias, é porque nele a alma possui a Jesus Cristo Nosso Senhor, de tal maneira que possa dizer que “o céu é Jesus Cristo!”

A porta do céu, a porta do coração de Jesus é Maria, é impossível nele entrar sem passar por Maria.

“Possuerunt me custodem” (Cant 1, 5). “Colocaram-me qual guarda”, nos diz ela mesma.

E ainda “In me gratia omnis viae”. Em mim se acha a graça do caminho que se deve seguir. Donde a conclusão rigorosa que o Espírito Santo coloca ainda sobre os lábios da Virgem. “Aqueles que me acham, acham a Vida eterna”. Qui me inuenerit, inveniet vitam”. (Prov. VIII, 35).

Tais trechos da Sagrada Escritura são a confirmação desta invocação, que os resume “Porta do Céu”. Maria Santíssima é a guarda, a porta da vida eterna.

O céu é a posse de Deus, de seu amor, de sua glória, posse até de qualquer coisa de sua eternidade, na medida que esta pode ser o apanágio da criatura, eternidade que tem um princípio, mas que jamais findará.

E a porta desta posse é sempre a Virgem! É por Ela que tudo há de passar.

O céu é a “contemplação de Deus, face a face”, tal qual é, contemplação de sua grandeza, de seu poder, de seu amor, e, sobretudo, de todos os seus divinos atributos.

E a porta desta visão é Maria... Sem ela é impossível gozar desta bem-aventurança.

O céu é a “manifestação” da glória de Deus. Aqui na terra esta divina glória é desconhecida, desprezada às vezes, só aparece parcialmente e por intervalos. Lá em cima manifestar-se-á em todo o seu esplendor, em toda sua extensão, sem sombras.

Esta glória nos cercará, nos penetrará, nos elevará e nos tornará partícipes da glória de Deus.

Mas a porta desta glória é sempre, é unicamente Maria; é por Ela, pois que devemos alcançá-la.

Oh! sim como tem razão os santos a repetirem sempre: “Tudo por Maria”, “nada sem Maria!”

Tudo, de fato, nos vem por intermédio da Virgem. tudo que nos vem do céu; graças, auxílios, luz, consolação, força, amor.

E tudo que sobe ao céu: orações, sacrifícios, virtudes, tudo passa também pela “porta”, pelas mãos de Maria.

Penetremos bem o significado desta invocação: Maria, porta do céu, rogai por nós!

Mas não há somente o Céu do Céu, se assim posso dizer, isto é, Jesus Cristo, glorificado no céu, há também o Cristo oculto no Tabernáculo.

Porta do primeiro céu, Maria Santíssima é também porta do segundo, sendo que este difere somente daquele, porque o primeiro é “glorioso” ao passo que o segundo é “escondido”. Dizendo que Maria Santíssima é a porta do Tabernáculo, quero dizer que para chegar a Jesus Hóstia, é preciso ainda passar por Maria “possuerunt me custodem”. E para que Jesus Sacramentado desça até nós, com suas bênçãos e graças, é mister sair pela porta que é Maria.

A vontade de Deus, diz São Bernardo, é que recebamos tudo das mãos de Maria.

Oh! suave pensamento que nos indica as relações tão reais e tocantes da Sagrada Eucaristia com Maria.

Jesus Cristo está verdadeiramente no seu Sacramento de amor. Aí fica escondido na pequena hóstia, atrás da porta visível do Tabernáculo, do mesmo modo que esconde a glória e o amor, atrás da outra porta – invisível aquela – que se chama a Mãe de Deus.

Pode-se dizer que Maria Santíssima está presente na Sagrada Eucaristia?

Por si mesma, não! mas está presente por Jesus de um modo inefável, pois se trata de uma verdade acima de nossa compreensão.

Para explicar a união Jesus e Maria, será insuficiente a comparação das relações que unem mãe e filho, visto existir aí intimidade superior ao nosso entendimento.

Digamos somente que Jesus é, e sempre fica como ele mesmo o disse “filho do homem”.

Aí está o seu título próprio “Filius hominis” Filho do homem... então Filho de Maria Santíssima.

