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terça-feira, 17 de maio de 2011

O Ideal Sacramentino do Pe. Júlio Maria



Por Matheus R. Garbazza Andrade

O Pe. Júlio Maria De Lombaerde, missionário fundador do jornal O Lutador e da Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora, foi, sem dúvidas, um santo que marcou o seu tempo. Foi um homem profundamente entusiasmado com o que fazia. E o podemos dizer com segurança, porque o que lhe movia era um ideal altíssimo: era um ideal divino. 

Aspirava com todas as forças do seu coração salvar as pessoas para Cristo, atraindo-as aos pés de Jesus Eucarístico pela materna intercessão de Maria Santíssima, a quem chamava e ensinava a chamar de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. 

No dia 13 de maio comemoramos a cada ano – com renovada piedade e confiança – a festa da Matrona da Congregação. É o dia do missionário sacramentino. Mais que uma data de festa, é uma ocasião propícia para mergulhar novamente na fonte do ideal do Pe. Júlio Maria. 

Seu intuito originário era de formar missionários para estender ao povo a vida sacramental, especialmente nos lugares mais carentes de sacerdotes. Missionários para “fazer comungar e comungar melhor”, sintetiza Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn. 

O experimentado missionário, nos dezesseis anos que esteve à frente da Congregação que fundara, conseguiu entusiasmar numerosos jovens a aderirem ao seu projeto. E quando pensamos nas dificuldades e na pobreza que reinavam nos inícios do recém-fundado instituto, ficamos ainda mais admirados com a sua coragem e sua capacidade de cativar. 

Nos primeiros anos, nem havia ainda uma boa casa para acolher os seminaristas. A alimentação era suficiente, mas austera. O trabalho era muito e pouco o tempo para as coisas meramente agradáveis. O Pe. Júlio Maria era muito rígido com os estudos: queria que seus missionários fossem sábios, e não ‘moluscos’, como ele costumava brincar.  

Entretanto, em pouco tempo a casa já estava cheia. Vinham jovens de todos os lugares, comporem as fileiras da Virgem Santíssima, sob a batuta do Fundador, para levar ao mundo a Palavra de Deus. Todos os domingos, o bom sacerdote pronunciava uma conferência sobre temas espirituais para seus seminaristas. E era ouvido e atendido com obediência e devoção. 

E era admirado porque, antes de todos os outros, era ele o primeiro observante da regra da casa. Acordava antes de todos, trabalhava mais. Era quem dava o exemplo a ser seguido. Não dizia palavras frias, mas toda a sua vida foi conformada a Deus, a fim de levar adiante a grade obra da qual Nosso Senhor o havia incumbido. 

Passaram-se 82 anos desde a fundação da Congregação. Já são 67 anos da passagem do Pe. Júlio Maria para a casa do Pai. Que houve com seu ideal? Terá, acaso, se esfriado? Ou até mesmo se apagado? 

Não! 

Hoje, o carisma sacramentino, confiado por Deus ao Pe. Júlio Maria e, através dele, à sua Congregação missionária, continua muito vivo e atuante na Igreja. Ainda hoje, são muitos os que são contagiados pelo ideal eucarístico-missionário-mariano. 

Nas paróquias em que atuam os missionários sacramentinos, lá estão os grupos de jovens que, atentos à Palavra de Deus, se reúnem e são animados para levar adiante a mensagem do Evangleho. Nos Centros de Formação mantidos pela Congregação (que são verdadeiros pólos de ação eucarístico-social), numerosos jovens recebem a oportunidade de se capacitarem melhor para exercerem uma função na sociedade. 

E, nas casas de formação da Congregação, lá estão dos jovens que decidiram se entregar completamente ao Reino de Deus. Que desejam consagrar suas vidas ao ideal da Vida Religiosa e, mais especificamente, à vida sacramentina. Que querem seguir os passos ao mesmo tempo místicos e missionários de seu santo Fundador. Jovens que querem levar adiante a missão de “eucaristizar o mundo do jeito de Maria”. 

Neste 13 de maio, só podemos agradecer a Deus pelo grande dom para a Igreja que foi a pessoa do Pe. Júlio Maria De Lombaerde. Agradecer-lhe pela Congregação dos Missionários Sacramentinos. E pedir-lhe que esse ideal possa continuar contagiando as pessoas, para que Jesus reine. Amém!

