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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Aos pregadores, uma simples observação

Pe. Júlio Maria De Lombaerde, SDN

Tem-se escrito muito sobre a eloquência, do ponto de certas pessoas julgarem que a arte da eloquência consiste em escrever um belo discurso, em decorá-lo e recitá-lo com firmeza.

A verdadeira eloquência não consiste nisso; ela vem de mais alto, de mais longe. Para o êxito duas qualidades são exigidas da parte do pregador e duas da parte do discurso.

I - Da parte do pregador

O pregador deve estar convicto do que diz e deve amar as pessoas que o escutam. A convicção pessoal do pregador é o primeiro elemento do bom resultado na pregação. Tal convicção se manifesta desde o princípio, pelo tom incisivo e firme, com que se enuncia o assunto. É preciso lançar a verdade de um só jato, em palavras firmes e fortemente destacadas.

A convicção dá algo de vigoroso, de penetrante, que fixa o espírito do auditor e o excita ao desejo de conhecer, mas a fundo, a verdade.

O amor ao auditório é o segundo elemento do sucesso. É preciso que o auditor sinta que o pregador quer fazer-lhe bem.

Trata-se de ganhar os corações e entrega-los a Deus. Só a caridade sabe descobrir os caminhos misteriosos, que conduzem ao coração.

É sempre eloquente quem quer salvar as almas. É sempre escutado com satisfação, quem ama. É o segredo da palavra viva e eficaz. Aí está a magia da eloquência sacra! Que belo exemplo nos oferece São Paulo!

A sua pregação é a efusão de uma alma repleta de caridade e de verdade, destacando, habilmente, os vícios e os erros das pessoas, fulminando o mal e estendendo a mão paternal aos que o cometeram.

II - Da parte do discurso

A popularidade:

O discurso deve ser popular e claro.

O sacerdote é o homem do povo, e a sua palavra deve ser compreendida por todos.

A eloquência acadêmica é profanação da eloquência sacra.

O grande modelo a imitar é, e sempre será, a palavra de Jesus Cristo.

Nunca homem falará melhor do que aquele que mais se aproximar da linguagem de Jesus Cristo.

A clareza:

É a segunda qualidade do discurso: clareza na expressão e no sentimento.

O povo nada entende das abstrações especulativas da razão. É mister conduzí-lo do conhecido ao desconhecido, do sensível da religião às altas verdades dogmáticas. A palavra clara agrada a todos e faz o bem a todos, enquanto a fraseologia bombástica diverte alguns espíritos, mas não penetra no coração.

O tom narrativo é o mais claro e o mais compreensível para o povo: é uma espécie de dramatização da verdade a expor.

É o método do Evangelho... narra e discute pouco, expõe, torna a verdade sensível pelas comparações e parábolas e deixa ao ouvinte tirar a conclusão pessoal.

Preguemos o Evangelho com convicção e amor.

Seja a nossa palavra popular e clara.

E o êxito será esplêndido, ultrapassando toda expectativa.

(Fonte: O Evangelho das Festas Litúrgicas. Manhumirim: O Lutador, 1952. p. 5-6. )

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sustentador e Conservador da Igreja



