sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Segredo da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria [II]

III. A Santa Escravidão

Precisamos de todos estes títulos, por serem a expressão das necessidades dos cristãos; mas precisamos sobretudo daqueles títulos, que nos estimulem na luta contra os inimigos da alma.

Hoje em dia um sopro de sensualidade e de independência perpassa pelo mundo, ameaçando fazer ruir tudo, desde as instituições seculares, nacionais e universais, até as virtudes do mésticas e pessoais mais sagradas.

Perante este vendaval de revolta e lamaçal de impureza precisamos de uma devoção a Maria Santíssima, que é pureza ideal e submissão perfeita; precisamos de um meio que nos arranque às seduções da independência e da carne.

Devoção assim parece ser a que nos legou o grande coração e o zelo intrépido de São Luís Maria Grignion de Montfort, que a intitulou: “Santa Escravidão”.

A escravidão é um estado de rebaixamento da dignidade humana. A palavra Santa, porém, corrige a dureza do nome, elevando o estado às alturas da virtude sublime, que chamamos a sujeição total de nós mesmos a Deus, ou abnegação.

É esta dependência total, que forma a base de toda a perfeição e que o santo indica como segredo de santificação.

Tal devoção, diz ele, é um segredo que relativamente poucas pessoas hão de descobrir, e que de fato poucos descobrem, porque somente um pequeno número tem a coragem de pôr em prática a doutrina em que ela é baseada.

IV. O segredo

O motivo desta incompreensão é o seguinte:

Em geral as pessoas piedosas consideram a devoção a Virgem Santíssima como exclusivamente afetiva, tendo só em vista as consolações que dispensa.

O espírito encontra na Mãe de Jesus tantas perfeições e belezas, tantas grandezas e tanto amor, que a imaginação fica como deslumbrada...

O entusiasmo apodera-se da nossa alma, nos faz exaltar as suas grandezas e cantar suas glórias, ao ponto de nos fazer esquecer que “o resumo da religião consiste em imitar o que honramos”, como diz Santo Agostinho.

É uma devoção incompleta, falta-lhe a prática.

São Luís Maria Grignion de Montfort, querendo estabelecer uma devoção efetiva, e não somente afetiva, não receia empregar um termo duro para nossos ouvidos comodistas, mas que exprime a verdade salientada: a Santa Escravidão de Jesus em Maria.

A Santa Escravidão não consiste em palavras e afetos, mas na abnegação de nós mesmos, na dependência da vida, da vontade e dos sentidos, em outros termos: na prática decidida da virtude.

Assim considerada, a Santa Escravidão é um verdadeiro exercício de perfeição, e, como diz São Luís Maria Grignion de Montfort, uma Verdadeira Devoção.

Os sentimentalistas nada compreenderão da exposição deste segredo. Para eles tudo será e ficará um segredo.

Só quem puser as mãos à obra e procurar assimilar o espírito desta devoção e reduzi-lo à prática terá a felicidade de descobrir o segredo, de aproveitá-lo para a sua santificação.

V. Apresentação

O presente livro é um comentário da doutrina exposta por São Luís Maria Grignion de Montfort em seu livro: “Tratado da Verdadeira Devoção”.

Procuramos explanar, esclarecer e, aplicar seus ensinamentos, onde o julgamos oportuno, para melhor destacar sua importância e prática.

Almas queridas da Santíssima Virgem, que sentis necessidade de amar sempre mais esta Mãe querida e por Ela a Jesus, é para vós que este livro foi feito.

Almas frívolas nada compreenderão da doutrina e das práticas aqui expostas. Para estas tudo isso será um enigma.

Para as almas piedosas será um tesouro, onde encontrarão riquezas para si próprias e luz para o coração.

Todo este livro não é mais que a explicação da obra de São Luís Maria Grignion de Montfort.

Esta obra, que já levou tantas almas aos pés da Virgem Imaculada, continuará, por nosso intermédio, o seu fecundo apostolado.

É apoiado sobre ela e escondido sob sua sombra que nosso livro irá mais confiante às almas piedosas, e lhes falará com mais penetração e autoridade.

domingo, 30 de janeiro de 2011

[Comentários Apologéticos] O Deus Criador

Festa do Natal (Segundo a forma extraordinária do Rito Romano)

Evangelho: Jo 1, 1-14

1. No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.

2. Ele estava no princípio junto de Deus.

3. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.

4. Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.

5. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

6. Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.

7. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.

8. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

9. [O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.

10. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.

11. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.

12. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus,

13. os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

14. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.

Comentário Apologético

O Evangelho da 3ª Missa é o grandioso e sublime início do Evangelho de São João.

Num vôo de águia celeste, João penetra a eternidade, e ali contempla o Verbo de Deus, dizendo que por Ele tudo foi feito, e que é Ele o Deus Criador de tudo o que existe.

Depois desce num relance, da luz suprema da glória, até as trevas deste mundo, e inclinando-se sobre o presépio onde está sentada uma criancinha, o Evangelista exclama: O Verbo se fez carne e habitou entre nós.

Isto é: O Criador de tudo o que existe, está ali deitado, numa gruta, feito homem.

Contemplemos hoje este sublime assunto, em continuação da existência de Deus, que já provamos. Vejamos:

1º que Deus é Criador;

2º É o governador de tudo.

I – Deus é o Criador

A palavra Criador, aplicada a Deus, significa que Deus, por um efeito da sua onipotência, fez existir o que não existia: o firmamento com seus astros luminosos, a terra com suas produções, numa palavra: o universo.

O artista faz uma estátua de um bloco de mármore, porém, nunca fará uma estátua de mármore, sem mármore.

O homem apenas modifica, arranja; somente Deus pode criar.

O mundo não é eterno: isso salta aos olhos ao primeiro aspecto.

O que é eterno é necessariamente: imutável, necessário e independente.

Ora, nenhum desses atributos convém ao mundo.

Vemos que o universo está em mudança contínua, pela forma e pelas qualidades, enquanto a essência do ser eterno é ser sempre o que é, sem se poder mudar, aumentar ou diminuir. O eterno é sempre o que é.

O universo não é necessário, pois um ser necessário não pode ser concebido como não existente.

Ora, concebemos perfeitamente a não existência do universo, enquanto não se pode conceber a existência de um primeiro ser, princípio e causa de tudo.

Logo, o universo teve princípio, foi criado.

Um ser necessário deve ser independente, isto é, deve possuir em si mesmo e por si mesmo tudo o que lhe é necessário, não recebendo nada de inguém, nem precisando de ninguém, e continuando a existir, mesmo se fora dele nada mais existisse.

Ora, o universo não tem essa independência absoluta. Podemos conceber a idéia do seu aniquilamento. Logo, não é necessário: foi criado.

E o Criador de tudo o que existe fora dele, é Deus.

Só Deus é o Criador. Ele é também o Senhor de tudo o que existe, pois Deus devia, criando, propôr-se um fim digno de si:

Este fim é a sua própria glória, como fim principal; e a felicidade dos seres racionais, como fim secundário.

II – O Deus Governador

Não somente Deus Criou, mas governa tudo; e este governo chama-se: a Providência.

Que se diria de um artista que, tendo criado uma obra prima de pintura ou de escultura, ficasse completamente indiferente para com ela, recusando a ocupar-se dela, não tomando as precauções para que não fosse destruída?

Que se diria de um roceiro, que compresse um terreno fértil, e depois o abandonasse sem cultura?

Seria ambos insensatos.

Deus é nosso criador; nós somos a sua propriedade, o seu bem.

Sendo Deus sapientíssimo, não pode desinteressar-se de nós, que somos a sua obra.

Na terra, muitos homens desejam ocupar-se mais das coisas de que estão encarregados, porém não o podem por fata de tempo, de força, etc.

Para Deus tal obstáculo não existe.

Ele vê tudo: logo, está a par de tudo.

Ele é infinitamente bom: logo, quer prover nas nossas necessidades.

Ele é todo-poderoso: logo, pode valer-nos.

Todas as perfeições de Deus exigem que se ocupe de nós, que não nos abandone, depois de nos ter criado, mas preveja as nossas necessidades e proveja a tudo.

Prever e prover; é da união destas duas palavras que vem o belo nome de Providência – providere.

Deus é ainda infinitamente justo.

Ora, a justiça exige que o bem seja recompensado e que o mal seja castigado: último motivo porque Deus não deixa a humanidade correr sem amparo, mas se faz o seu Governador, Excitador e Moderador, antes de ser o seu Juiz Supremo.

