Mostrando postagens com marcador Sobre o PJM. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sobre o PJM. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sustentador e Conservador da Igreja



A centralidade de Cristo em Mt 24 a partir do Pe. Júlio Maria De Lombaerde

Por Matheus R. Garbazza

O evangelista São Mateus oferece à comunidade cristã uma preciosa preparação à narração dos eventos máximos da Fé cristã que são a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor. Trata-se do chamado “sermão escatológico”, no qual o Divino Mestre tece algumas considerações a respeito do fim dos tempos e do Reino dos Céus. Esta preparação, constituída pelos capítulos 24 e 25 de seu Evangelho, termina com o convite à vigilância constante, à modo das cinco virgens prudentes que levaram óleo de sobra e dos servos que souberam empregar os talentos concedidos pelo seu senhor. Isso porque não nos é possível saber o dia ou a hora da vida de Cristo e da instauração definitiva de seu Reino.
Concentremo-nos no capítulo 24, a abertura da fala escatológica de Cristo. Logo de início, temos Jesus e seus discípulos caminhando para fora do Templo em Jerusalém. Os discípulos, marcados pela imponência da construção simbolicamente mais importante do povo judeu, aproximam-se para mostrá-lo a Jesus. O Mestre reage com uma afirmação forte e assustadora: “Não estais vendo tudo isso? Em verdade vos digo: não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (v. 2). Certamente foi um choque para os ouvintes, que logo após questionam: “dize-nos: quando será isso?” (v. 3). É a partir desse ponto que Jesus passa a falar sobre os sinais de sua vinda, o que acontecerá antes e como poderá ser sentida a sua aproximação.
O sinal mais marcante enumerado pelo evangelista, a partir da profecia de Daniel, é a “abominação desoladora instalada no lugar santo” que é o Templo (v. 15). Depois de passar pelos outros diversos sinais, termina o capítulo com o convite à fidelidade e à obediência (isto é, à escuta profunda da Palavra, colocando-a em prática). Para tanto, é utilizada a figura dos dois servos (v. 45-51): o fiel, que guardou bem a casa de seu senhor e assim recebeu a administração de seus bens, e o infiel, que foi injusto, comeu e bebeu desregradamente e espancou seus companheiros. Se o primeiro conquista a bem-aventurança, para o segundo resta o “choro e ranger de dentes”.
Deixando um pouco a exegese literal do texto a respeito dos últimos dias e da vinda de Cristo, podemos nos aproximar de uma realidade de suma importância para nós cristãos que, caminhando entre as vicissitudes da existência, encontramos Nele a força e a esperança. A partir da consideração a respeito do Templo perecível em São Mateus, podemos voltar nossos olhares para o templo imperecível da Nova e Eterna Aliança: a Igreja – Corpo Místico de Cristo.
É esse o esforço empreendido pelo Pe. Júlio Maria De Lombaerde em seu texto “Os Templos Eucarísticos”, parte de seu livro “Comentário Eucarístico do Evangelho Dominical”. O ponto de partida é exatamente o templo e o anúncio de que se veria nele instalada a abominação desoladora. Dessa ótica, explanando o objeto de estudo do livro – a Eucaristia – pode-se perceber um dado importantíssimo no pensamento geral da Igreja e do Pe. Júlio Maria, seu filho fiel: a centralidade de Cristo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Outubro, mês das Missões: "Missionário que veio de longe"!

A Igreja celebra um mês dedicado às Missões em outubro. Tivemos oportunidade de refletir sobre esse mês importante no ano passado, com nossas "Reflexões Missionárias", que podem ser conferidas no sítio do Apostolado Sociedade Católica [1ª Parte; 2ª Parte; 3ª Parte; 4ª Parte].

Neste ano de 2011, a Família Julimariana tem um motivo a mais para louvar a Deus pelo mês missionário. Trata-se da abertura do Ano Centenário da chegada do Pe. Júlio Maria De Lombaerde ao Brasil. No dia 15 desse mês, completou-se o 99º ano de sua chegada no porto de Recife-PE. 