Fonte: Jornal O Lutador, ed. de 11 a 20 de maio de 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

13 de maio: Solenidade de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento

Hoje, dia 13 de maio, comemoramos a Solenidade de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, padroeira principal da Congregação dos Missionários de Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento. Nesta data, os regionais da Congregação espalhados pelo Brasil todo comemoram, em comum, esta festa. Afinal, hoje é o dia do Missionário Sacramentino.

Nossa Senhora da Eucaristia,
 somos ingratos, cegos talvez,
Mas nossas almas, estamos certos, 
que aos pés de Cristo, as levareis!



Aos missionários e irmãs sacramentinos(as), bem como a todo o povo de Deus que partilha da nossa espiritualidade, seja em nossas paróquias, colégios, hospitais, rádios, editoras, etc., o nosso FELIZ DIA DE NOSSA SENHORA DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO!!!

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Maria Santíssima e o Tabernáculo


Último dia do tríduo preparatório para a festa de Nossa Senhora do santíssimo Sacramento – que é também o dia do missionário sacramentino. Pe. Júlio Maria De Lombaerde fazia questão de solenizar essas comemorações.

Hoje, segundo o número 23 do Diretório da Congregação dos Missionários Sacramentinos, “far-se-á uma penitência, determinada pela comunidade”.

Nesse espírito de preparação, publicamos um texto do Fundador, em que ele aprofunda mais a sua teologia sacramentina. Os negritos são nossos.

*

O Anjo da noite baixou à terra. Devagar, num gesto majestoso, desdobrava por sobre os montes e vales o longo manto escuro, qual um lençol fúnebre. E após ele descia, ainda mais grave e mais majestoso, o anjo do sono. Passava... semeando a mãos cheias este reconfortante da vida. Pouco a pouco fez uma calma completa: as luzes deixaram de cintilar nos salões dos ricos como nas choupanas do pobre. O silêncio era absoluto. Através das vidraças envelhecidas de uma igreja cintilava uma pequena luz, raio quase imperceptível a indicar que alguém vigiava.

Entremos, pois a porta ficou aberta.

Tudo está escuro. Lá em cima, uma pequena lâmpada encarnada projeta uma luz quase misteriosa, iluminando a fronte de uma estátua, colocada perto do Tabernáculo.

No meio do silêncio, uma voz suave e melodiosa, qual um concerto do céu, cristalino, qual voz de criança, fez-se ouvir e murmurou:

- Estou velando!

E tudo recai no silêncio. Mas, decorridos apenas uns instantes, uma outra voz responde em tom de amor.

Ecce ancilla Domini! Eis a serva do Senhor!

É a voz da Santíssima Virgem. Aí está, em cima do seu trono, perto do Tabernáculo, para consolar a solidão de Jesus, como a consolava antes em Belém, em Nazareth, no Egito.

Oh! não Jesus nunca está só. Perto de si tem sua Mãe. No Tabernáculo, como no presépio, sorri-nos dos braços de Maria Santíssima.

A Igreja, que tão eminentemente possui a intuição das cousas divinas, o compreende; e é por isso que, perto do Tabernáculo, coloca uma imagem da Virgem Imaculada.

Muitas vezes a imagem de Maria Santíssima domina o altar e aí, do alto de seu trono, a Mãe vela ainda sobre o filho, assim como do fundo do Tabernáculo, Jesus nos diz ainda:

Ecce Mater tua! Eis aqui a Vossa Mãe!

Suave pensamento aquele: Aproximando-me do Tabernáculo, ali encontro Maria Santíssima; e é ela que me dá Jesus.

Quando bato à porta do Tabernáculo e grito: JESUS! JESUS! é Maria Santíssima que me vem receber, abre a porta e me diz: “O meu Jesus, ei-lo aqui!”

A Santa Igreja aprovou esta profunda e tocante invocação “Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, rogai por nós!” Já aprovara esta outra: “Nossa Senhora do Sagrado Coração, rogai por nós!”

Cotejemos estas invocações: “O Coração de Jesus está no Tabernáculo: é o Coração Eucarístico de Jesus. A Santíssima Virgem é pois também  - Nossa Senhora do Sagrado Coração: rogai por nós!”

É a reunião de tudo o que, na religião, há de mais nobre, mais sublime e mais consolador!

O Coração de Jesus,

A Sagrada Eucaristia,

A Virgem Maria!

Notai como a Virgem Santa se acha unida a tudo o que há de mais adorável na religião! Assim como no “Credo” seu nome está ao lado dos nomes divinos do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

A Santa Igreja há de, sem dúvida adotar um dia, esta bela invocação: “Nossa Senhora do Coração Eucarístico de Jesus, rogai por nós!”