A Sagrada Eucaristia é a continuação da Encarnação. Pois a Encarnação é Maria dando ao filho de Deus a vida humana.

A Eucaristia é ainda Maria gerando, Deus à vida escondida do Tabernáculo.

Do mesmo modo que o primeiro mistério se cumpriu por Maria, assim o segundo, prolongamento do primeiro, deve operar-se por Maria. Jesus nascendo em Belém, nasce de Maria Santíssima.

Jesus, nascendo sobre o altar, entre as mãos e em virtude das palavras do sacerdote, nasce ainda de Maria.

Precisamos perguntar então se Maria está presente nesse mistério e qual é o seu papel.

O papel da Santíssima Vigem é introduzir Jesus Cristo no mundo, como também de conduzir as almas aos pés de Jesus.

Essa grande verdade está sendo atualmente estudada pelos teólogos, que ainda não deram uma fórmula certa e teológica ao mistério. Tal falta nos obriga a uma certa reserva na expressão; entretanto, os corações eucarísticos e amantes descobrirão neste pouco um horizonte novo de amor ao divino hóspede do Tabernáculo.

Oh! Maria, porta do Céu, rogai por nós!

Compreendeis, agora, almas piedosas, o alcance da vida de intimidade com a Mãe de Jesus.

Se viverdes perto, esta “porta divina” abrir-se-á diante de vós. “Beatus homo... qui vigilat ad fores meãs quotide” (Prov VIII) Oh! sim, bem aventurado, diz o Espírito Santo, quem vela todos os dias à porta do céu!

Na terra, por Maria, ireis a Jesus Sacramentado, e Jesus descerá até vós.

Rematará lá em cima a vida de intimidade com sua divina Mãe, pela posse de si mesmo; pois lá ainda na glória é e sempre fica, o Filho de Maria Santíssima, a flor brotada da virgindade perpetua de Maria, nutrida pela humildade e pelo amor da Virgem-Mãe.

Oh! sim! ficai sempre perto de Maria, e que seja ela a porta pela qual desce a vós, e pela qual haveis de ao céu subir.

Maria , Porta do Céu, rogai por nós!

Pe. Júlio Maria De Lombaerde. In Voz de Nazareth, nº 83: novembro de 1919.

quarta-feira, 16 de março de 2011

"O Padre Júlio Maria era um homem de Deus"

- Monsenhor Aristides Maques da Rocha, para o senhor, quem era o Pe. Júlio Maria?

- “O Pe. Júlio Maria era um homem de Deus. Manhumirim não era nada. Manhumirim é o que é hoje, graças ao Pe. Júlio Maria. Em Manhumirim, ele fundou a Congregação dos Padres e das Freiras.

Andei muitas vezes com ele. Acompanhei-o em muitas missões e participei de muitos retiros espirituais pregados por ele para o clero de Caratinga. Era ele quem pregava o retiro para nós.

As virtudes brilhavam na barva dele.

Quando a torre da Catedral de Caratinga ficou pronta, quem a benzeu foi ele, em 1929. Eu o convidei e Dom Carloto aprovou. De Caratinga, fui com ele para o Rio de Janeiro.

O Pe. Júlio Maria era um santo, e muito santo. Muito admirável.

Um milagre aconteceu comigo e ele. Nós dois viajávamos de carro para Manhuaçu. O carro perdeu o freio e precipitou-se pela pirambeira abaixo. Eu queis saltar fora. Mas ele me segurou pelo braço e disse: “Não é preciso saltar não, Monsenhor”. O carro, desgovernado, parou lá embaixo, na beira do rio, e não aconteceu nada.”

Monsenhor Aristides Marques da Rocha,
insigne clérigo dos inícios da Diocese de Caratinga,
que conviveu com o Pe. Júlio Maria.

Entrevista feita pelo Pe. Demerval A. B., SDN, em 18 de março de 1979.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Padre Júlio Maria que eu conheci

Por Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn
Bispo emérito de Taubaté

Ele tinha o olhar flamejante e firme

Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn
Bispo Emérito de Taubaté-SP
Conheci o Pe. Júlio Maria em 1933.