Que esse Ano Centenário seja uma boa oportunidade para celebrar a importância do grande Missionário, Padre  Júlio Maria, para a Igreja!


terça-feira, 17 de maio de 2011

O Ideal Sacramentino do Pe. Júlio Maria



Por Matheus R. Garbazza Andrade

O Pe. Júlio Maria De Lombaerde, missionário fundador do jornal O Lutador e da Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, foi, sem dúvidas, um santo que marcou o seu tempo. Foi um homem profundamente entusiasmado com o que fazia. E o podemos dizer com segurança, porque o que lhe movia era um ideal altíssimo: era um ideal divino. 

Aspirava com todas as forças do seu coração salvar as pessoas para Cristo, atraindo-as aos pés de Jesus Eucarístico pela materna intercessão de Maria Santíssima, a quem chamava e ensinava a chamar de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. 

No dia 13 de maio comemoramos a cada ano – com renovada piedade e confiança – a festa da Matrona da Congregação. É o dia do missionário sacramentino. Mais que uma data de festa, é uma ocasião propícia para mergulhar novamente na fonte do ideal do Pe. Júlio Maria. 

Seu intuito originário era de formar missionários para estender ao povo a vida sacramental, especialmente nos lugares mais carentes de sacerdotes. Missionários para “fazer comungar e comungar melhor”, sintetiza Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn. 

O experimentado missionário, nos dezesseis anos que esteve à frente da Congregação que fundara, conseguiu entusiasmar numerosos jovens a aderirem ao seu projeto. E quando pensamos nas dificuldades e na pobreza que reinavam nos inícios do recém-fundado instituto, ficamos ainda mais admirados com a sua coragem e sua capacidade de cativar. 

Nos primeiros anos, nem havia ainda uma boa casa para acolher os seminaristas. A alimentação era suficiente, mas austera. O trabalho era muito e pouco o tempo para as coisas meramente agradáveis. O Pe. Júlio Maria era muito rígido com os estudos: queria que seus missionários fossem sábios, e não ‘moluscos’, como ele costumava brincar.  

Entretanto, em pouco tempo a casa já estava cheia. Vinham jovens de todos os lugares, comporem as fileiras da Virgem Santíssima, sob a batuta do Fundador, para levar ao mundo a Palavra de Deus. Todos os domingos, o bom sacerdote pronunciava uma conferência sobre temas espirituais para seus seminaristas. E era ouvido e atendido com obediência e devoção. 

E era admirado porque, antes de todos os outros, era ele o primeiro observante da regra da casa. Acordava antes de todos, trabalhava mais. Era quem dava o exemplo a ser seguido. Não dizia palavras frias, mas toda a sua vida foi conformada a Deus, a fim de levar adiante a grade obra da qual Nosso Senhor o havia incumbido. 

Passaram-se 82 anos desde a fundação da Congregação. Já são 67 anos da passagem do Pe. Júlio Maria para a casa do Pai. Que houve com seu ideal? Terá, acaso, se esfriado? Ou até mesmo se apagado? 

Não! 

Hoje, o carisma sacramentino, confiado por Deus ao Pe. Júlio Maria e, através dele, à sua Congregação missionária, continua muito vivo e atuante na Igreja. Ainda hoje, são muitos os que são contagiados pelo ideal eucarístico-missionário-mariano. 

Nas paróquias em que atuam os missionários sacramentinos, lá estão os grupos de jovens que, atentos à Palavra de Deus, se reúnem e são animados para levar adiante a mensagem do Evangleho. Nos Centros de Formação mantidos pela Congregação (que são verdadeiros pólos de ação eucarístico-social), numerosos jovens recebem a oportunidade de se capacitarem melhor para exercerem uma função na sociedade. 