Almas amantes da Imaculada, continuemos a nos unir à Maria, a viver perto de Maria, a amar Jesus por Maria. Apertemos cada vez mais, os laços que nos unem a esta Virgem bendita para que ela aperte os laços que nos unem ao Coração Eucarístico do Senhor.

Fortifique-se em nós o seu amor, tornando-nos apóstolos de seu Coração.

Oxalá este amor nos transforme e nos faça mais semelhantes à Hóstia do Tabernáculo!

Ele é branco: sejamos puros;

Ele está escondido: sejamos humildes;

Ele se deixa fazer: sejamos obedientes;

Ele é imolado, sejamos mortificados.

Estas virtudes são a grande preparação dos Corações eucarísticos, amantes e famintos do pão dos anjos. E a Santíssima Virgem no-las ensina tão suavemente pelo exemplo e pelas palavras.

Oh! sim, cada vez que nos aproximamos de Jesus Hóstia, cada vez que a sua divindade e humildade veladas repousam no nosso coração pela Sagrada Comunhão, roguemos a Jesus que nos transforme em Maria, que faça de nós “outra Maria”, para que possa achar em  nosso coração as suas complacências, como as achou no coração de sua divina Mãe.

Oh! Mãe querida, abri-nos o Coração de Jesus.

Conduzi-nos ao Tabernáculo.

Mas sempre ficai perto de nós, como ficais perto de Jesus.

Sede verdadeiramente para nós: Nossa Senhora do Coração Eucarístico de Jesus.



Pe. Júlio Maria De Lombaerde, Voz de Nazareth, nº 96 - dezembro de 1920.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Levar em si Maria


Dando continuidade ao tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, neste segundo dia publicamos mais um belo texto do Fundador. É mais uma gota de sua espiritualidade eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento


Era ainda muito cedo. Abrindo um livro piedoso, que uma pessoa distraída –talvez voluntariamente – deixara na sala de visitas, encontrei estas linhas, tão curtas e tão cheias de sentido e de vida sobrenatural.

Leva em ti Maria;
Em redor de ti irradie Maria;
Dá a todos Maria!

Não sei o que se passou em minha alma, no meu coração, em todo o meu ser.

Depositei o livro; uma lágrima, - perdoem-me esta sensibilidade – uma lágrima ardente queimou-me as pálpebras e as faces... E escondendo a cabeça nas mãos, afastei-me sem demora: Mas, durante todo o dia, ia repetindo:

Ó Maria!
Deixa-me levar-te em Mim;
Deixa-me irradiar-te, em redor de mim;
Deixa-me dar-te a todos;
Que se aproximam de mim!

Oh! querida alma, nós que almejamos amar ardentemente nossa terna Mãe, repitamos muitas vezes durante o dia esta pequena oração, tão curta, tão penetrante e decerto, tão agradável a Maria.

Levar em si Maria, é não possuir todas as virtudes de Maria, mas trabalhar para adquiri-las.

É imitar a criança a quem se dá uma santinha: aperta-a sobre o coração, beija-a com efusão e depois a leva para sua mãe, com cuidado, receosa que se amarrote.

Não podemos, de certo, receber o corpo de Maria Ssma. como recebemos o corpo de Jesus Cristo, mas, na sagrada comunhão, recebendo a Jesus Cristo, não é verdade que recebemos um pouco de Maria? Qualquer coisa de Maria? Este divino alimento de nossa alma, não é ele formado do sangue de Maria? Caro Christi, caro Mariae, diz Sto. Agostinho.

Levando em nós a Jesus, levamos, pois, a Maria. Jesus e Maria são inseparáveis. Não procureis em outro lugar o divino Filho da Virgem, senão nos braços de sua mãe; é lá o lugar d’Ele, o seu trono, o seu céu.

Levar em si Maria, é pois aproximar-se muitas vezes e com devoção da Sagrada Mesa Eucarística; e durante o dia lembrar-se o mais possível deste ato solene.

É unir-se a Maria, - e com ela adorar a Jesus, - trabalhar para Jesus, numa palavra, é viver com ela da doce vida de intimidade.

Ó Maria, deixa-me levar-te em mim!

Irradiar Maria, em redor de si, é possuir algumas das virtudes de Maria, tão doces, tão atraentes, tão praticáveis para todos.

Na contrariedade e na provação; é ficar calmo e paciente.

No abatimento: é conservar-se amável e sorridente.

No aborrecimento: é apresentar-se prestável e manso.