III – Conclusão

A Providência de Deus é, pois, Deus conservando e governando o mundo por ele criado, e conduzindo todos os seres ao fim que Ele, na sua sabedoria, predeterminou.

Não é propriamente um atributo divino, desde que implica a criação, mas é antes: o conjunto dos atributos de Deus: ciência, sabedoria, poder, bondade, justiça, aplicados à regência do universo.

Não objetem a existência do mal neste mundo. Sim, o mal existe, e deve existir.

Há o mal moral, ou o pecado. Deus não o quer, mas deve permití-lo, porque criou o homem livre, e o homem, a menos se deixar de ser livr, pode abusar desta liberdade e cometer o mal moral. Não pode ser imputado a Deus, mas unicamente a nós.

Há o mal psíquico. É também inevitável, porque Deus criou o homem mortal. Ora, todo ser mortal, tende à decomposição... gasta-se, estraga-se, debilita-se. Ora, se tal debilitação, tal estrago causa, necessariamente, o sofrimento. É uma condição de nossa vida.

Há desigualdades sociais, e deve haver. Pois, como deveria haver ricos, se não houvesse pobres? Como poderia haver grandes, se não houvesse pequenos? Como poderia haver montanhas, se não houvessem vales?

Deus deve permitir tudo isso; mas sabe tirar o bem do mal. São meios se expiação e de merecimento para conquistarmos a felicidade eterna.

EXEMPLOS:

  1. No leme

Num navio, no meio de horrível de horrível tempestade, os passageiros lançavam brados de aflição: só um menino de 12 anos permanecia calmo. Como todos ficassem admirados:

-Nada tenho a recear, disse ele, é meu pai que está no leme.

Porque temer? É o bom Deus qe tem nas mãos o leme desse mundo. Confiemos-lhe também o leme da nossa alma, e Ele nos fará alcançar o céu.

  1. Apólogo de Tolstoï

Ouvem-se bastantes vezes murmúrios contra a Providência de Deus. Provém geralmente da falta de reflexão, de não compreendermos o que Deus nos outorgou, e de vermos apenas o que nos falta.

Tolstoï tem este expressivo apólogo a respeito:

“Um homem, descontente da sua sorte, queixava-se de Deus.

-Deus, disse ele, dá as riquezas aos outros e a mim não dá nada! Como posso iniciar a minha vida, não tenho nada?

Um ancião ouviu estas queixas.

-És tu tão pobre como pensas? -respondeu- Deus não te dá saúde e força?

-Não, digo que não, e ufano-me da minha saúde e força.

- Queres deixar cortar a tua mão direita por um conto de réis?

-Ah! Isso nunca! Nem por dez contos!

-E a mão esquerda?

-Nem esta!

-E os pés?

-Deus me livre! Por dinheiro nenhum!

-Olha, ajuntou o ancião, que fortuna Deus te Deu, e estás te queixando!”

  1. A Lua

A torto e a direito, os homens reclamam contra a Providência de Deus.

É pena não terem estado presentes quando Deus criou as coisas. O verão é qiente demais, o inverno tem um frio insuportável... É um capítulo que convém não começar, pois não acabaríamos.

Lembro-me de ter lido outrora num jornal esta palavra espirituosa de um bebê de 3 anos de idade. O bebê estava com a mamãe, no jardim da casa, ao cair da noite, para colher umas flores. A lua estava no quarto crescente. O bebê olhou espantado e disse à sua mãe: “mamãe, olhe lá em cima! O bom Deus não teve tempo hoje de acabar a lua”.

“Nós somos homens, mas falamos às vezes como bebês. Quantas luas encontramos que o bom Deus não teve tempo de acabar.”

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Encontro Eucarístico

(Meditação do Evangelho segundo Lucas, 2,42-52)

DSCN7326É uma cena encantadora que o Evangelho nos apresenta, cena da união íntima e amorosa que une os três membros desta família divino-humana, composta por Jesus, Maria e José.

Todos haviam ido à Jerusalém para assistir à festa da páscoa. Voltaram para Nazaré, eis que Maria Santíssima, indo com as demais mulheres, e José no grupo dos homens, ao se encontrarem no fim da primeira jornada, verificaram a ausência do Menino Jesus, que não se achava em nenhum dos grupos.

Voltaram pressurosos e tristes para Jerusalém, à procura de Jesus, e eis que o encontraram no templo, no meio dos doutores da lei.