E, nas casas de formação da Congregação, lá estão dos jovens que decidiram se entregar completamente ao Reino de Deus. Que desejam consagrar suas vidas ao ideal da Vida Religiosa e, mais especificamente, à vida sacramentina. Que querem seguir os passos ao mesmo tempo místicos e missionários de seu santo Fundador. Jovens que querem levar adiante a missão de “eucaristizar o mundo do jeito de Maria”. 

Neste 13 de maio, só podemos agradecer a Deus pelo grande dom para a Igreja que foi a pessoa do Pe. Júlio Maria De Lombaerde. Agradecer-lhe pela Congregação dos Missionários Sacramentinos. E pedir-lhe que esse ideal possa continuar contagiando as pessoas, para que Jesus reine. Amém!

Fonte: Jornal O Lutador, ed. de 11 a 20 de maio de 2011

sexta-feira, 18 de março de 2011

A Caridade do Pe. Júlio Maria


Por Pe. Aureliano de Moura Lima, sdn
Conselheiro Geral

A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é ‘meu’; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é ‘dele’, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso ‘dar’ ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é ‘inseparável da caridade’, é-lhe intrínseca. (CinV, 6).

Ao iniciar com as palavras de Bento XVI em sua última encíclica Caritas in Veritate (CinV), quero dizer que o Pe. Júlio Maria foi um homem que exerceu a caridade na verdade. Deu de sia para aquelas realidades sofridas que ele buscou transformar a partir de dentro. Tudo o que ele tinha de mais precioso: sua vida, suas provisões, sua estima e honra, sua terra natal, sua família distante, ser caluniado, injustiçado, ameaçado, noites de sono, lazer, tudo o Pe. Júlio ofereceu para as obras que realizou pelo bem das pessoas e da Igreja.

O Bispo missionário na África pediu uma esmola para os pobres africanos. O jovem Júlio Emílio (mais tarde Pe. Júlio Maria) decidiu oferecer a sua vida pela missão. Não quis dar algo, mas deu-se a si mesmo. E fê-lo sem recuar jamais. Passou pela África, retornou à Europa, foi enviado para o Brasil e por aqui viveu 32 anos sem jamais voltar à sua terra natal. Dedicou-se totalmente à missão que lhe foi confiada. Mais. Não se satisfazia em cumprir o estabelecido. Talvez esse seja seu grande mérito. Foi além. Fundou três Congregações Religiosas para cuidar dos pobres que lhe eram muito caros.

Preocupava-se com os doentes: arranjou uma farmácia e ajudou a construir um hospital. E as crianças abandonadas? Um patronato para elas! O que fazer pela juventude sem perspectiva? Irmãs para a educação e fundação de colégios! O que fazer com os idosos abandonados? Asilos, abrigos! E a formação moral, intelectual, religiosa do povo, como fica? Livros, jornais, Congregações para dar-lhes apoio e suporte!

Vejam que o Pe. Júlio Maria não parava. Olhava o mundo com o olhar de Jesus. Não se limitava a uma caridadezinha de assistência aqui ou acolá, não. Os projetos pululavam em seu coração e sua mente. Arranjava jeito e gente para levar adiante seus projetos. Contagiava, aquecia o coração de seus seguidores. E os entusiasmava de tal maneira que levavam adiante suas iniciativas.

Hoje estamos tentando alavancar, de modo novo, a ‘caridade na verdade’ que sustentou as obras sociais do Pe. Júlio Maria. Muitas vezes somos premidos pelas exigências legais da filantropia e deixamos de realizar o bem caritativamente. Corremos o risco de realizar os projetos sociais em vista do cumprimento duma exigência jurídica. Será que não estamos querendo apenas ser justos, isto é, dar o que é do outro? E o Papa diz que o plus da caridade é que nela damos o que é nosso, daquilo que é meu. Aí está a verdade da caridade. “Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a atividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os atuais” (CinV, 5).

Vale a pena mencionar ainda Caritas in Veritate (6): “A ‘cidade do homem’ não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo”.

