Mostrando postagens com marcador Eucaristia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Eucaristia. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sustentador e Conservador da Igreja



A centralidade de Cristo em Mt 24 a partir do Pe. Júlio Maria De Lombaerde

Por Matheus R. Garbazza

O evangelista São Mateus oferece à comunidade cristã uma preciosa preparação à narração dos eventos máximos da Fé cristã que são a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor. Trata-se do chamado “sermão escatológico”, no qual o Divino Mestre tece algumas considerações a respeito do fim dos tempos e do Reino dos Céus. Esta preparação, constituída pelos capítulos 24 e 25 de seu Evangelho, termina com o convite à vigilância constante, à modo das cinco virgens prudentes que levaram óleo de sobra e dos servos que souberam empregar os talentos concedidos pelo seu senhor. Isso porque não nos é possível saber o dia ou a hora da vida de Cristo e da instauração definitiva de seu Reino.
Concentremo-nos no capítulo 24, a abertura da fala escatológica de Cristo. Logo de início, temos Jesus e seus discípulos caminhando para fora do Templo em Jerusalém. Os discípulos, marcados pela imponência da construção simbolicamente mais importante do povo judeu, aproximam-se para mostrá-lo a Jesus. O Mestre reage com uma afirmação forte e assustadora: “Não estais vendo tudo isso? Em verdade vos digo: não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (v. 2). Certamente foi um choque para os ouvintes, que logo após questionam: “dize-nos: quando será isso?” (v. 3). É a partir desse ponto que Jesus passa a falar sobre os sinais de sua vinda, o que acontecerá antes e como poderá ser sentida a sua aproximação.
O sinal mais marcante enumerado pelo evangelista, a partir da profecia de Daniel, é a “abominação desoladora instalada no lugar santo” que é o Templo (v. 15). Depois de passar pelos outros diversos sinais, termina o capítulo com o convite à fidelidade e à obediência (isto é, à escuta profunda da Palavra, colocando-a em prática). Para tanto, é utilizada a figura dos dois servos (v. 45-51): o fiel, que guardou bem a casa de seu senhor e assim recebeu a administração de seus bens, e o infiel, que foi injusto, comeu e bebeu desregradamente e espancou seus companheiros. Se o primeiro conquista a bem-aventurança, para o segundo resta o “choro e ranger de dentes”.
Deixando um pouco a exegese literal do texto a respeito dos últimos dias e da vinda de Cristo, podemos nos aproximar de uma realidade de suma importância para nós cristãos que, caminhando entre as vicissitudes da existência, encontramos Nele a força e a esperança. A partir da consideração a respeito do Templo perecível em São Mateus, podemos voltar nossos olhares para o templo imperecível da Nova e Eterna Aliança: a Igreja – Corpo Místico de Cristo.
É esse o esforço empreendido pelo Pe. Júlio Maria De Lombaerde em seu texto “Os Templos Eucarísticos”, parte de seu livro “Comentário Eucarístico do Evangelho Dominical”. O ponto de partida é exatamente o templo e o anúncio de que se veria nele instalada a abominação desoladora. Dessa ótica, explanando o objeto de estudo do livro – a Eucaristia – pode-se perceber um dado importantíssimo no pensamento geral da Igreja e do Pe. Júlio Maria, seu filho fiel: a centralidade de Cristo.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Pão Eucarístico

Pe. Júlio Maria De Lombaerde, sdn


Hoje é a grande festa da Eucaristia!

É a festa do triunfo eucarístico no mundo e nas almas: no mundo, pelas procissões solenes que se fazem em toda parte; nas almas pela comunhão fervorosa deste dia.

‘A minha carne é verdadeiramente comida’, diz o salvador. ‘E quem comer a minha carne fica em mim, e eu nele – quem comer este pão viverá eternamente’.

Meditemos hoje estas palavras divinas, tão expressivas e tão divinamente ternas.

Jesus é o nosso pão... o pão que dá a vida eterna.

Nos queremos a vida eterna: é preciso, pois, recorrer a este pão divino, e excitar em nós uma espécie de fome espiritual por este pão dos anjos.

Dar ao homem mortal uma vida eterna é operar nele uma completa transformação.

É esta transformação que vamos considerar hoje, vendo:

1º O pão transformador.
2º O pão de cada dia.

I – O pão transformador

Sendo o corpo de Jesus Cristo o alimento da nossa alma, o seu primeiro efeito é ser transformado em nosso corpo e sangue; porém há um segundo efeito, divinamente terno, é que o alimento por sua vez nos transforma.

O gênero de alimentos contribui a formar as raças, e se contribui para este efeito geral, produz necessariamente efeitos sobre cada indivíduo em particular.