A centralidade de Cristo em Mt 24 a partir do Pe. Júlio Maria De Lombaerde

Por Matheus R. Garbazza

O evangelista São Mateus oferece à comunidade cristã uma preciosa preparação à narração dos eventos máximos da Fé cristã que são a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor. Trata-se do chamado “sermão escatológico”, no qual o Divino Mestre tece algumas considerações a respeito do fim dos tempos e do Reino dos Céus. Esta preparação, constituída pelos capítulos 24 e 25 de seu Evangelho, termina com o convite à vigilância constante, à modo das cinco virgens prudentes que levaram óleo de sobra e dos servos que souberam empregar os talentos concedidos pelo seu senhor. Isso porque não nos é possível saber o dia ou a hora da vida de Cristo e da instauração definitiva de seu Reino.
Concentremo-nos no capítulo 24, a abertura da fala escatológica de Cristo. Logo de início, temos Jesus e seus discípulos caminhando para fora do Templo em Jerusalém. Os discípulos, marcados pela imponência da construção simbolicamente mais importante do povo judeu, aproximam-se para mostrá-lo a Jesus. O Mestre reage com uma afirmação forte e assustadora: “Não estais vendo tudo isso? Em verdade vos digo: não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído” (v. 2). Certamente foi um choque para os ouvintes, que logo após questionam: “dize-nos: quando será isso?” (v. 3). É a partir desse ponto que Jesus passa a falar sobre os sinais de sua vinda, o que acontecerá antes e como poderá ser sentida a sua aproximação.
O sinal mais marcante enumerado pelo evangelista, a partir da profecia de Daniel, é a “abominação desoladora instalada no lugar santo” que é o Templo (v. 15). Depois de passar pelos outros diversos sinais, termina o capítulo com o convite à fidelidade e à obediência (isto é, à escuta profunda da Palavra, colocando-a em prática). Para tanto, é utilizada a figura dos dois servos (v. 45-51): o fiel, que guardou bem a casa de seu senhor e assim recebeu a administração de seus bens, e o infiel, que foi injusto, comeu e bebeu desregradamente e espancou seus companheiros. Se o primeiro conquista a bem-aventurança, para o segundo resta o “choro e ranger de dentes”.
Deixando um pouco a exegese literal do texto a respeito dos últimos dias e da vinda de Cristo, podemos nos aproximar de uma realidade de suma importância para nós cristãos que, caminhando entre as vicissitudes da existência, encontramos Nele a força e a esperança. A partir da consideração a respeito do Templo perecível em São Mateus, podemos voltar nossos olhares para o templo imperecível da Nova e Eterna Aliança: a Igreja – Corpo Místico de Cristo.
É esse o esforço empreendido pelo Pe. Júlio Maria De Lombaerde em seu texto “Os Templos Eucarísticos”, parte de seu livro “Comentário Eucarístico do Evangelho Dominical”. O ponto de partida é exatamente o templo e o anúncio de que se veria nele instalada a abominação desoladora. Dessa ótica, explanando o objeto de estudo do livro – a Eucaristia – pode-se perceber um dado importantíssimo no pensamento geral da Igreja e do Pe. Júlio Maria, seu filho fiel: a centralidade de Cristo.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O Pão Eucarístico

Pe. Júlio Maria De Lombaerde, sdn


Hoje é a grande festa da Eucaristia!

É a festa do triunfo eucarístico no mundo e nas almas: no mundo, pelas procissões solenes que se fazem em toda parte; nas almas pela comunhão fervorosa deste dia.

‘A minha carne é verdadeiramente comida’, diz o salvador. ‘E quem comer a minha carne fica em mim, e eu nele – quem comer este pão viverá eternamente’.

Meditemos hoje estas palavras divinas, tão expressivas e tão divinamente ternas.

Jesus é o nosso pão... o pão que dá a vida eterna.

Nos queremos a vida eterna: é preciso, pois, recorrer a este pão divino, e excitar em nós uma espécie de fome espiritual por este pão dos anjos.

Dar ao homem mortal uma vida eterna é operar nele uma completa transformação.

É esta transformação que vamos considerar hoje, vendo:

1º O pão transformador.
2º O pão de cada dia.

I – O pão transformador

Sendo o corpo de Jesus Cristo o alimento da nossa alma, o seu primeiro efeito é ser transformado em nosso corpo e sangue; porém há um segundo efeito, divinamente terno, é que o alimento por sua vez nos transforma.

O gênero de alimentos contribui a formar as raças, e se contribui para este efeito geral, produz necessariamente efeitos sobre cada indivíduo em particular.

É um fato, hoje muito estudado e verificado, que tal alimento desenvolve a força dos músculos, tal outro o vigor do cérebro, um provoca uma vida intensa, o outro uma ação pacífica.

A divina Eucaristia é o alimento que deve formar uma raça divina.

A graça é chamada por São Pedro: ‘uma participação à natureza divina’ (2Ped 1,4).

Chama-se natureza de um ser: o princípio de sua atividade.

Pela graça adquirimos pois a possibilidade de agir divinamente, de fazer obras sobrenaturais, merecedoras de vida eterna.

E aqueles que agem desse modo constituem verdadeiramente uma raça divina: genus electum, diz São Pedro (1Ped 2,9). Somos da linhagem de Deus, como diz São Paulo. Ipsus enim ET genus sumus (At 17,28).

***

O próprio corpo não fica estranho a tal transformação, nem pode ficar, pois o corpo e a alma formam uma única pessoa, e esta pessoa participa necessariamente das transformações da alma e do corpo.

Reflitamos bem. É o corpo que recebe realmente Jesus Eucarístico e o conserva durante a sua passagem, infelizmente tão curta.

Ora, um tal contato não pode ficar sem efeito.

Logo, divinizando a nossa alma, a Eucaristia deve comunicar qualquer coisa dessa divinização a nosso corpo.

Durante a sua vida, Jesus Cristo curava os doentes pelo contato da sua mão; tocando-nos pelas santas espécies, porque não santificaria nossas lutas e abrandaria nossas inclinações malignas?