Nas pegadas do Pe. Júlio Maria queremos que a nossa ação social seja marcadamente eucarística: “Façamos ação social eucarística” dizia nosso fundador. Para isso é preciso superar a mentalidade do jogo de interesses que caracteriza nossa sociedade neoliberal e entrarmos na lógica da Eucaristia: amar até o fim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

"O Padre Júlio Maria era um homem de Deus"

- Monsenhor Aristides Maques da Rocha, para o senhor, quem era o Pe. Júlio Maria?

- “O Pe. Júlio Maria era um homem de Deus. Manhumirim não era nada. Manhumirim é o que é hoje, graças ao Pe. Júlio Maria. Em Manhumirim, ele fundou a Congregação dos Padres e das Freiras.

Andei muitas vezes com ele. Acompanhei-o em muitas missões e participei de muitos retiros espirituais pregados por ele para o clero de Caratinga. Era ele quem pregava o retiro para nós.

As virtudes brilhavam na barva dele.

Quando a torre da Catedral de Caratinga ficou pronta, quem a benzeu foi ele, em 1929. Eu o convidei e Dom Carloto aprovou. De Caratinga, fui com ele para o Rio de Janeiro.

O Pe. Júlio Maria era um santo, e muito santo. Muito admirável.

Um milagre aconteceu comigo e ele. Nós dois viajávamos de carro para Manhuaçu. O carro perdeu o freio e precipitou-se pela pirambeira abaixo. Eu queis saltar fora. Mas ele me segurou pelo braço e disse: “Não é preciso saltar não, Monsenhor”. O carro, desgovernado, parou lá embaixo, na beira do rio, e não aconteceu nada.”

Monsenhor Aristides Marques da Rocha,
insigne clérigo dos inícios da Diocese de Caratinga,
que conviveu com o Pe. Júlio Maria.

Entrevista feita pelo Pe. Demerval A. B., SDN, em 18 de março de 1979.

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Padre Júlio Maria que eu conheci

Por Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn
Bispo emérito de Taubaté

Ele tinha o olhar flamejante e firme

Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn
Bispo Emérito de Taubaté-SP
Conheci o Pe. Júlio Maria em 1933.

Menino de doze anos, transpus os umbrais do Seminário Apostólico de Manhumirim, acompanhado de meu saudoso pai, que vinha entregar-me a um outro pai, que haveria de exercer sobre minha vida tão imensa influência.

Tarde escaldante de primeiro de fevereiro. Após longa espera na sala de visitas, entrou o Pe. Júlio Maria, que vinha do Colégio das Irmãs. Alto, longa barba, olhar flamejante, firme. Mas bondoso, afável.

Foi a imagem que me ficou presa n’alma de criança tímida e ansiosa, ao contato passageiro de uns quinze minutos.

Nos dias seguintes, aquela imagem, que mais incutia temor e reverência do que inspirava amizade, se acentuou no meu espírito. Pe. Júlio era para mim um homem extraordinário, que nunca tinha visto semelhante, e que criava em mim um misto de medo e de segurança. Medo, não sei de quê. Certamente, de seu olhar penetrante e de seu rosto às vezes austero. Mas, segurança, confiança no futuro, nas horas incertas, quando ele ensinava.

Tímido quando o procurava, enchia-me de alegria quando ele falava. E me sentia amparado, forte, decidido a ser homem, como ele era.

O outro lado do homem

Muito mais tarde, quando fui noviço e professo, nosso relacionamento se acentuou. Vi, então, de perto, mais que o homem, o enorme homem, forte e austero. Comecei a perceber o religioso, o homem que rezava, o penitente, o pobre, o padre que amava a Igreja.

Eu amadurecia, perdera em parte a timidez, e começava a apreender novos aspectos nas pessoas e nas coisas. E o Pe. Júlio Maria como que desabrochava numa nova figura diante de mim.

Vi, então, que aquele que me parecia severo, era, atnes de tudo, severo consigo mesmo. Enérgico, sua energia era virtude que vencia o comodismo humano.

Ele fazia o que pregava. Ensinava a pobrez, e era pobre. Dizia que era preciso rezar, e rezava com alma aberta e confiante. Pregava o zelo, e o mostrava na sua conduta de padre, que não conhecia momentos de descanso.