É um fato, hoje muito estudado e verificado, que tal alimento desenvolve a força dos músculos, tal outro o vigor do cérebro, um provoca uma vida intensa, o outro uma ação pacífica.

A divina Eucaristia é o alimento que deve formar uma raça divina.

A graça é chamada por São Pedro: ‘uma participação à natureza divina’ (2Ped 1,4).

Chama-se natureza de um ser: o princípio de sua atividade.

Pela graça adquirimos pois a possibilidade de agir divinamente, de fazer obras sobrenaturais, merecedoras de vida eterna.

E aqueles que agem desse modo constituem verdadeiramente uma raça divina: genus electum, diz São Pedro (1Ped 2,9). Somos da linhagem de Deus, como diz São Paulo. Ipsus enim ET genus sumus (At 17,28).

***

O próprio corpo não fica estranho a tal transformação, nem pode ficar, pois o corpo e a alma formam uma única pessoa, e esta pessoa participa necessariamente das transformações da alma e do corpo.

Reflitamos bem. É o corpo que recebe realmente Jesus Eucarístico e o conserva durante a sua passagem, infelizmente tão curta.

Ora, um tal contato não pode ficar sem efeito.

Logo, divinizando a nossa alma, a Eucaristia deve comunicar qualquer coisa dessa divinização a nosso corpo.

Durante a sua vida, Jesus Cristo curava os doentes pelo contato da sua mão; tocando-nos pelas santas espécies, porque não santificaria nossas lutas e abrandaria nossas inclinações malignas?

O estado normal da alma é a união com o corpo.

É preciso, pois, que o corpo participe de qualquer modo às influências da alma.

A alma pervertida comunica ao corpo qualquer coisa de duro, de irrequieto; enquanto a alma divinizada pela graça lança sobre o semblante do homem uma irradiação de bondade e paz.

Um dia o nosso corpo tem de ser unido de novo à alma; é preciso pois que este corpo adquira a aptidão de ser o companheiro adequado da alma, partilhando a sua felicidade e a glória, e reformando a personalidade única, resultante da união do corpo e da alma.

II – O pão de cada dia

O que acabamos de ver sobre o papel transformador da Sagrada Comunhão, é o bastante para compreender a necessidade de recebê-la com freqüência.

A alma, tão bem como o corpo, tem continuamente forças a refazer, elementos malsãos a eliminar, por a vida da natureza continua a existir, e procura, pela lei das oposições, a sufocar a vida sobrenatural, que é o seu antagonista.

O pão material de cada dia é uma necessidade, porque além das forças a refazer, por dentro, pelo gasto da atividade, temos de resistir a mil micróbios que nos espreitam de fora, e ameaçam a estrutura do nosso organismo.

O pão espiritual devia ser, por sua vez, de cada dia, pois temos também, por dentro, forças que se perdem e que devem ser restituídas, como temos por fora milhares de micróbios de perdição que procuram roer a nossa alma e lançá-la no abismo da tríplice concupiscência, como é a inclinação da carne, a volúpia dos olhos e o orgulho da vida.

Eis porque o mestre divino nos faz pedir o pão de cada dia.

Este pão é Deus!

É Ele que deve alimentar o elemento divino em nós, para conservá-lo em sua força dominadora.

Todo cristão, em estado de graça, tem pois o direito de desejar, como tem a obrigação de pedir este pão divino. Deve recebê-lo, não obstante o seu pouco valor pessoal, em vista das suas necessidades prementes da vida sobrenatural.

Ah! Não digais: Isto é o ideal?

É o ideal, sim; mas dizei-me: qual é a condição normal de um homem divinizado? Não é o ideal divino?

O que é divino é necessariamente ideal: a mediocridade seria para ele uma decadência. É certo, infelizmente, há muitos cristãos medíocres, porém, não é por direito, é por decadência.

Examinemos se os obstáculos materiais que talvez nos privam da comunhão freqüente são deveras invencíveis. É um dever nosso, procurar antes de tudo, o reino de Deus em nossa alma.

Quantos motivos mesquinhos, quantas ilusões estreitas nas desculpas, nós costumamos apresentar para eximir-nos da mesa sagrada!

Deus nunca exige o impossível. Se pois ele nos faz pedir o pão de cada dia, é porque há possibilidade de recebê-lo.

III – Conclusão

As festas eucarísticas de hoje devem excitar em nós, o desejo de cooperar na grande obra da glorificação de Jesus Sacramentado, glorificação social, pública, e glorificação individual, pessoal, que se deve operar pela recepção da Sagrada Comunhão.