O estado normal da alma é a união com o corpo.

É preciso, pois, que o corpo participe de qualquer modo às influências da alma.

A alma pervertida comunica ao corpo qualquer coisa de duro, de irrequieto; enquanto a alma divinizada pela graça lança sobre o semblante do homem uma irradiação de bondade e paz.

Um dia o nosso corpo tem de ser unido de novo à alma; é preciso pois que este corpo adquira a aptidão de ser o companheiro adequado da alma, partilhando a sua felicidade e a glória, e reformando a personalidade única, resultante da união do corpo e da alma.

II – O pão de cada dia

O que acabamos de ver sobre o papel transformador da Sagrada Comunhão, é o bastante para compreender a necessidade de recebê-la com freqüência.

A alma, tão bem como o corpo, tem continuamente forças a refazer, elementos malsãos a eliminar, por a vida da natureza continua a existir, e procura, pela lei das oposições, a sufocar a vida sobrenatural, que é o seu antagonista.

O pão material de cada dia é uma necessidade, porque além das forças a refazer, por dentro, pelo gasto da atividade, temos de resistir a mil micróbios que nos espreitam de fora, e ameaçam a estrutura do nosso organismo.

O pão espiritual devia ser, por sua vez, de cada dia, pois temos também, por dentro, forças que se perdem e que devem ser restituídas, como temos por fora milhares de micróbios de perdição que procuram roer a nossa alma e lançá-la no abismo da tríplice concupiscência, como é a inclinação da carne, a volúpia dos olhos e o orgulho da vida.

Eis porque o mestre divino nos faz pedir o pão de cada dia.

Este pão é Deus!

É Ele que deve alimentar o elemento divino em nós, para conservá-lo em sua força dominadora.

Todo cristão, em estado de graça, tem pois o direito de desejar, como tem a obrigação de pedir este pão divino. Deve recebê-lo, não obstante o seu pouco valor pessoal, em vista das suas necessidades prementes da vida sobrenatural.

Ah! Não digais: Isto é o ideal?

É o ideal, sim; mas dizei-me: qual é a condição normal de um homem divinizado? Não é o ideal divino?

O que é divino é necessariamente ideal: a mediocridade seria para ele uma decadência. É certo, infelizmente, há muitos cristãos medíocres, porém, não é por direito, é por decadência.

Examinemos se os obstáculos materiais que talvez nos privam da comunhão freqüente são deveras invencíveis. É um dever nosso, procurar antes de tudo, o reino de Deus em nossa alma.

Quantos motivos mesquinhos, quantas ilusões estreitas nas desculpas, nós costumamos apresentar para eximir-nos da mesa sagrada!

Deus nunca exige o impossível. Se pois ele nos faz pedir o pão de cada dia, é porque há possibilidade de recebê-lo.

III – Conclusão

As festas eucarísticas de hoje devem excitar em nós, o desejo de cooperar na grande obra da glorificação de Jesus Sacramentado, glorificação social, pública, e glorificação individual, pessoal, que se deve operar pela recepção da Sagrada Comunhão.

Sentimos por demais a necessidade de uma transformação em nossa vida, e tal reforma deve realizar-se pela recepção do pão transformador, que nos põe em contato com Deus.

E como tal obra é de todos os dias, precisamos recorrer à comunhão freqüente. A comunhão deve ser o pão de cada dia, para que cada dia tenhamos a força de vencer os inimigos da nossa alma.

Um pouco de boa vontade e todos os clamores da indolência, do interesse e do respeito humano calarão diante da necessidade e do amor.

A necessidade deve impelir-nos; enquanto o amor nos deverá atrair.

É na mesa eucarística que está a salvação das almas e do mundo.

[In Comentário Eucarístico do Evangelho Dominical, págs 242-247]

domingo, 27 de março de 2011

A Confissão

Meditação do Evangelho de Mateus, 9, 1-8.


Notemos bem a primeira palavra de Jesus, dirigida ao paralítico: tem confiança, filho, que os teus pecados te são perdoados!

Todo pecador é um paralítico: E todos nós somos pecadores!

O viciado é um leproso: já vimos como Jesus cura os leprosos; vejamos hoje como Ele cura os paralíticos espirituais: é pelo sacramento da confissão.

A confissão é o grande sacramento da misericórdia divina.

Já tratamos dele (I domingo da páscoa). Vejamos hoje outro aspecto da confissão, mostrando:

1. A sua necessidade.

2. As suas doçuras.

I – Necessidade da Confissão

A confissão corresponde admiravelmente a todas as necessidades de nossa alma; e esta perfeita adaptação é uma prova da sua divindade.