Foi ao lado deste Pe. Júlio Maria que vivi doze anos. Cinco anos impressionado pela figura do homem, sete edificado pela presença do padre, do fundador, e só hoje sei dizer: do carismático, do enviado, do homem de Igreja.

O outro lado da história

Há fatos que a gente presencia na vida e só balanceia mais tarde. Eles ficaram como absorvidos na sequencia do dia a dia. Foi assim que participei de alguns acontecimentos da vida familiar do grande missionário de Manhumirim, cujo alcance somente agora posso avaliar.

E mesmo alguns fatos de sua vida passada, que pesquisei e escrevi em sua biografia, somente hoje, amadurecidamente, consigo poderar, atinando com seu alcance no contexto da História.

Vejo que a maioria dos episódios, ou a contextura de todos eles, na vida do Pe. Júlio Maria, tinha um sentido de projeção para o futuro.

Homem que se entregara à Igreja, para seu serviço, e que fora eleito para uma especial missão de Igreja, o Pe. Júlio Maria não construiru para si uma obra no presente. Ele, sem o saber, e sem nós o lobrigarmos também, edificava a própria Igreja, enquanto configurava uma Igreja particular e local, dando-lhe traços específicos e crinado uma realidade nova e importante, que haveria de influir para o futuro.

Quando ele morreu, naquela tarde trágica, inundada de chuvas, cheia de angústia na casa imensa, que aguardava à hora do jantar o seu sorriso e que recebeu o seu cadáver, eu senti que tudo ia começar de novo.

Isto é, parecia-me que principiava a façe oculta da História. Tudo ia começar de novo: o Pe. Júlio reconstruindo, lentamente, a sua obra na luz de Deus.

Não me enganei. Uma história nova se iniciou. E era a verdadeira. A História.

Fonte: Miranda,sdn, Dom Antônio Affonso de. Pe. Júlio Maria, Testemunho de Uma Nova Igreja. Belo Horizonte: O Lutador, 2ª Edição.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

"Sua memória é, para mim, ainda agora, a de um vivo"

Apresentamos o prólogo do livro "Pe. Júlio Maria, testemunho de uma nova Igreja", de autoria de Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn. Dom Miranda foi o primeiro Superior-Geral eleito da Congregação, e o seu primeiro padre eleito ao Episcopado. Conviveu longos anos com o Fundador, sendo testemunha pessoal de várias histórias. Vale a pena conferir.

***

Prólogo

Dom Antonio Affonso de Miranda,  SDN.
Bispo Emérito de Taubaté-SP
Há cem anos, ele nasceu. Terá ele morrido, de fato?

Até hoje, trinta e três anos após o seu sepultamento, não me conformo em pensar que ele tenha morrido. Sua memória é, para mim, ainda agora, a de um vivo.

Talvez porque ele marcou muito profundamente a minha adolescência e minha mocidade, seus traços ficaram indeléveis em meu espírito. Não é um morto. É um vivo que apenas se ausentou.

Tal é para mim o Pe. Júlio Maria De Lombaerde, grande missionário, grande Padre, que viveu em Manhumirim seus últimos anos, na década de quarenta.

Quero fazer um retrospecto de memória, para os que dele ouviram falar e também os que não o conheceram. Gostaria de evocar, bem vivo, em quadros da história, a sua personalidade, como eu a conheci e admirei. Gostaria que os amigos de seus filhos e filhas espirituais, e principalmente estes e estas, pudessem dizer comigo: “Ele está vivo. Ele não morreu. Nos seus cem anos, ele reaparece redivivo e imortal, nesta Igreja para a qual ele trabalhou e sofreu”.

Há muitos anos, após a morte deste grande sacerdote, escrevi-lhe a biografia. Um pálido ensaio daquilo que devia ser, de fato, a sua História.