Sentimos por demais a necessidade de uma transformação em nossa vida, e tal reforma deve realizar-se pela recepção do pão transformador, que nos põe em contato com Deus.

E como tal obra é de todos os dias, precisamos recorrer à comunhão freqüente. A comunhão deve ser o pão de cada dia, para que cada dia tenhamos a força de vencer os inimigos da nossa alma.

Um pouco de boa vontade e todos os clamores da indolência, do interesse e do respeito humano calarão diante da necessidade e do amor.

A necessidade deve impelir-nos; enquanto o amor nos deverá atrair.

É na mesa eucarística que está a salvação das almas e do mundo.

[In Comentário Eucarístico do Evangelho Dominical, págs 242-247]

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Maria Santíssima e o Tabernáculo


Último dia do tríduo preparatório para a festa de Nossa Senhora do santíssimo Sacramento – que é também o dia do missionário sacramentino. Pe. Júlio Maria De Lombaerde fazia questão de solenizar essas comemorações.

Hoje, segundo o número 23 do Diretório da Congregação dos Missionários Sacramentinos, “far-se-á uma penitência, determinada pela comunidade”.

Nesse espírito de preparação, publicamos um texto do Fundador, em que ele aprofunda mais a sua teologia sacramentina. Os negritos são nossos.

*

O Anjo da noite baixou à terra. Devagar, num gesto majestoso, desdobrava por sobre os montes e vales o longo manto escuro, qual um lençol fúnebre. E após ele descia, ainda mais grave e mais majestoso, o anjo do sono. Passava... semeando a mãos cheias este reconfortante da vida. Pouco a pouco fez uma calma completa: as luzes deixaram de cintilar nos salões dos ricos como nas choupanas do pobre. O silêncio era absoluto. Através das vidraças envelhecidas de uma igreja cintilava uma pequena luz, raio quase imperceptível a indicar que alguém vigiava.

Entremos, pois a porta ficou aberta.

Tudo está escuro. Lá em cima, uma pequena lâmpada encarnada projeta uma luz quase misteriosa, iluminando a fronte de uma estátua, colocada perto do Tabernáculo.

No meio do silêncio, uma voz suave e melodiosa, qual um concerto do céu, cristalino, qual voz de criança, fez-se ouvir e murmurou:

- Estou velando!

E tudo recai no silêncio. Mas, decorridos apenas uns instantes, uma outra voz responde em tom de amor.

Ecce ancilla Domini! Eis a serva do Senhor!

É a voz da Santíssima Virgem. Aí está, em cima do seu trono, perto do Tabernáculo, para consolar a solidão de Jesus, como a consolava antes em Belém, em Nazareth, no Egito.

Oh! não Jesus nunca está só. Perto de si tem sua Mãe. No Tabernáculo, como no presépio, sorri-nos dos braços de Maria Santíssima.

A Igreja, que tão eminentemente possui a intuição das cousas divinas, o compreende; e é por isso que, perto do Tabernáculo, coloca uma imagem da Virgem Imaculada.

Muitas vezes a imagem de Maria Santíssima domina o altar e aí, do alto de seu trono, a Mãe vela ainda sobre o filho, assim como do fundo do Tabernáculo, Jesus nos diz ainda:

Ecce Mater tua! Eis aqui a Vossa Mãe!

Suave pensamento aquele: Aproximando-me do Tabernáculo, ali encontro Maria Santíssima; e é ela que me dá Jesus.

Quando bato à porta do Tabernáculo e grito: JESUS! JESUS! é Maria Santíssima que me vem receber, abre a porta e me diz: “O meu Jesus, ei-lo aqui!”

A Santa Igreja aprovou esta profunda e tocante invocação “Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, rogai por nós!” Já aprovara esta outra: “Nossa Senhora do Sagrado Coração, rogai por nós!”

Cotejemos estas invocações: “O Coração de Jesus está no Tabernáculo: é o Coração Eucarístico de Jesus. A Santíssima Virgem é pois também  - Nossa Senhora do Sagrado Coração: rogai por nós!”

É a reunião de tudo o que, na religião, há de mais nobre, mais sublime e mais consolador!

O Coração de Jesus,

A Sagrada Eucaristia,

A Virgem Maria!

Notai como a Virgem Santa se acha unida a tudo o que há de mais adorável na religião! Assim como no “Credo” seu nome está ao lado dos nomes divinos do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A Santa Igreja há de, sem dúvida adotar um dia, esta bela invocação: “Nossa Senhora do Coração Eucarístico de Jesus, rogai por nós!”

Almas amantes da Imaculada, continuemos a nos unir à Maria, a viver perto de Maria, a amar Jesus por Maria. Apertemos cada vez mais, os laços que nos unem a esta Virgem bendita para que ela aperte os laços que nos unem ao Coração Eucarístico do Senhor.