A confissão tem por fim arrancar o mal do coração do homem.

Ora, o mal contém três elementos: o orgulho, a concupiscência, a revolta.

O pecador repete, em atos senão em palavras, o brado orgulhoso de Lúcifer: Nom serviam!

O orgulho leva o homem a rejeitar e desprezar a lei do Criador.

O homem prefere obedecer às suas paixões, deixando-se levar pela concupiscência; e como encontra um obstáculo – a lei divina – ele se revolta.

A confissão cura este mal com os três elementos opostos. De fato, a confissão inclui três atos essenciais:

A humildade, oposta ao orgulho;
O sacrifício, oposto à sensualidade;
A obediência, oposta à revolta.

O pecador é obrigado a ajoelhar-se aos pés de hum homem, seu igual como homem, seu mestre e juiz pela dignidade: é um ato de humildade.

O pecador deve declarar suas misérias: é um sacrifício.

Enfim, ele deve cumprir a penitência imposta: é um ato de obediência.

Eis como Deus destrói, até à raiz, o mal que cometemos. Ele nos castiga com três atos opostos aos atos do mal cometido... mas se Ele castiga, Ele cura e consola também, como vamos ver.

II – As doçuras da Confissão

A confissão é sobretudo um remédio, mas todo remédio é amargo.

Deus, que é Pai, que dulcificar a amargura do remédio, passando um pouco de mel na beira do cálice que Ele nos apresenta... e chega até a misturar o mel com o próprio remédio.

De que coisa precisa o pecador arrependido? De três coisas: consolação, luz e perdão.

Oh! Quanto nós precisamos de consolação! Há horas tristes na vida... há amigos falsos e inconstantes... há traições... Há Pilatos e Judas em grande número. Daí os desesperos... os suicídios! O pecado é um abcesso cheio de pus, que faz sofrer horrivelmente. A confissão é como uma lanceta que abre o apostema. O sacerdote é um amigo fiel... um consolador incomparável.

Nós precisamos também de luz! Jesus Cristo nos trouxe um duplo luzeiro: um luzeiro geral e um particular. O primeiro indica o caminho. O segundo mostra as pedras e os espinhos do caminho. O primeiro é a pregação e o segundo é a confissão. Precisamos de luz, para ver nossas fraquezas. A pregação nos faz olhar para o céu. A confissão nos faz olhar para nós. A pregação nos mostra o ideal. A confissão mostra como devemos abraçá-lo. A primeira, é a luz da inteligência. A segunda é a luz do coração.

Precisamos ainda de perdão. A sociedade castiga, não perdoa. A sociedade avilta e, cumprido o castigo, não reabilita... mas deixa a vítima entregue à sua miséria. Um assassino, por exemplo, pode chegar a todas as honras... mas o povo, ao vê-lo cercado de glória, murmura sempre: é um assassino! E seus filhos, embora inocentes, são filhos de um assassino.

Só Deus perdoa, reabilita, apaga tudo: esta é a obra prima da confissão.

A confissão fere, humilha, mas reabilita e consola.

O pecador, uma vez perdoado, está regenerado: é de novo filho de Deus, como se nunca houvesse pecado. Isto prova a divindade da confissão.

III – Conclusão

Adorável invenção de um coração de Pai amoroso: a confissão é uma necessidade para os homens, pois são pecadores; mas é também uma consolação, pois Deus conhece as amarguras da vida.

Deus instituiu este sacramento da misericórdia para destruir o mal no homem, este mal, sendo o orgulho, a concupiscência e a revolta, o remédio deve ser: a humilhação, o sacrifício e a obediência.

Deus suaviza todo sacrifício; ele quer também suavizar o sacrifício da confissão. O pecado deixa no homem tristeza, trevas e remorso.

E eis que Deus arranca estas raízes amargas, dando, ao arrependido que as confessa, consolação, luz e perdão.

Oh, como é divinamente belo... e divinamente paternal!

É o sacramento da misericórdia divina. 


Pe. Júlio Maria De Lombaerde, "Comentário Dogmático do Evangelho Dominical", págs 287-292


***

Oferecemos este texto sobre a Confissão no III Domingo da Quaresma. Nesse período de reflexão e de penitência, o Sacramento da Reconciliação ocupa lugar privilegiado em nosso relacionamento com Deus.

quarta-feira, 23 de março de 2011

A Agonia no Jardim - Parte 1/2

[UPDATE:] Favor conferir a ERRATA!
As iniqüidades do mundo inteiro, como rios transbordados, precipitaram-se no mar do Meu coração.