Mas um livro tão volumoso, como aquele, publicado em 1947, ninguém gosta de ler. Veio-me então a idéia de fazer reviver o meu biografado em quadros rápidos, que o apresentam como ele foi e como o conheci e como se me afigura que continua a ser agora.

Não é, espero, a repetição do que escrevi no passado. Não.

Como se vivo hoje ele estivesse, atuando nesta Igreja que ele tanto amou, eu gostaria de apresentá-lo a meus irmãos e irmãs, para dizer-lhes: “Ei-lo. Ele está presente. Ele caminha diante de nós”.

Na própria dimensão histórica, o homem pode ser considerado sob duplo aspecto: pelo que realizou em seu tempo e pelo que dele se projeta em épocas posteriores.

Quando o Pe. Júlio Maria morreu, falou-se no que ele fez e deixou como marca de seu tempo. Agora, muitos anos passados, percebe-se que a sua obra tinha um sentido mais extenso e duradouro. Ele era portador de um carisma, de um dote, que não era dele, e sum da Igreja a que servia. Este Dom que o Senhor lhe deu não se estreitou no pouco mais de meio século em que ele viveu. Projetou-se para muito além. Ele apenas começou a construir uma Igreja, que naquele tempo não se podia entrever, e que se manifesta hoje, a cada dia, na continuação de sua obra.

É este Pe. Júlio Maria que aparece redivivo na Igreja atual, agora, quando se comemora o seu centenário.

Ele está vivo. É preciso reencontrá-lo. Para caminhar com ele, na esperança, na coragem, na fé, no entusiasmo de fazer a Igreja viver numa fase das mais gloriosas de sua história.

Campanha, festa de S. José, 19 de março de 1978.

+ Antônio Affonso de Miranda, SDN


Fonte: Miranda,sdn, Dom Antônio Affonso de. Pe. Júlio Maria, Testemunho de Uma Nova Igreja. Belo Horizonte: O Lutador, 2ª Edição. Pág. 3-4.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Nossa Senhora de Lourdes e a devoção mariana do PJM

Hoje, dia onze de fevereiro, a Igreja celebra a memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes. Um sítio especial sobre as aparições da Virgem Santíssima naquela cidade pode ser conferido aqui. 

"O Padre Júlio Maria, que era da progênie feliz dos santos, experimentou os efeitos salutares da devoção a Maria.
 Esta devoção nasceu com ele no berço, acariciou-lhe os olhinhos puros de criança nalguma estatueta ou quadro da Virgem, sorriu-lhe animadora no santuário de Nossa Senhora da África, e foi a chama ardente da pira de todos os holocaustos da Vida Religiosa, pobre, humilde, abnegada, no Seminário de Grave.
Deus sabia a que o destinava. No longo itinerário por que o conduzia marcava-lhe a alma com o caráter dos grandes destinos. Não era uma caminhada em vão. Era a viagem formadora dos grandes espíritos."
MIRANDA,sdn, Pe. Antônio Affonso de. Pe. Júlio Maria, sua vida e sua missão - Adap. Pe. J. Herval, sdn. Belo Horizonte: O Lutador, 1991, pag 52.

Tendo sido ordenado sacerdote na França, e lá desenvolvido o início de seu ministério sacerdotal, é mais que natural que o Pe. Júlio Maria tenha adquirido uma devoção toda especial à Virgem de Lourdes. Escreveu o santo fundador: 

"Desde os primeiros anos do meu sacerdócio, não me satisfiz com ser devoto de Maria Santíssima. Eu quis ser dela um amante apaixonado! Quis escrever sobre ela o que de melhor e mais elevado se pudesse escrever! Quis, enfim, torná-la amada pelos homens como nunca o fora dantes. Foi meu ideal, minha paixão durante as missões na França."
MIRANDA,sdn, Pe. Antônio Affonso de. Pe. Júlio Maria, sua vida e sua missão.Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1957, pag. 163.