O lugar onde se encontra Jesus é o templo, é o sacrário bendito, onde Ele fixou sua morada, onde Ele reside, e onde quer ser procurado e pode ser encontrado. Ele está ali verdadeiramente presente, a espera dos que o procuram.

Sirva-nos de exemplo Maria Santíssima e São José. Primeiro na procura de Jesus e segundo no encontro de Jesus.

A PROCURA DE JESUS

E como devemos procurá-lo? Pela visita amorosa. Deus longínquo, cuja imagem não podemos delinear em nosso espírito, nos aparece em Jesus Eucarístico, perto e visível.

Jesus possui todas as aspirações da nossa natureza: Ele é homem; e todas as aspirações da Santidade: Ele é Deus.

Nele encontramos um Deus capaz de chorar, de sorrir, de abrir-nos os braços e de apertar-nos contra o seu coração.

Oh anjo, indicai-nos onde Ele está mais perto, mais visível... Para irmos até ele!

Olha acolá... Esta Igreja... Perto de ti... Ó alma: é ali tua morada! Tu o percebes de longe... Tu o encontras ao passar de frente. A qualquer hora tu podes visitá-lo: ali, os teus passos ecoarão no silêncio... Nenhuma voz importuna perturbará o teu colóquio com Ele! Uma pequena lâmpada, de luz tímida, tal uma estrelinha no céu, guiar-te-á e, na pobreza de um estreito tabernáculo, tu encontrarás Jesus.

Ele está aí, aquele que a Virgem santa carregava em seus braços maternos... Aquele que o Pai eterno conserva sentado a sua direita!

Ajoelha-te: pois Ele é Deus! Fala-lhe com teu coração: pois Ele é nosso irmão! Conta-lhe as tuas penas: pois Ele é amigo! Expande a tua generosidade: pois Ele é grande! Implora a sua misericórdia: pois Ele é bom! Envergonha-te das tuas misérias: pois Ele é puro!

Fala-lhe da vida dele, de outrora, de seus trabalhos, de seus ensinos, de seus sofrimentos... Fala-lhe daqueles que o amaram e o amam ainda hoje: Ele se sentirá consolado em seu abandono.

Sai, depois, um instante, em espírito, do estreito espaço e contempla este grande Deus, atravessa o espaço e contempla-O o no céu. Oh! Como Ele é belo, grande, feliz... Alegra-te de tanta grandeza, e das adorações que envolvem o seu trono na glória.

Lembra-te que o teu lugar é ali com estes anjos; perto dele... E que Ele te fita com o seu olhar amoroso. Não é assim que fazem os amigos na terra?

O ENCONTRO DE JESUS

E como encontrar Jesus? Pela Sagrada Comunhão. Amanhã este altar solitário se tornará um Calvário. O sacrifício real se efetuará, e Jesus abrirá de novo as fontes das suas sagradas chagas, para comunicar as suas graças às almas que dela se aproximarem.

Quando uma alma piedosa se aproxima do tabernáculo, para adorar o divino hóspede, Jesus fica-lhe sorrindo ternamente; mas quando esta alma se aproxima da Mesa da Comunhão, o divino menino, velado pelas aparências da hóstia, estende os bracinhos ao que vai recebê-Lo.

Que alegria para Ele, quando chega o momento da Comunhão, quando ouve ranger a chave do tabernáculo; quando a sua prisão se abre!  Não pode conter-se.

O sacerdote não se apressa bastante, e às vezes a hóstia sagrada escapa das suas mãos e voa até os lábios do comungaste: Jesus tem fome de ser comido: tomai e comei, este é o meu corpo!

O fim da Eucaristia é alimentar. Ora, alimentar é dar mais vida. Recebendo mais vida temos mais ser, e na medida que cresce nosso ser espiritual, Deus se estende nele mais largamente, ampara-se nele mais fortemente, e une-se com ele mais intimamente.

Pela Sagrada Comunhão recebemos realmente o corpo de Jesus Cristo, porém o que assimilamos é qualquer coisa da sua vida divinizada. Digamos melhor: é esta própria vida que se apodera de nós, como o oceano se apodera de uma gota d’água caída em sua imensidade, incorpora-a, absorve-a; somos como absorvidos pela divindade.

Como são sublimes estas coisas: procurar e encontrar Jesus - é unir-se com Ele.