Fortifique-se em nós o seu amor, tornando-nos apóstolos de seu Coração.

Oxalá este amor nos transforme e nos faça mais semelhantes à Hóstia do Tabernáculo!

Ele é branco: sejamos puros;

Ele está escondido: sejamos humildes;

Ele se deixa fazer: sejamos obedientes;

Ele é imolado, sejamos mortificados.

Estas virtudes são a grande preparação dos Corações eucarísticos, amantes e famintos do pão dos anjos. E a Santíssima Virgem no-las ensina tão suavemente pelo exemplo e pelas palavras.

Oh! sim, cada vez que nos aproximamos de Jesus Hóstia, cada vez que a sua divindade e humildade veladas repousam no nosso coração pela Sagrada Comunhão, roguemos a Jesus que nos transforme em Maria, que faça de nós “outra Maria”, para que possa achar em  nosso coração as suas complacências, como as achou no coração de sua divina Mãe.

Oh! Mãe querida, abri-nos o Coração de Jesus.

Conduzi-nos ao Tabernáculo.

Mas sempre ficai perto de nós, como ficais perto de Jesus.

Sede verdadeiramente para nós: Nossa Senhora do Coração Eucarístico de Jesus.



Pe. Júlio Maria De Lombaerde, Voz de Nazareth, nº 96 - dezembro de 1920.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Levar em si Maria


Dando continuidade ao tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, neste segundo dia publicamos mais um belo texto do Fundador. É mais uma gota de sua espiritualidade eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento


Era ainda muito cedo. Abrindo um livro piedoso, que uma pessoa distraída –talvez voluntariamente – deixara na sala de visitas, encontrei estas linhas, tão curtas e tão cheias de sentido e de vida sobrenatural.

Leva em ti Maria;
Em redor de ti irradie Maria;
Dá a todos Maria!

Não sei o que se passou em minha alma, no meu coração, em todo o meu ser.

Depositei o livro; uma lágrima, - perdoem-me esta sensibilidade – uma lágrima ardente queimou-me as pálpebras e as faces... E escondendo a cabeça nas mãos, afastei-me sem demora: Mas, durante todo o dia, ia repetindo:

Ó Maria!
Deixa-me levar-te em Mim;
Deixa-me irradiar-te, em redor de mim;
Deixa-me dar-te a todos;
Que se aproximam de mim!

Oh! querida alma, nós que almejamos amar ardentemente nossa terna Mãe, repitamos muitas vezes durante o dia esta pequena oração, tão curta, tão penetrante e decerto, tão agradável a Maria.

Levar em si Maria, é não possuir todas as virtudes de Maria, mas trabalhar para adquiri-las.

É imitar a criança a quem se dá uma santinha: aperta-a sobre o coração, beija-a com efusão e depois a leva para sua mãe, com cuidado, receosa que se amarrote.

Não podemos, de certo, receber o corpo de Maria Ssma. como recebemos o corpo de Jesus Cristo, mas, na sagrada comunhão, recebendo a Jesus Cristo, não é verdade que recebemos um pouco de Maria? Qualquer coisa de Maria? Este divino alimento de nossa alma, não é ele formado do sangue de Maria? Caro Christi, caro Mariae, diz Sto. Agostinho.

Levando em nós a Jesus, levamos, pois, a Maria. Jesus e Maria são inseparáveis. Não procureis em outro lugar o divino Filho da Virgem, senão nos braços de sua mãe; é lá o lugar d’Ele, o seu trono, o seu céu.

Levar em si Maria, é pois aproximar-se muitas vezes e com devoção da Sagrada Mesa Eucarística; e durante o dia lembrar-se o mais possível deste ato solene.

É unir-se a Maria, - e com ela adorar a Jesus, - trabalhar para Jesus, numa palavra, é viver com ela da doce vida de intimidade.

Ó Maria, deixa-me levar-te em mim!

Irradiar Maria, em redor de si, é possuir algumas das virtudes de Maria, tão doces, tão atraentes, tão praticáveis para todos.

Na contrariedade e na provação; é ficar calmo e paciente.

No abatimento: é conservar-se amável e sorridente.

No aborrecimento: é apresentar-se prestável e manso.

Para todos que nos cercam, é ter pronto:

- este sorriso dos lábios, que atrai;
- esta palavra de coração, que dilata;
- este gesto de benevolência, que acalma e anima;
- esta conversação, que eleva, sobrenaturaliza e faz dizer:

            Oh! como ele é bom!

Tem-se dito de Maria Santíssima que ela era o ostensório de Jesus!