É sabido também que Pe. Júlio Maria tinha sempre, no meio de sua mesa de estudos, uma imagem da Virgem Maria: 

"Neste momento, não sei bem porque, encontro-me assentado à minha mesa de trabalho, mesa de três pés, com um deles ameaçando cair e com o tampo ainda sem polimento por descuido do carpinteiro. É nessa poética escrivaninha, com uma estatueta da Virgem Maria ao centro, que venho, às vezes, chorar, rir ou sonhar. Nesta noite, faço um pouco de tudo isso."

De Lombaerde, Pe. Júlio Maria. Romance de um missionário no Amazonhas - Trad. Ivan F. Cavalieri. Belo Horizonte: O Lutador, 1991, pág. 23.

Contam os mais velhos da Congregação que essa estatueta, que o acompanhava desde a Europa, retratava a Virgem de Lourdes. A mesma que hoje está na Casa Geral da Congregação, o Seminário Apostólico Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. A imagem encontra-se no quarto do Fundador, protegida por uma caixa de vidro, o que torna a foto pouco nítida, mas extremamente significativa:

A imagem de Nossa Senhora de Lourdes que pertenceu ao Pe. Júlio Maria.


"Toda a sua história ali se resume nesta única expressão, roubada às suas próprias palavras: Ele foi um apaixonado da Virgem!"
- Dom Miranda, sdn