O evangelho nos indica a aflição com que Maria e José procuravam Jesus perdido. Esta aflição deve ser a nossa por termos vividos tantos anos, sem bem compreendermos a desgraça de termos perdido este Jesus, e sem tê-Lo procurado onde Ele está: em seu tabernáculo de amor.

O mesmo evangelho indica a alegria sobrehumana dos santos esposos, ao encontrarem o seu tesouro no templo.

Possamos, como eles, encontrar muitas vezes este mesmo Jesus, no fundo deste tabernáculo, donde Ele quer sair para encontrar nossos corações; para tomar posse da nossa alma, uní-La a sua natureza divina, transformá-la pela sua graça para que seja um só com Ele - Tu em nós e nós em ti! Para que esta união, começada aqui nas trevas, no exílio, possa estender-se até a glória da pátria celeste.

Pe. Júlio Maria De Lombaerde
Comentário Eucarístico do Evangelho Dominical, p. 75-82
In Mistagogia Eucarística do Pe. Júlio Maria, p. 27-31

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Biografia do Padre Júlio Maria de Lombaerde

8 – Últimos Dias; Falecimento

Tanto trabalho e tanta dedicação marcaram suas Congregações assim como a população da paróquia. Mas, por outro lado, iam-lhe desgastando a saúde. Não era velho. Tinha apenas 66 anos. Estava longe de dar mostras de decrepitude. Entretanto, em 1944, começou a falar da morte próxima. Começou a preocupar-se com a sucessão. Resolveu ir preparando melhor aqueles que poderiam continuar sua obra. A Congregação, porém, era muito nova: tinha apenas 15 anos e começara do nada. De qualquer maneira, o Fundador dizia aos noviços antes do último retiro pregado à comunidade (de 11 a 19/12/1944): "Quero fazer um ano de preparação para a morte. Sinto que não irei muito longe." Fazia, então, freqüentemente, menção à morte e ao céu. Cinco dias antes de morrer, eram indescritíveis os carinhos paternais e a expansão com que tratava seus filhos espirituais.

No dia 24 de dezembro de 1944, domingo, celebrou a missa das 5h 30min na Matriz do Bom Jesus, Manhumirim, estimulando todos a uma fervorosa comunhão naquela noite do nascimento de Nosso Senhor. Lá pelas 7h, partiu de automóvel para a fazenda S. José, em Vargem Grande, propriedade que ele adquirira recentemente para ajudar na manutenção do Seminário. Viajaram com ele três Irmãs Sacramentinas que iam conhecer o local de uma futura residência e escola, para as crianças da Vargem Grande. Um dia dedicado ao trabalho pastoral e à preparação da nova casa das Irmãs.

À tarde, quando ia voltar para Manhumirim, o tempo chuvoso e a estrada de terra escorregadia não aconselhavam que fizessem a viagem. Ele, porém, achava que deveria ir, por ser véspera de Natal, e ele iria celebrar a missa da meia-noite. Saiu apesar do risco. Provavelmente não avaliasse o tamanho do perigo, porque não era motorista e andava muito pouco de carro. O motorista, por sua vez, era jovem e inexperiente e não teve coragem de enfrentar a ordem do Pe. Júlio Maria, que fez questão de descer a serra. Aconteceu o desastre, o carro capotou duas ou três vezes na ribanceira e o Pe. Júlio ficou preso entre a ferragem do automóvel e um tronco de árvore. Os outros passageiros e o chofer não sofreram praticamente nada, fisicamente.

Mas o padre não conseguiu libertar-se, e, comprimido, ia sendo sufocado, sem ar. Resistiu ainda algum tempo, pedindo que providenciassem alguém que o pudesse tirar dali: "Depressa, depressa, minha filha!" - dizia ele a uma das Irmãs. Mas o socorro veio tarde demais. E ele morreu, pronunciando estas palavras: "Meu Deus, meu Deus! Nossa Senhora do Carmo! Meu Deus!"

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Das devoções e de sua escolha

I. Devoções

A respeito das devoções, outra ilusão existe.

Pessoas há que atribuem a tal ou tal devoção um poder ex opere operato, isto é, uma virtude própria que sempre produz seu efeito, como uma determinada planta medicinal tem sua eficácia especial.

A devoção não é isto; é uma disposição da alma, que nos leva a dedicar-nos ao serviço de Deus, pelo cumprimento do nosso dever.