Para todos que nos cercam, é ter pronto:

- este sorriso dos lábios, que atrai;
- esta palavra de coração, que dilata;
- este gesto de benevolência, que acalma e anima;
- esta conversação, que eleva, sobrenaturaliza e faz dizer:

            Oh! como ele é bom!

Tem-se dito de Maria Santíssima que ela era o ostensório de Jesus!

Possam dizer de nós que somos o ostensório de Maria.

O ostensório serve para conter, mostrar e fazer resplandecer a Jesus escondido, escondido na Sagrada Eucaristia. O esforço de uma alma devota da Santíssima Virgem deve ser de conter, de mostrar e de fazer resplandecer a Virgem Santa, pela imitação de suas virtudes.

Ó Maria, deixa-me irradiar-te em redor de mim!

Dar Maria a todos que se aproximam de si. Oh! certo, não é dizer-lhes: eu venho dar-te Maria, mas é ter simplesmente o desejo e a vontade firmes e atuais de fazer amar a Virgem Santa.

Nunca saias de casa, nunca faças uma visita sem dizer esta pequena oração:

“Minha querida Mãe, vem e vive em mim!”

Talvez que não o saibam, mas em hora oportuna, a Mãe de Jesus servir-se-á de ti, agirá por ti, dar-se-á por ti.

Tu darás Maria a todos, que te cercam, às vezes sem sabê-lo e sem os outros conhecê-lo.

Passarás, como Jesus, fazendo o bem, fazendo amar a Virgem Imaculada.

E como Maria também amar-te-á! Como ela te conduzirá a Jesus!

Tu deste Maria aos homens; Maria te dará a Jesus!


Pe. Júlio Maria De Lombaerde, Voz de Nazareth, nº 67 - julho de 1918.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Porta do Céu


Publicamos hoje, no primeiro dia do tríduo a Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento, esse belíssimo texto da pena do Revmo. Pe. Júlio Maria. Os grifos são nossos. É um texto antigo, e há que se considerar o contexto filosófico-histórico do autor. Mesmo assim, é uma das mais belas páginas da teologia eucarístico-mariana.

***


Nossa Senhora do Santíssimo Sacramento,
na capela do Seminário Apostólico de Manhumirim-MG
A Igreja incluiu nas ladainhas da Santíssima Virgem esta significativa invocação:

Maria, porta do céu, rogai por nós!

Poucos talvez, compreendem o alcance destas palavras.

Maria é a porta do céu. Não se entra numa casa senão pela porta.

É-nos impossível entrar no céu sem que passemos pela porta que Deus mesmo aí colocou... e esta porta é a Virgem Imaculada.

Se o céu é um lugar de delícias, é porque nele a alma possui a Jesus Cristo Nosso Senhor, de tal maneira que possa dizer que “o céu é Jesus Cristo!”

A porta do céu, a porta do coração de Jesus é Maria, é impossível nele entrar sem passar por Maria.

“Possuerunt me custodem” (Cant 1, 5). “Colocaram-me qual guarda”, nos diz ela mesma.

E ainda “In me gratia omnis viae”. Em mim se acha a graça do caminho que se deve seguir. Donde a conclusão rigorosa que o Espírito Santo coloca ainda sobre os lábios da Virgem. “Aqueles que me acham, acham a Vida eterna”. Qui me inuenerit, inveniet vitam”. (Prov. VIII, 35).

Tais trechos da Sagrada Escritura são a confirmação desta invocação, que os resume “Porta do Céu”. Maria Santíssima é a guarda, a porta da vida eterna.

O céu é a posse de Deus, de seu amor, de sua glória, posse até de qualquer coisa de sua eternidade, na medida que esta pode ser o apanágio da criatura, eternidade que tem um princípio, mas que jamais findará.

E a porta desta posse é sempre a Virgem! É por Ela que tudo há de passar.

O céu é a “contemplação de Deus, face a face”, tal qual é, contemplação de sua grandeza, de seu poder, de seu amor, e, sobretudo, de todos os seus divinos atributos.

E a porta desta visão é Maria... Sem ela é impossível gozar desta bem-aventurança.

O céu é a “manifestação” da glória de Deus. Aqui na terra esta divina glória é desconhecida, desprezada às vezes, só aparece parcialmente e por intervalos. Lá em cima manifestar-se-á em todo o seu esplendor, em toda sua extensão, sem sombras.

Esta glória nos cercará, nos penetrará, nos elevará e nos tornará partícipes da glória de Deus.