O ideal do Amor, enfim, contente, repleto de venturas, satisfeito, eis a Agonia no Jardim: o primeiro, o maior e o mais misterioso dos episódios da Paixão.

O altar do Seminário Apostólico N. Sra. do SSmo. Sacramento,
em Manhumirim-MG, preparado para a Quaresma
O primeiro, porque na ordem do tempo, de modo exterior e visível, ele a começa; o maior, porque ele reitera todas as imolações do Homem-Deus, desde o primeiro vagido do Presépio até ao derradeiro gemido do Calvário; o mais misterioso, não só porque ele antecipa todos os sofrimentos corporais da vítima, mas também porque, onde os olhos da carne não vêem mais que uma luta, um combate, uma agonia, os olhos iluminados da fé contemplam a suprema ventura do Amor.

Eu vos disse anteriormente que, obra de Deus, a Cruz é a obra prima da alegria.

Obra de Deus neste sentido: conquanto os opróbrios, as ignomínias, os sofrimentos todos de Jesus Cristo fossem resultado da perversidade judaica, verdadeiros pecados do povo deicida, o Filho de Deus ab-oeterno aceitou-os, ab-oeterno resolveu tirar da iniqüidade a Sua glória, convertendo em instrumentos de Seu triunfo as humilhações da Sua Paixão.

Foi voluntariamente que Jesus Cristo Se sacrificou: oblatus est quia ipse voluit.

Sob este ponto de vista, portanto, a Cruz é obra de Deus, e obra prima da Alegria, porque Deus é uma imensa alegria, que se comunica a todas as Suas criações, e, pois comunicou-Se também à humanidade santa do Verbo, perfeitamente feliz e bem-aventurado em todos os instantes da Sua existência terrestre.

A Agonia no Jardim não foi por isso, apesar de todos os sofrimentos, menor que a suprema ventura do Amor.

O Amor! Ele é a seiva do universo; a energia atrativa de toda a criação; circula no ramo vive na flor, no pássaro, no inseto; produz e perpetua a vida.

Diz um antigo hino grego: “O Eterno disse ao Amor: que tudo se organize; e tudo se organizou!”

Se no mundo físico o amor é o pólo da criação; no mundo moral é a alma do gozo, a vida da alegria. Sem dúvida, na sua verdade e pureza, o amor é raro, como é raro o gênio, raro o heroísmo, rara a formosura, raro tudo que se aproxima da perfeição. Ainda assim, na vida ele é para nós o tipo supremo da felicidade.

Falando do espírito das trevas, dizia a maior contemplativa do nosso tempo, Teresa de Jesus: “desgraçado! Ele não ama!” Eis como que o sinete da desgraça: - não amar.

Não há no céu, nem na terra, diz o livro da Imitação, coisa mais doce, mais forte, mais sublime, mais ampla, mais deliciosa, mais completa nem melhor que o Amor.

Esse amor de que nos fala o sublime poema monástico nasceu de Deus e não pode, como o mesmo poema acrescenta, descansar senão em Deus, elevando-se acima de todas as criaturas.

Não obstante, quaisquer que sejam as vicissitudes e imperfeições da humanidade, são muitas na terra as venturas do amor satisfeito: impossível seria o enumerá-las.

Vede: gozar, possuir uma alma, mesmo na ordem da natureza; mas é sublime! O que será possuí-la na ordem sacramental, divina?! Perguntai-o a ardente felicidade do coração juvenil, recebendo junto ao altar, das próprias mãos de Deus, um coração que para todo o sempre se engasta no seu!

Apertar em seus braços, revestido de sua carne, palpitante de seu sangue, o primeiro fruto de suas entranhas: que ventura! Perguntai-o a mãe fascinada pelos encantos do seu recém-nascido.

Imortalizar na ciência, na arte, na poesia ou na religião – uma idéia que aprendeu a verdade, um pensamento que atingiu o belo, uma inspiração que traduziu o amor, uma palavra que revelou Deus: que inefável ventura! Perguntai-o ao sábio, ao artista, ao poeta, ao apóstolo. Libertar uma raça, regenerar um povo, reconstruir uma pátria: que ventura tão grande! Perguntai-o ao filósofo, ao estadista, ao guerreiro.