Possam dizer de nós que somos o ostensório de Maria.

O ostensório serve para conter, mostrar e fazer resplandecer a Jesus escondido, escondido na Sagrada Eucaristia. O esforço de uma alma devota da Santíssima Virgem deve ser de conter, de mostrar e de fazer resplandecer a Virgem Santa, pela imitação de suas virtudes.

Ó Maria, deixa-me irradiar-te em redor de mim!

Dar Maria a todos que se aproximam de si. Oh! certo, não é dizer-lhes: eu venho dar-te Maria, mas é ter simplesmente o desejo e a vontade firmes e atuais de fazer amar a Virgem Santa.

Nunca saias de casa, nunca faças uma visita sem dizer esta pequena oração:

“Minha querida Mãe, vem e vive em mim!”

Talvez que não o saibam, mas em hora oportuna, a Mãe de Jesus servir-se-á de ti, agirá por ti, dar-se-á por ti.

Tu darás Maria a todos, que te cercam, às vezes sem sabê-lo e sem os outros conhecê-lo.

Passarás, como Jesus, fazendo o bem, fazendo amar a Virgem Imaculada.

E como Maria também amar-te-á! Como ela te conduzirá a Jesus!

Tu deste Maria aos homens; Maria te dará a Jesus!


Pe. Júlio Maria De Lombaerde, Voz de Nazareth, nº 67 - julho de 1918.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Porta do Céu


Publicamos hoje, no primeiro dia do tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, esse belíssimo texto da pena do Revmo. Pe. Júlio Maria. Os grifos são nossos. É um texto antigo, e há que se considerar o contexto filosófico-histórico do autor. Mesmo assim, é uma das mais belas páginas da teologia eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento,
na capela do Seminário Apostólico de Manhumirim-MG
A Igreja incluiu nas ladainhas da Santíssima Virgem esta significativa invocação:

Maria, porta do céu, rogai por nós!

Poucos talvez, compreendem o alcance destas palavras.

Maria é a porta do céu. Não se entra numa casa senão pela porta.

É-nos impossível entrar no céu sem que passemos pela porta que Deus mesmo aí colocou... e esta porta é a Virgem Imaculada.

Se o céu é um lugar de delícias, é porque nele a alma possui a Jesus Cristo Nosso Senhor, de tal maneira que possa dizer que “o céu é Jesus Cristo!”

A porta do céu, a porta do coração de Jesus é Maria, é impossível nele entrar sem passar por Maria.

“Possuerunt me custodem” (Cant 1, 5). “Colocaram-me qual guarda”, nos diz ela mesma.

E ainda “In me gratia omnis viae”. Em mim se acha a graça do caminho que se deve seguir. Donde a conclusão rigorosa que o Espírito Santo coloca ainda sobre os lábios da Virgem. “Aqueles que me acham, acham a Vida eterna”. Qui me inuenerit, inveniet vitam”. (Prov. VIII, 35).

Tais trechos da Sagrada Escritura são a confirmação desta invocação, que os resume “Porta do Céu”. Maria Santíssima é a guarda, a porta da vida eterna.

O céu é a posse de Deus, de seu amor, de sua glória, posse até de qualquer coisa de sua eternidade, na medida que esta pode ser o apanágio da criatura, eternidade que tem um princípio, mas que jamais findará.

E a porta desta posse é sempre a Virgem! É por Ela que tudo há de passar.

O céu é a “contemplação de Deus, face a face”, tal qual é, contemplação de sua grandeza, de seu poder, de seu amor, e, sobretudo, de todos os seus divinos atributos.

E a porta desta visão é Maria... Sem ela é impossível gozar desta bem-aventurança.

O céu é a “manifestação” da glória de Deus. Aqui na terra esta divina glória é desconhecida, desprezada às vezes, só aparece parcialmente e por intervalos. Lá em cima manifestar-se-á em todo o seu esplendor, em toda sua extensão, sem sombras.

Esta glória nos cercará, nos penetrará, nos elevará e nos tornará partícipes da glória de Deus.

Mas a porta desta glória é sempre, é unicamente Maria; é por Ela, pois que devemos alcançá-la.

Oh! sim como tem razão os santos a repetirem sempre: “Tudo por Maria”, “nada sem Maria!”

Tudo, de fato, nos vem por intermédio da Virgem. tudo que nos vem do céu; graças, auxílios, luz, consolação, força, amor.

E tudo que sobe ao céu: orações, sacrifícios, virtudes, tudo passa também pela “porta”, pelas mãos de Maria.

Penetremos bem o significado desta invocação: Maria, porta do céu, rogai por nós!