Menino de doze anos, transpus os umbrais do Seminário Apostólico de Manhumirim, acompanhado de meu saudoso pai, que vinha entregar-me a um outro pai, que haveria de exercer sobre minha vida tão imensa influência.

Tarde escaldante de primeiro de fevereiro. Após longa espera na sala de visitas, entrou o Pe. Júlio Maria, que vinha do Colégio das Irmãs. Alto, longa barba, olhar flamejante, firme. Mas bondoso, afável.

Foi a imagem que me ficou presa n’alma de criança tímida e ansiosa, ao contato passageiro de uns quinze minutos.

Nos dias seguintes, aquela imagem, que mais incutia temor e reverência do que inspirava amizade, se acentuou no meu espírito. Pe. Júlio era para mim um homem extraordinário, que nunca tinha visto semelhante, e que criava em mim um misto de medo e de segurança. Medo, não sei de quê. Certamente, de seu olhar penetrante e de seu rosto às vezes austero. Mas, segurança, confiança no futuro, nas horas incertas, quando ele ensinava.

Tímido quando o procurava, enchia-me de alegria quando ele falava. E me sentia amparado, forte, decidido a ser homem, como ele era.

O outro lado do homem

Muito mais tarde, quando fui noviço e professo, nosso relacionamento se acentuou. Vi, então, de perto, mais que o homem, o enorme homem, forte e austero. Comecei a perceber o religioso, o homem que rezava, o penitente, o pobre, o padre que amava a Igreja.

Eu amadurecia, perdera em parte a timidez, e começava a apreender novos aspectos nas pessoas e nas coisas. E o Pe. Júlio Maria como que desabrochava numa nova figura diante de mim.

Vi, então, que aquele que me parecia severo, era, atnes de tudo, severo consigo mesmo. Enérgico, sua energia era virtude que vencia o comodismo humano.

Ele fazia o que pregava. Ensinava a pobrez, e era pobre. Dizia que era preciso rezar, e rezava com alma aberta e confiante. Pregava o zelo, e o mostrava na sua conduta de padre, que não conhecia momentos de descanso.

Foi ao lado deste Pe. Júlio Maria que vivi doze anos. Cinco anos impressionado pela figura do homem, sete edificado pela presença do padre, do fundador, e só hoje sei dizer: do carismático, do enviado, do homem de Igreja.

O outro lado da história

Há fatos que a gente presencia na vida e só balanceia mais tarde. Eles ficaram como absorvidos na sequencia do dia a dia. Foi assim que participei de alguns acontecimentos da vida familiar do grande missionário de Manhumirim, cujo alcance somente agora posso avaliar.

E mesmo alguns fatos de sua vida passada, que pesquisei e escrevi em sua biografia, somente hoje, amadurecidamente, consigo poderar, atinando com seu alcance no contexto da História.

Vejo que a maioria dos episódios, ou a contextura de todos eles, na vida do Pe. Júlio Maria, tinha um sentido de projeção para o futuro.

Homem que se entregara à Igreja, para seu serviço, e que fora eleito para uma especial missão de Igreja, o Pe. Júlio Maria não construiru para si uma obra no presente. Ele, sem o saber, e sem nós o lobrigarmos também, edificava a própria Igreja, enquanto configurava uma Igreja particular e local, dando-lhe traços específicos e crinado uma realidade nova e importante, que haveria de influir para o futuro.

Quando ele morreu, naquela tarde trágica, inundada de chuvas, cheia de angústia na casa imensa, que aguardava à hora do jantar o seu sorriso e que recebeu o seu cadáver, eu senti que tudo ia começar de novo.

Isto é, parecia-me que principiava a façe oculta da História. Tudo ia começar de novo: o Pe. Júlio reconstruindo, lentamente, a sua obra na luz de Deus.

Não me enganei. Uma história nova se iniciou. E era a verdadeira. A História.