Pois bem: a alegria de todas as almas humanas, o prazer de todos os corações satisfeitos, a delícia de todos os amores: amor maternal, amor conjugal, amor fraternal, amor da pátria ou da humanidade; todas as venturas do gozo mais requintado: - o das lágrimas que os Santos derramaram nos seus delíquios, o da pureza que as virgens sentiram no seu corpo imaculado, o do sangue que os mártires derramaram em testemunho da verdade, - todas as venturas do coração humano reunidas são infinitamente menores que a ventura de Nosso Senhor na agonia do Jardim.

É aqui, na verdade, que Ele exteriormente, com inflamada caridade e intrépido valor, dá começo à Sua Paixão. É aqui que a parte inferior da Sua natureza parece inválida por indizível tristeza; e os açoites, os opróbrios, as bofetadas, as zombarias, as blasfêmias, a morte de Cruz – tudo isso que Lhe iam dar os Judeus com tanta vivacidade  o penetra que Ele já suporta todos esses males, e geme, e treme, e perde as cores e as forças, e como que se Lhes esgota a vida.

Ei-lO prostrado, com a face em terra, em agonia!

Trinta e três anos passaram sobre a Sua cabeça. É agora um homem em toda a força da idade.

Muitas vezes mostrou-Se fatigado. Fatigado quando, junto ao poço de Jacob, pedia à Samaritana um pouco dessa água, que Ele próprio criou.

Fatigado quando, nos dias do Seu penoso ministério público, refugiava-Se entre os rochedos.

Nunca, porém, tão fatigado como agora em que uma santa impaciência O domina: a de não poder esperar algumas horas o Seu desejado sacrifício.

Dentro de poucas horas, Ele será batido, flagelado, coberto de ignomínias, crucificado; o Seu sangue será derramado como água.

Ele, portanto, crucifica-Se a Si próprio, num martírio mais misterioso que o do Calvário. Antecipa a Sua Paixão. Reveste-Se de todos os pecados tão numerosos, variados e enormes de todos os homens. Cobre-se deste medonho vestuário que O inflama e queima como uma túnica de fogo.

Treme, todo penetrado do mais horrível dos terrores.

Todos os crimes do espírito; todos os crimes do coração; todos os crimes dos sentidos; todas as loucuras do mundo; todas as orgias da humanidade; o orgulho de todas as inteligências; a luxúria de todas as imaginações; todas as aberrações da ciência; todas as profanações da arte; todos os adultérios da poesia; todos os sacrilégios de todas as religiões, a ambição dos despostas; a tirania dos governos; os atentados da política; as iniqüidades da justiça; os abusos da filosofia; as violações da Moral; todos os escândalos do mundo; as abominações de Sodoma e Gomorra; as prostituições de Babilônia; as bacanais da Grécia; a ambição, a loucura, as crueldades de Roma; a idolatria de todos os povos pagãos; as perversidades da nação judaica; as iniqüidades de todos os povos modernos; as perfídias de todas as monarquias; as mentiras de todas as repúblicas; a hipocrisia das democracias; as imposturas da liberdade – todo este peso enorme oprime a cabeça de Jesus Cristo na Agonia do Jardim, enche de confusão a Sua alma e de amarguras o Seu coração!

É assim, desfigurado, que a Justiça Eterna O contempla, como Holocausto vivo que se Lhe oferece pelos crimes de todas as pátrias, também da nossa: - de todos os pecados privados de públicos do Brasil, das iniqüidades de seus magistrados, do ateísmo político de seus estadistas, das apostasias de seus governos, do paganismo das suas escolas, da irreligião prática de seus lares, da impiedade dos seus parlamentares, do ceticismo de seus jornais, da ignorância religiosa dos seus mestres, da apatia e dos sacrilégios dos seus padres, do seu repúdio oficial da fé católica; de todas as loucuras do espírito revolucionário que invadiu as plagas de Santa Cruz e não deixou entre a monarquia e a república solução de continuidade!...

Onde, me perguntareis agora, numa agonia tão grande que não há, para exprimi-la, nas línguas humanas, termos nem frases; onde ver a ventura de Jesus Cristo?! Por todos os poros de Sua carne desfiam gotas de sangue que inundam a Sua fronte, banham as Suas faces, molham os Seus cabelos, cobrem os Seus olhos, enchem a Sua boca, maculam as Suas barbas, tingem o Seu vestuário, e avermelham mesmo as oliveiras do Jardim!

Que agonia dolorosa e profunda!
Que sofrimento inaudito!


 (A Paixão, pelo Padre Júlio Maria, Cruzada da Boa Imprensa - Rio, ano de 1937)

segunda-feira, 14 de março de 2011

O primeiro milagre

Meditação do Evangelho de João, 2,1-11.