Mas não há somente o Céu do Céu, se assim posso dizer, isto é, Jesus Cristo, glorificado no céu, há também o Cristo oculto no Tabernáculo.

Porta do primeiro céu, Maria Santíssima é também porta do segundo, sendo que este difere somente daquele, porque o primeiro é “glorioso” ao passo que o segundo é “escondido”. Dizendo que Maria Santíssima é a porta do Tabernáculo, quero dizer que para chegar a Jesus Hóstia, é preciso ainda passar por Maria “possuerunt me custodem”. E para que Jesus Sacramentado desça até nós, com suas bênçãos e graças, é mister sair pela porta que é Maria.

A vontade de Deus, diz São Bernardo, é que recebamos tudo das mãos de Maria.

Oh! suave pensamento que nos indica as relações tão reais e tocantes da Sagrada Eucaristia com Maria.

Jesus Cristo está verdadeiramente no seu Sacramento de amor. Aí fica escondido na pequena hóstia, atrás da porta visível do Tabernáculo, do mesmo modo que esconde a glória e o amor, atrás da outra porta – invisível aquela – que se chama a Mãe de Deus.

Pode-se dizer que Maria Santíssima está presente na Sagrada Eucaristia?

Por si mesma, não! mas está presente por Jesus de um modo inefável, pois se trata de uma verdade acima de nossa compreensão.

Para explicar a união Jesus e Maria, será insuficiente a comparação das relações que unem mãe e filho, visto existir aí intimidade superior ao nosso entendimento.

Digamos somente que Jesus é, e sempre fica como ele mesmo o disse “filho do homem”.

Aí está o seu título próprio “Filius hominis” Filho do homem... então Filho de Maria Santíssima.

A Sagrada Eucaristia é a continuação da Encarnação. Pois a Encarnação é Maria dando ao filho de Deus a vida humana.

A Eucaristia é ainda Maria gerando, Deus à vida escondida do Tabernáculo.

Do mesmo modo que o primeiro mistério se cumpriu por Maria, assim o segundo, prolongamento do primeiro, deve operar-se por Maria. Jesus nascendo em Belém, nasce de Maria Santíssima.

Jesus, nascendo sobre o altar, entre as mãos e em virtude das palavras do sacerdote, nasce ainda de Maria.

Precisamos perguntar então se Maria está presente nesse mistério e qual é o seu papel.

O papel da Santíssima Vigem é introduzir Jesus Cristo no mundo, como também de conduzir as almas aos pés de Jesus.

Essa grande verdade está sendo atualmente estudada pelos teólogos, que ainda não deram uma fórmula certa e teológica ao mistério. Tal falta nos obriga a uma certa reserva na expressão; entretanto, os corações eucarísticos e amantes descobrirão neste pouco um horizonte novo de amor ao divino hóspede do Tabernáculo.

Oh! Maria, porta do Céu, rogai por nós!

Compreendeis, agora, almas piedosas, o alcance da vida de intimidade com a Mãe de Jesus.

Se viverdes perto, esta “porta divina” abrir-se-á diante de vós. “Beatus homo... qui vigilat ad fores meãs quotide” (Prov VIII) Oh! sim, bem aventurado, diz o Espírito Santo, quem vela todos os dias à porta do céu!

Na terra, por Maria, ireis a Jesus Sacramentado, e Jesus descerá até vós.

Rematará lá em cima a vida de intimidade com sua divina Mãe, pela posse de si mesmo; pois lá ainda na glória é e sempre fica, o Filho de Maria Santíssima, a flor brotada da virgindade perpetua de Maria, nutrida pela humildade e pelo amor da Virgem-Mãe.

Oh! sim! ficai sempre perto de Maria, e que seja ela a porta pela qual desce a vós, e pela qual haveis de ao céu subir.

Maria , Porta do Céu, rogai por nós!

Pe. Júlio Maria De Lombaerde. In Voz de Nazareth, nº 83: novembro de 1919.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O primeiro milagre

Meditação do Evangelho de João, 2,1-11.

O Evangelho nos apresenta hoje o primeiro milagre operado pelo Salvador. Este primeiro milagre tem uma relação íntima com o último, que é a instituição da Sagrada Eucaristia. Neste primeiro milagre Jesus Cristo mudou a água em vinho, como na Última Ceia, mudará o vinho em seu sangue.

Ele faz aqui uma transubstanciação, mudando a substância da água na substância do vinho; como para preludiar a esta outra transubstanciação, na qual mudará a substância do vinho, na substância do seu sangue.

No milagre das Bodas de Caná - o primeiro de Jesus -
Ele prenuncia a instituição da Eucaristia.
O milagre de cana é uma figura e um símbolo do que diariamente se opera sobre nossos altares.