Mas a porta desta glória é sempre, é unicamente Maria; é por Ela, pois que devemos alcançá-la.

Oh! sim como tem razão os santos a repetirem sempre: “Tudo por Maria”, “nada sem Maria!”

Tudo, de fato, nos vem por intermédio da Virgem. tudo que nos vem do céu; graças, auxílios, luz, consolação, força, amor.

E tudo que sobe ao céu: orações, sacrifícios, virtudes, tudo passa também pela “porta”, pelas mãos de Maria.

Penetremos bem o significado desta invocação: Maria, porta do céu, rogai por nós!

Mas não há somente o Céu do Céu, se assim posso dizer, isto é, Jesus Cristo, glorificado no céu, há também o Cristo oculto no Tabernáculo.

Porta do primeiro céu, Maria Santíssima é também porta do segundo, sendo que este difere somente daquele, porque o primeiro é “glorioso” ao passo que o segundo é “escondido”. Dizendo que Maria Santíssima é a porta do Tabernáculo, quero dizer que para chegar a Jesus Hóstia, é preciso ainda passar por Maria “possuerunt me custodem”. E para que Jesus Sacramentado desça até nós, com suas bênçãos e graças, é mister sair pela porta que é Maria.

A vontade de Deus, diz São Bernardo, é que recebamos tudo das mãos de Maria.

Oh! suave pensamento que nos indica as relações tão reais e tocantes da Sagrada Eucaristia com Maria.

Jesus Cristo está verdadeiramente no seu Sacramento de amor. Aí fica escondido na pequena hóstia, atrás da porta visível do Tabernáculo, do mesmo modo que esconde a glória e o amor, atrás da outra porta – invisível aquela – que se chama a Mãe de Deus.

Pode-se dizer que Maria Santíssima está presente na Sagrada Eucaristia?

Por si mesma, não! mas está presente por Jesus de um modo inefável, pois se trata de uma verdade acima de nossa compreensão.

Para explicar a união Jesus e Maria, será insuficiente a comparação das relações que unem mãe e filho, visto existir aí intimidade superior ao nosso entendimento.

Digamos somente que Jesus é, e sempre fica como ele mesmo o disse “filho do homem”.

Aí está o seu título próprio “Filius hominis” Filho do homem... então Filho de Maria Santíssima.

A Sagrada Eucaristia é a continuação da Encarnação. Pois a Encarnação é Maria dando ao filho de Deus a vida humana.

A Eucaristia é ainda Maria gerando, Deus à vida escondida do Tabernáculo.

Do mesmo modo que o primeiro mistério se cumpriu por Maria, assim o segundo, prolongamento do primeiro, deve operar-se por Maria. Jesus nascendo em Belém, nasce de Maria Santíssima.

Jesus, nascendo sobre o altar, entre as mãos e em virtude das palavras do sacerdote, nasce ainda de Maria.

Precisamos perguntar então se Maria está presente nesse mistério e qual é o seu papel.

O papel da Santíssima Vigem é introduzir Jesus Cristo no mundo, como também de conduzir as almas aos pés de Jesus.

Essa grande verdade está sendo atualmente estudada pelos teólogos, que ainda não deram uma fórmula certa e teológica ao mistério. Tal falta nos obriga a uma certa reserva na expressão; entretanto, os corações eucarísticos e amantes descobrirão neste pouco um horizonte novo de amor ao divino hóspede do Tabernáculo.

Oh! Maria, porta do Céu, rogai por nós!

Compreendeis, agora, almas piedosas, o alcance da vida de intimidade com a Mãe de Jesus.

Se viverdes perto, esta “porta divina” abrir-se-á diante de vós. “Beatus homo... qui vigilat ad fores meãs quotide” (Prov VIII) Oh! sim, bem aventurado, diz o Espírito Santo, quem vela todos os dias à porta do céu!

Na terra, por Maria, ireis a Jesus Sacramentado, e Jesus descerá até vós.

Rematará lá em cima a vida de intimidade com sua divina Mãe, pela posse de si mesmo; pois lá ainda na glória é e sempre fica, o Filho de Maria Santíssima, a flor brotada da virgindade perpetua de Maria, nutrida pela humildade e pelo amor da Virgem-Mãe.

Oh! sim! ficai sempre perto de Maria, e que seja ela a porta pela qual desce a vós, e pela qual haveis de ao céu subir.

Maria , Porta do Céu, rogai por nós!

Pe. Júlio Maria De Lombaerde. In Voz de Nazareth, nº 83: novembro de 1919.