A devoção tem por objeto imediato a própria divindade, sendo objetos mediatos a Santíssima Virgem, os santos, etc., de modo que toda devoção verdadeira nos deve aproximar de Deus e tornar-nos mais decididos no serviço d’Ele.

Entre as devoções mediatas ocupa lugar de destaque a devoção à Santíssima Virgem: é a devoção das devoções.

Pode ela revestir-se de um número infinito de aspectos, conforme os tempos, a situação e as disposições das pessoas.

II. A escolha

Há na Igreja muitas devoções, todas dimanadas do coração dos santos, e muitas vezes, ensinadas por Jesus Cristo ou Maria Santíssima.

Sendo aprovadas pela Igreja, Mestra infalível da verdade, todas elas são boas, santas e santificantes, em geral; nem sempre, porém, se adaptam às situações ou disposições particulares de cada um.

Não se podendo adotar tudo, impõe-se a necessidade de uma escolha judiciosa.

Em tal escolha, é preciso procurar principalmente a santificação pessoal ou a alheia.

Tanto melhor é uma devoção, quanto mais nos ajude a santificar-nos e a glorificar a Deus. Não é o sentimentalismo que devemos consultar; é o bem da nossa alma.

Examinando a devoção à Mãe de Jesus, encontramos um número quase incalculável de invocações. Maria Santíssima é uma só, mas é invocada sob centenas de títulos, sendo cada título a expressão de um privilégio seu, de alguma virtude ou ofício.

Para os que sofrem, Ela é Nossa Senhora das Dores.

Para os pecadores, é refúgio dos pecadores.

Para os desesperados, é a Mãe da misericórdia.

Para as criancinhas, é a Mãe da bondade, a Rainha das Virgens, e nos tempos de perturbação, Ela é a Rainha da paz.


Pe. Júlio Maria de Lombaerde

Em "O Segredo da Verdadeira Devoção à Virgem Maria"

sábado, 22 de janeiro de 2011

O Segredo da Verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria

Esse livro escrito pelo Pe. Júlio Maria trata-se de um comentário expositivo da doutrina de São Luís Maria Grignion de Montfort, grande devoto da Santa Mãe de Deus. Traremos ao blog algumas partes desse livro que busca instruir o leitor na busca da santidade pela devoção à Maria Santíssima.

Por hora, as partes introdutórias do livro:

Nihil Obstat

Manhumirim, 6 decembris, 1942

Pe. Dr. José de Castro

Censor

Imprimatur

Caratingen, 11 februari, 1943

+ Joannes Cavati

Episc. Caratingensis

Reimprimatur

Caratinga, 13 de maio de 1961

+ José Eugênio

Bispo de Caratinga

DECLARAÇÃO DO AUTOR

Conforme os decretos da Santa Sé, declaro que, se neste livro, dei a alguma pessoa virtuosa o título de Santa ou Bem-Aventurada, foi, unicamente, em testemunho de veneração, e não com a intenção de prevenir o julgamento da Santa Igreja.

Do mesmo modo, as graças ou fatos extraordinários citados têm, apenas, autoridade humana, fora do que foi aprovado pela mesma Santa Igreja, a cujo juízo infalível submeto sem reserva alguma, minha pessoa, minhas palavras e meus escritos.

PARECER DO EXMO. SR. CENSOR DA DIOCESE

Lendo atentamente a obra: “O Segredo da Verdadeira Devoção para com a Santíssima Virgem”, da autoria de

Revmo. Sr. Pe. Júlio Maria, S. D. N., não somente nada encontrei na mesma de censurável quanto à doutrina e aos costumes, como também pude julgar sobre sua grande atualidade e o grande proveito que de sua leitura e meditação pode advir às almas.

Portanto, com toda a consciência e imenso prazer, dou à mesma o meu Nihil Obstat.

Pe. Doutor José Rocha de Castro

Censor

INTRODUÇÃO

Destina-se o presente livro às almas, sinceramente desejosas de se santificar de modo eficaz.

Há, infelizmente, várias ilusões a respeito da santidade.

Uns pensam que ela consiste na duração das orações e no número delas... Outros põem-na nas grandes obras, que se empreendem. Outros, ainda, fazem-na estar numa espécie de isolamento de tudo e de todos... Outros, afinal, pensam que reside em tal devoção, em um determinado exercício, nesta confraria ou naquela leitura...