O Evangelho nos apresenta hoje o primeiro milagre operado pelo Salvador. Este primeiro milagre tem uma relação íntima com o último, que é a instituição da Sagrada Eucaristia. Neste primeiro milagre Jesus Cristo mudou a água em vinho, como na Última Ceia, mudará o vinho em seu sangue.

Ele faz aqui uma transubstanciação, mudando a substância da água na substância do vinho; como para preludiar a esta outra transubstanciação, na qual mudará a substância do vinho, na substância do seu sangue.

No milagre das Bodas de Caná - o primeiro de Jesus -
Ele prenuncia a instituição da Eucaristia.
O milagre de cana é uma figura e um símbolo do que diariamente se opera sobre nossos altares.

Há uma admirável aproximação entre o primeiro milagre, com que Jesus Cristo começou a sua carreira, e aquele com que a terminou: a Última Ceia.

É um fato do mesmo gênero: em ambos estes fatos há uma mudança real, um verdadeiramente vinho, como o vinho do cálice se torna realmente sangue.

O banquete de Cana é a figura do banquete nupcial da nova Lei. Aos servos dos esposos Maria disse: fazei o que ele vos disser; aos ministros da nova Lei Jesus Cristo diz: Fazei isto em memória de mim!

Pode-se dizer que Jesus começa num destes fatos o que deve terminar no outro. Em Caná, Ele inaugura o seu poder, preparando a matéria que deve servir-lhe no cenáculo: o vinho, de certo modo, aproxima-se mais do sangue,  tem com ele mais afinidade [...]. Possui a cor do sangue e exprime a força e a alegria que nos comunica o cálice da salvação.

[...]É o que fez pensar a São João Crisólogo, que o salvador, pelo milagre de Caná, quis dar-nos uma introdução e prelúdio da Sagrada Eucaristia.

Tais são as belas lições que nos ministra o primeiro milagre de Jesus Cristo. Em sua vida, em suas palavras e atos, tudo é significativo, pois tudo obedece a um plano divinamente delineado e executado.

O Salvado, sem revelar o íntimo de seus segredos e as tramas escondidas em sua providência, prepara no silêncio, pouco a pouco, a relação dos mais sublimes mistérios.

Indo do conhecido ao desconhecido, do sensível ao espiritual, Ele prepara o espírito os apóstolos para que na Última Ceia, sem dizer uma palavra explicativa, sem o mínimo comentário, Ele possa realizar, em termos claros e positivos o que havia mostrado, em parábolas, em símbolos, no decurso de sua vida.

Vemo-lo aqui mudar a água em vinho, fazer uma verdadeira conversão de substância ou transubstanciação, para preparar a grande conversão da substância do vinho em seu próprio sangue.

E para que a relação seja mais perfeita e sensível, aqui Ele não diz uma palavra. Podia ter dito: Isto é o vinho, ou isto é a água mudada em vinho... Não! Ele reserva a palavra explicativa para a realidade, na Última Ceia. Então, sim, Ele dirá, do vinho transubstanciado: Isto é o meu sangue!

Pe. Júlio Maria De Lombaerde
In Mistagogia Eucarística do PJM.
Pp 33-34

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Encontro Eucarístico

(Meditação do Evangelho segundo Lucas, 2,42-52)

DSCN7326É uma cena encantadora que o Evangelho nos apresenta, cena da união íntima e amorosa que une os três membros desta família divino-humana, composta por Jesus, Maria e José.

Todos haviam ido à Jerusalém para assistir à festa da páscoa. Voltaram para Nazaré, eis que Maria Santíssima, indo com as demais mulheres, e José no grupo dos homens, ao se encontrarem no fim da primeira jornada, verificaram a ausência do Menino Jesus, que não se achava em nenhum dos grupos.

Voltaram pressurosos e tristes para Jerusalém, à procura de Jesus, e eis que o encontraram no templo, no meio dos doutores da lei.

O lugar onde se encontra Jesus é o templo, é o sacrário bendito, onde Ele fixou sua morada, onde Ele reside, e onde quer ser procurado e pode ser encontrado. Ele está ali verdadeiramente presente, a espera dos que o procuram.

Sirva-nos de exemplo Maria Santíssima e São José. Primeiro na procura de Jesus e segundo no encontro de Jesus.

A PROCURA DE JESUS

E como devemos procurá-lo? Pela visita amorosa. Deus longínquo, cuja imagem não podemos delinear em nosso espírito, nos aparece em Jesus Eucarístico, perto e visível.

Jesus possui todas as aspirações da nossa natureza: Ele é homem; e todas as aspirações da Santidade: Ele é Deus.