Fonte: Miranda,sdn, Dom Antônio Affonso de. Pe. Júlio Maria, Testemunho de Uma Nova Igreja. Belo Horizonte: O Lutador, 2ª Edição.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Biografia do Padre Júlio Maria de Lombaerde

6 – Atividade paroquial do Pe. Júlio Maria; Fundação das Congregações Sacramentinas

Pe. Júlio era um homem diante do qual a gente tinha de tomar posição. A favor ou contra. Os paroquianos se entusiasmaram com o novo vigário. A Igreja encheu-se de fiéis. Cresceu a vida sacramental, sobretudo a vida eucarística. Organizou-se a Liga Católica para os homens, foi infundida vida nova às Filhas de Maria para as moças, à Congregação Mariana para os rapazes ou adultos de sexo masculino, os Vicentinos foram grandemente estimulados. Pe. Júlio fundou a Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora. Depois, a Congregação das Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora, pensando especialmente na educação da juventude feminina, na preparação das mães de família. Com o tempo, pensando no atendimento à saúde da população carente, juntamente com os Vicentinos, construiu o Hospital S. Vicente de Paulo. Diante da necessidade de preparar a juventude masculina para um catolicismo mais sólido e uma vida sócio-política mais consciente, fundou o Colégio Pio XI, que marcou época, não só na cidade, mas em ampla região, tendo mantido durante muitos anos um internato famoso, com alunos que vinham da redondeza, mas também do Espírito Santo e do Rio de Janeiro. Mais tarde ainda, fundou um Patronato Agrícola, uma casa de Aprendizado Doméstico e deu todo apoio aos Vicentinos na fundação e manutenção de um Asilo para inválidos.

Enquanto isso, entregava-se de corpo e alma à paróquia, à formação dos seminaristas e religiosos de sua Congregação, assim como, com a colaboração da Co-fundadora das Irmãs Sacramentinas, a Madre Beatriz Frambach, ia trabalhando incansavelmente na formação e desenvolvimento da nova Congregação feminina, que vicejava com força invejável, com frutos de piedade e santidade admiráveis.

Para homens como o Pe. Júlio Maria não faltam amigos nem adversários. Sua ação em Manhumirim não podia deixar de ter repercussão política. Fizeram tudo para envolvê-lo em lutas partidárias. Pe. Júlio não apenas não tinha ambições políticas, no sentido de poder e influência direta na condução da sociedade, mas só usava sua força em defesa dos interesses religiosos de seus fiéis. Mesmo assim, os Partidos se dividiram diante dele. Houve ameaças de todo o tipo e tentaram assassinar o Padre, num domingo, dentro da própria igreja.

Essas coisas, porém, não abalavam o Pe. Júlio, que parecia ter nervos de ferro. Nunca o víamos exaltado ou dando mostras de preocupação por causa dessas coisas. A vida, no Seminário, na Paróquia, na residência e no Colégio das Irmãs, continuava igual. A agitação ficava do lado de fora e passaria. Embora os mais informados soubessem que nem tudo estava num mar de rosas. As Irmãs sobretudo, com sua sensibilidade feminina, sofriam muito. Os políticos se agitavam e sempre que podiam, buscavam o apoio do padre. Se não conseguiam ou se encontravam resistência (o Pe. Júlio apoiava sempre os católicos - aqueles que ele julgava bons católicos), punham-se contra ele. O vigário jamais usava o púlpito para fazer campanhas partidárias ou pessoais.

De qualquer modo, o Fundador tinha o apoio indefectível de Dom Carloto, sempre firme, decidido, apesar de silencioso. Isto trazia ao vigário muita tranqüilidade. Mas em 1933, Dom Carloto morre no Rio. Pe. Júlio Maria fica sem sua cobertura tão importante. O sucessor do amigo, Dom José Parreira Lara, era também um homem de Deus, e embora tenha vindo para a Diocese de Caratinga trazendo na bagagem muitas denúncias e queixas contra o Pe. Júlio e sua Congregação, não pôde deixar de exclamar, depois da primeira visita ao Seminário de Manhumirim: "O dedo de Deus está aqui!"


(Este texto é uma resenha e um rearranjo do livro “Pe. Júlio Maria, sua vida e sua missão”, de Dom Antônio Afonso de Miranda, sdn, o primeiro religioso da Congregação do Pe. Júlio Maria escolhido para ser bispo, hoje Bispo Emérito de Taubaté, SP, e que foi o primeiro biógrafo do seu Fundador.)

[Continua...]