Há uma admirável aproximação entre o primeiro milagre, com que Jesus Cristo começou a sua carreira, e aquele com que a terminou: a Última Ceia.

É um fato do mesmo gênero: em ambos estes fatos há uma mudança real, um verdadeiramente vinho, como o vinho do cálice se torna realmente sangue.

O banquete de Cana é a figura do banquete nupcial da nova Lei. Aos servos dos esposos Maria disse: fazei o que ele vos disser; aos ministros da nova Lei Jesus Cristo diz: Fazei isto em memória de mim!

Pode-se dizer que Jesus começa num destes fatos o que deve terminar no outro. Em Caná, Ele inaugura o seu poder, preparando a matéria que deve servir-lhe no cenáculo: o vinho, de certo modo, aproxima-se mais do sangue,  tem com ele mais afinidade [...]. Possui a cor do sangue e exprime a força e a alegria que nos comunica o cálice da salvação.

[...]É o que fez pensar a São João Crisólogo, que o salvador, pelo milagre de Caná, quis dar-nos uma introdução e prelúdio da Sagrada Eucaristia.

Tais são as belas lições que nos ministra o primeiro milagre de Jesus Cristo. Em sua vida, em suas palavras e atos, tudo é significativo, pois tudo obedece a um plano divinamente delineado e executado.

O Salvado, sem revelar o íntimo de seus segredos e as tramas escondidas em sua providência, prepara no silêncio, pouco a pouco, a relação dos mais sublimes mistérios.

Indo do conhecido ao desconhecido, do sensível ao espiritual, Ele prepara o espírito os apóstolos para que na Última Ceia, sem dizer uma palavra explicativa, sem o mínimo comentário, Ele possa realizar, em termos claros e positivos o que havia mostrado, em parábolas, em símbolos, no decurso de sua vida.

Vemo-lo aqui mudar a água em vinho, fazer uma verdadeira conversão de substância ou transubstanciação, para preparar a grande conversão da substância do vinho em seu próprio sangue.

E para que a relação seja mais perfeita e sensível, aqui Ele não diz uma palavra. Podia ter dito: Isto é o vinho, ou isto é a água mudada em vinho... Não! Ele reserva a palavra explicativa para a realidade, na Última Ceia. Então, sim, Ele dirá, do vinho transubstanciado: Isto é o meu sangue!

Pe. Júlio Maria De Lombaerde
In Mistagogia Eucarística do PJM.
Pp 33-34

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O Dom Eucarístico

Meditação do Evangelho segundo João 15,26-27;16,1-4
ConsagraçãoNa Santa Missa, pela ação do Espírito Santo, Jesus Cristo se faz presente no Pão e no Vinho
 
O Evangelho que lemos se refere ainda à vinda do Espírito Santo, mas examinando-o de perto e nas minúcias das expressões, descobre-se nele a promessa de um dom especial.

Jesus enviará o Consolador. Enviá-lo-á da parte do Pai. Este dará testemunho de Jesus. Jesus prepara admiravelmente o espírito de seus apóstolos para as grandes coisas que lhes reserva. Jesus quer ficar com os homens: sente-se que tal permanência é como o termo de sua vida terrestre, prestes a terminar-se.

Ele ficará junto com o Consolador que enviará em nome do Pai, e todos três, a Santíssima Trindade Inteira, será hóspede da humanidade, na Sagrada Eucaristia.

A vinda do Espírito Santo, no Pentecostes, é um ato passageiros, uma graça especial para os Apóstolos, mas Ele quer ficar conosco até o fim dos séculos. É o seu dom eucarístico.

A Eucaristia será deste modo a sua morada permanente. É aí que o Consolador Divino enxugará as lágrimas, que o Pai sustentará as nossas forças, e que Jesus nos aplicará os méritos de seu sacrifício.

Por que Jesus nos fez este dom?

Jesus promete enviar o Espírito Santo da parte do Pai para dar testemunho dele. Mas Jesus não se refere unicamente à descida do Espírito Santo, que devia ser o grande privilégio dos Apóstolos, mas sim a sua assistência à humanidade inteira, através dos séculos.

É a Divina Eucaristia. É Jesus inseparavelmente unido ao Pai e ao Espírito Santo, pela única e mesma natureza divina, que deve continuar esta obra de consolação para cada homem em particular. É este o grande dom de Deus... A grande lembrança que Ele nos deixa, como localizada na hóstia santa dos nossos altares. “Com efeito, é pela graça qie vós sois salvos por meio da fé; e isso não depende de vós, é dom de Deus” (cf. Ef 2, 8).