Nele encontramos um Deus capaz de chorar, de sorrir, de abrir-nos os braços e de apertar-nos contra o seu coração.

Oh anjo, indicai-nos onde Ele está mais perto, mais visível... Para irmos até ele!

Olha acolá... Esta Igreja... Perto de ti... Ó alma: é ali tua morada! Tu o percebes de longe... Tu o encontras ao passar de frente. A qualquer hora tu podes visitá-lo: ali, os teus passos ecoarão no silêncio... Nenhuma voz importuna perturbará o teu colóquio com Ele! Uma pequena lâmpada, de luz tímida, tal uma estrelinha no céu, guiar-te-á e, na pobreza de um estreito tabernáculo, tu encontrarás Jesus.

Ele está aí, aquele que a Virgem santa carregava em seus braços maternos... Aquele que o Pai eterno conserva sentado a sua direita!

Ajoelha-te: pois Ele é Deus! Fala-lhe com teu coração: pois Ele é nosso irmão! Conta-lhe as tuas penas: pois Ele é amigo! Expande a tua generosidade: pois Ele é grande! Implora a sua misericórdia: pois Ele é bom! Envergonha-te das tuas misérias: pois Ele é puro!

Fala-lhe da vida dele, de outrora, de seus trabalhos, de seus ensinos, de seus sofrimentos... Fala-lhe daqueles que o amaram e o amam ainda hoje: Ele se sentirá consolado em seu abandono.

Sai, depois, um instante, em espírito, do estreito espaço e contempla este grande Deus, atravessa o espaço e contempla-O o no céu. Oh! Como Ele é belo, grande, feliz... Alegra-te de tanta grandeza, e das adorações que envolvem o seu trono na glória.

Lembra-te que o teu lugar é ali com estes anjos; perto dele... E que Ele te fita com o seu olhar amoroso. Não é assim que fazem os amigos na terra?

O ENCONTRO DE JESUS

E como encontrar Jesus? Pela Sagrada Comunhão. Amanhã este altar solitário se tornará um Calvário. O sacrifício real se efetuará, e Jesus abrirá de novo as fontes das suas sagradas chagas, para comunicar as suas graças às almas que dela se aproximarem.

Quando uma alma piedosa se aproxima do tabernáculo, para adorar o divino hóspede, Jesus fica-lhe sorrindo ternamente; mas quando esta alma se aproxima da Mesa da Comunhão, o divino menino, velado pelas aparências da hóstia, estende os bracinhos ao que vai recebê-Lo.

Que alegria para Ele, quando chega o momento da Comunhão, quando ouve ranger a chave do tabernáculo; quando a sua prisão se abre!  Não pode conter-se.

O sacerdote não se apressa bastante, e às vezes a hóstia sagrada escapa das suas mãos e voa até os lábios do comungaste: Jesus tem fome de ser comido: tomai e comei, este é o meu corpo!

O fim da Eucaristia é alimentar. Ora, alimentar é dar mais vida. Recebendo mais vida temos mais ser, e na medida que cresce nosso ser espiritual, Deus se estende nele mais largamente, ampara-se nele mais fortemente, e une-se com ele mais intimamente.

Pela Sagrada Comunhão recebemos realmente o corpo de Jesus Cristo, porém o que assimilamos é qualquer coisa da sua vida divinizada. Digamos melhor: é esta própria vida que se apodera de nós, como o oceano se apodera de uma gota d’água caída em sua imensidade, incorpora-a, absorve-a; somos como absorvidos pela divindade.

Como são sublimes estas coisas: procurar e encontrar Jesus - é unir-se com Ele.

O evangelho nos indica a aflição com que Maria e José procuravam Jesus perdido. Esta aflição deve ser a nossa por termos vividos tantos anos, sem bem compreendermos a desgraça de termos perdido este Jesus, e sem tê-Lo procurado onde Ele está: em seu tabernáculo de amor.

O mesmo evangelho indica a alegria sobrehumana dos santos esposos, ao encontrarem o seu tesouro no templo.

Possamos, como eles, encontrar muitas vezes este mesmo Jesus, no fundo deste tabernáculo, donde Ele quer sair para encontrar nossos corações; para tomar posse da nossa alma, uní-La a sua natureza divina, transformá-la pela sua graça para que seja um só com Ele - Tu em nós e nós em ti! Para que esta união, começada aqui nas trevas, no exílio, possa estender-se até a glória da pátria celeste.

Pe. Júlio Maria De Lombaerde
Comentário Eucarístico do Evangelho Dominical, p. 75-82
In Mistagogia Eucarística do Pe. Júlio Maria, p. 27-31