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Vovozinho

Dr. Ivan Fornazier Cavalieri
11-Pe. Júlio Maria Padre Júlio Maria, em vida, foi conhecido por diversos nomes: Padre Mestre, o Barbudo, o Martelo da Heresia no Brasil. Nenhum deles, porém, lhe agradava tanto quanto o de vovozinho, talvez por se ter devotado, de corpo e alma, ao trabalho com a criançada, sabendo encontrar nele o meio mais eficiente de chegar ao coração dos fiéis. E, de fato, foi poderoso recurso no apostolado paroquial, principalmente, em Manhumirim.
Por mais de uma vez, o próprio Fundador nos contou a verdadeira origem desse afetuoso nome. Ele, ainda estava em Macapá. A partir de 1916, as Filhas do Coração Imaculado de Maria dirigiam, na pequena e pobre cidade, o orfanato das meninas. Como o vigário visitasse frequentemente aquela casa de caridade, suas religiosas chamavam-no de “Meu Pai”. Curiosas e observadoras as caboclinhas concluíram: se as Irmãs que são nossas “mães” o chamam de nosso “Pai”, bem que nós poderemos chamá-lo de nosso “Vovozinho”. Dedução singela e acertada. Daquele momento em diante, trataram-no por esse cognome.
Nas residências do Norte e do Sudeste, em toda parte, as religiosas cordimarianas e sacramentinas chamavam-no de “Pai” e as alunas e demais crianças se referiam a ele como “Vovozinho”.
Abordamos o tema sob dois prismas diferentes:
Catecismo
Todas as quintas-feiras e domingos, às 15 horas, o antigo e pequeno sino da Matriz de Manhumirim anunciava autentica festa. Era a hora do catecismo da criançada.
Nesse momento, a igreja regurgitava de meninos e meninas de todas as camadas sociais, sem distinção alguma.
O ensino do ABC da doutrina católica estava a cargo de catequistas, as Irmãs Sacramentinas e alguns frades, todos dirigidos por América Vidal Soares, paroquiana inteiramente dedicada ao serviço de Deus, e Presidente das Filhas de Maria.
Uma hora depois, pela porta lateral, no altar do Sagrado Coração, Padre Júlio entrava na Matriz. Alegre, postava-se à frente do altar-mor. Em voz alta, rezava com a meninada três Ave-Marias e depois, cantava com emoção:
“Ó Maria concebida
Sem pecado original
Quero amar-vos toda a vida
Com ternura filial
[Coro]
Vosso olhar a nós volvei
Vossos filhos protegei
Ó Maria! Ó Maria!
Vossos filhos protegei (bis)”.
As vozes da criançada misturavam-se à do infatigável missionário e perdiam-se no ar. Fato comum nas celebrações religiosas na paróquia. Os meninos ou os homens ficavam nos bancos do lado esquerdo da igreja. As meninas e as mulheres lotavam o lado direito. Isso acontecia com os seminaristas, as normalistas, as Irmãs, as irmandades e todo o povo. Sem dúvida, velho costume europeu, ainda adotado pelo Padre Júlio em Manhumirim.
Terminado o catecismo, com que amabilidade o vovozinho era cercado pelas crianças, no adro da Matriz. Tocavam-lhe a batina, beijavam-lhe as mãos, abraçavam-no afetuosamente.
Naquela hora, repetia-se a passagem bíblica de Jesus entre as criancinhas.
Uma lição de vida e de amor!
Cruzada Eucarística
Das associações religiosas, a “Cruzadinha Eucarísticas” era a mais terna e graciosa. Uniformizada de branco com fita amarela atravessada ao peito, a garotada, uma vez por mês, assistia à Missa, cantava e comungava. Ideal supremo de todos os meninos(as) era a pureza e a bondade.
Desde sua chegada à cidade, Padre Júlio Maria se devotou a esse apostolado. Os relatórios de 1928 em diante afirmam explicitamente que o movimento juvenil era consolador. Em o nº 102 de “O Lutador”, de janeiro de 1931, lia-se o seguinte: “Tendo apenas uma população de 5.000 almas, a cidade possui na ‘Cruzada Eucarística’ mais de 200 crianças”.
Há uma foto de maio de 1929, tirada à porta da igreja. Pe. Júlio, ainda de batina preta, está no meio de 106 neo-comungantes mirins vestidos de branco.
Ele costumava afirmar:
- “A cruzada é a metade de minha alma. O que ninguém alcança, a cruzada me obriga a fazer quase chorando...”.
Bem vivo em nossa memória um fato relacionado à “Cruzada Eucarística” de Manhumirim.
Depois de cruel enfermidade, veio a falecer em 29 de março de 1941, o robusto menino Carlos Luís – Lulú – filho do farmacêutico Álvaro Vidal Soares e dona Marinalva Soares Vidal.
Família tradicionalmente católica granjeou o maior apreço moral de toda a cidade que acompanhou de perto o desenrolar da moléstia e conduziu ao túmulo o cruzadinho de sete anos.
O enterro foi uma verdadeira procissão de fé religiosa, com cânticos e flores. Ninguém vestiu creme, a Cruzadinha e as Filhas de Maria, todas de branco, acompanharam o corpo do anjinho até a derradeira morada. Rezou-se e cantou-se em clima de ardor celestial!
Pelas ruas da cidade, conduziu-se uma bandeira de religiosidade e de glória!
Lulú aprendera com o Vovozinho que a estrada mais rápida para o céu é fazer a vontade de Deus, mesmo entre o padecimento e a dor.
O seu exemplo foi mimosa flor na Cruzada Eucarística de Manhumirim.
***
A paróquia do Bom Jesus do antigo Pirapetinga ficou sob os cuidados do missionário belga, de formação cultural francesa, por 16 anos contínuos (1928-1944).
Com entusiasmo e ardor, deixou várias associações religiosas em franco progresso. Por que não lembrar aqui tantos jovens marianos, rezando, comungando e cantando? E as dezenas de senhores vicentinos todos voltados para a caridade fraterna? As filhas de Maria formavam uma falange exemplar. As damas do Coração de Jesus completavam o quadro de fiéis em torno do enérgico, porém edificante pároco.
Na diocese de Caratinga, Manhumirim, inegavelmente, era um centro destacado pelo sou profundo amor à Eucaristia e à Nossa Senhora.
* O autor, advogado falecido, residia em Juiz de Fora-MG. Foi seminarista da Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, tendo convivido pessoalmente com o Fundador. Durante toda a vida, contribuiu muito para a divulgar o Pe. Júlio Maria.

NOTA: Temos informações de que o nome da esposa do Sr. Álvaro, supracitado, é na verdade MIRALDA MACHADO VIDAL.