E este Dom Jesus que deixá-lo como lembrança de seu amor passado, e expressão de seu amor presente. Sem este presente, o homem, arrastado pela corrente do esquecimento, teria depressa esquecido as maravilhas da encarnação, o amor extremo da Redenção, a imolação do Calvário, a aniquilação da última Ceia e a iluminação de Pentecostes.

Tudo isso é sublime... mas tudo isso, sem um sinal sensível, sem um dom, ou presente sensível, seria depressa tragado pelo oceano do esquecimento. O homem esquece-se de tudo: os grandes acontecimentos da história, as afeições santas e mais profundas, tudo passa e tudo morre envolto no véu do esquecimento.

Eis porque Jesus não se contenta com promessas e graças espirituais, com suaves enlevos e nobres entusiasmos, Ele quer ficar conosco como dom perpétuo, como lembrança sempre renovada de seu amor.

Ele nos deixa a Divina Eucaristia. Na noite, para sempre memorável, da última ceia, antes de deixar-nos, Ele nos apresenta o seu dom: o dom infinito de um Deus infinito. Ele nos podia ter deixado e apresentado como lembrança o seu presépio, que havia tocado seu corpo adorável... a sua cruz embebida de seu sangue, a sua túnica, manchada pelas suas chagas, o véu de Verônica, representando o seu semblante... Mas Ele achou que tudo isso era pequeno para a intensidade de seu amor.

Eis porque na Última Ceia, após as despedidas lancinantes, dirigidas a seus apóstolos, Ele se levantou de repente, e olhando para aqueles que ia deixar sozinhos, neste mundo, ele abriu a sua túnica, e arrancando de seu peito o próprio coração, todo ensanguentado pelo sacrifício e todo luminoso pelo amor, lhes disse: Eis o meu dom.

Mais poderoso e mais terno que os homens, eu quero vos deixar um dom que seja digno de mim: eu vos dou o meu próprio corpo, a minha alma, a minha divindade. Encerro tudo isso numa pequena hóstia, inerte em suas aparências, mas contendo o céu em sua substância. E não quero que seja uma simples lembrança exterior, mas quero que este dom seja o alimento da vossa alma.

Tomai e comei, isto é o meu corpo... Meu corpo dado a todos, imolado para todos... Feito alimento para todos. Neste dom está a divindade inteira: as três pessoas divinas, vivas e ativas, de uma atividade que é: A força do Pai eterno. O amor do Filho de Deus. A consolação do Espírito Santo.

O que contém este Dom?

Acabamos de dizê-lo: o dom de Deus contém os três elementos, cujos princípios são atribuídos a cada uma das pessoas divinas:

A) Força do Pai Eterno

Quem dividará desta força? Perguntai a todos os homens de bem, aos santos, aos mártires, às almas religiosas, deixando tudo o que o mundo lhes oferecia de gozo e de glória, para irem sepultar-se nas florestas selvagens, nos hospitais de leprosos, na abnegação da educação, perguntai-lhes donde lhes vem a força de fazer tais sacrifícios; tods, sem excessão, apontarão para o tabernáculo e responderão sem hesitar: é a Eucaristia, é a Comunhão.

A Eucaristia contém uma força divina, aliás, significada pela matéria escolhida por Nosso Senhor: o pão. Do mesmo modo que o pão físico é o alimento básico do Corpo, assim o pão celestial é o alimento báscio da alma, a sua força insubstituível.

B) Amor do Filho de Deus

A Eucaristia é o sacramento do amor, porque é nele que Deus manifesta mais claro e mais expressivamente a imensidade de seu amor para com os homens. Amar é dar. Aqui Jesus dá tudo o que tem e o que é: a sua carne a comer, o seu sangue a beber.

O efeito principal da Eucaristia deve ser o amor. [...] Deus é caridade: é a sua definição[...].

C) Consolação do Espírito Santo

[...]O bom Mestre predisse aos apóstolos: Vós haveis de chorar e gemer, e o mundo se há de alegrar (Cf. Jo 16, 20).

É para consolá-los que lhes promente enviar o Consolador. A consolação é uma necessidade na vida: é como a gota de óleo que se deixa cair no “pivô” de uma rodagem: suavisa os atritos, evita o gasto, acelera o movimento.

Estou cheio de consolação, disse o apóstolo, por isso superabundo de alegria (Cf. 2Cor 7, 4).

A Consolação gera, de fato, a alegria, e a alegria dá valor aos dons oferecidos a Deus. E encontramos esta alegria perto de Jesus Sacramentado.

Pe. Júlio Maria De Lombaerde
Comentário Eucarísitico do Evangelho Dominical in Mistagogia Eucarística do PJM, págs 73-78.