Tudo isto pode ser bom, porém é conveniente lembrar-se do velho adágio: “In medio stat virtus”. A santidade não está em tudo isto; mas tudo isto pode ser um meio de alcançar a santidade.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Biografia do Padre Júlio Maria de Lombaerde

7 – Crescimento das Congregações e outras atividades

Nesse meio tempo, a Congregação masculina do Pe. Júlio Maria, crescia e se espalhava por Minas Gerais. Os missionários estavam marcados pelo espírito de pobreza e desapego, por enorme disposição para o trabalho pastoral, e suas paróquias eram sempre movimentadas e piedosas, eucarísticas e marianas. Por seu lado, O LUTADOR se difundia pelo Brasil afora, entrava praticamente em todos os Estados, especialmente os do Sudeste e do Sul, e chegava a atingir mais de 900 cidades, levando o nome, as lutas, a doutrina do Padre Júlio Maria e aumentando seu prestígio no país.

Enquanto essas coisas iam acontecendo (e era muita coisa que acontecia em torno do Pe. Júlio Maria De Lombaerde), ele ia escrevendo e publicando, além do jornal O LUTADOR - que redigia praticamente sozinho e era, quase exclusivamente, uma folha religiosa e apologética para esclarecimento dos católicos diante das objeções ou ataques, por vezes violentos, dos "inimigos" da Igreja - muitos livros de apologética, mas sobretudo de espiritualidade ou doutrina mariana e eucarística. No jornal e nos livros que nasciam do jornal, Pe. Júlio utilizava um estilo polêmico, irônico, agressivo até, mais por motivo jornalístico, por causa do gosto natural que os leitores têm por esse tipo de literatura e que, de fato, acabou fazendo dele - segundo uma avaliação da Editora Vozes, naquela época - o autor católico mais lido no Brasil. É bom notar que as Vozes publicaram, nesse tempo, muitos livros do Pe. Júlio Maria e tinham dados comerciais para afirmar o que afirmaram.

Simultaneamente, o Fundador mantinha cerrada correspondência espiritual com seus religiosos e com as Irmãs Sacramentinas. Nessa época, estava impedido, por prudência e por obediência, de se corresponder com as que então chamávamos "as Irmãs do Norte". Essas Irmãs do Norte, ou seja, as Filhas do Coração Imaculado de Maria cresceram muito e se desenvolveram espiritual e materialmente, difundindo-se por várias unidades da Federação. Só depois da morte do Pe. Júlio, muitos anos aliás após sua morte é que começamos a nos relacionar mais freqüente e intimamente com elas. Hoje, somos cada vez mais uma família julimariana, formada pelas Filhas do Coração Imaculado de Maria (FCIM), as Irmãs Sacramentinas de Nossa Senhora e os Missionários de Nossa Senhora do SS. Sacramento.

Na década de 30, o Pe. Júlio Maria, enquanto construía o novo e grande prédio do Seminário Apostólico de seus missionários, sofreu muito por causa das perseguições político-religiosas, teve de assistir à invasão de sua gráfica e a seu empastelamento, e depois, sofreu anos e anos de censura prévia, durante a ditadura Vargas, que, de vez em quando, obrigava O LUTADOR a atrasar sua postagem e a refazer ou cortar textos já compostos laboriosamente, ainda na base do "tipo" catado a mão, um por um. Mas o jornal não deixava de sair afinal, embora às vezes com grandes tarjas negras, apagando textos censurados.

A Congregação se espraiou nesse tempo pelas Dioceses de Aterrado, hoje Diocese de Luz, MG, com o apoio e aprovação de Dom Manuel Nunes Coelho, então seu Bispo diocesano. Tivemos uma casa em Belo Horizonte e a paróquia de Cachoeirinha, ainda nos tempos de Dom Cabral. Nesse tempo, os nossos estudantes vieram cursar teologia no então grande e prestigioso Seminário Provincial do Coração Eucarístico de Jesus. Ainda nessa época, abrimos um Seminário Menor em Dores do Indaiá, e assumimos a paróquia aí e em Bom Despacho, ambas na Diocese de Aterrado (Luz), assim como a direção do Colégio dos Padres na cidade de Patos de Minas. A Congregação do Pe. Júlio Maria crescia e dava um belo testemunho de amor à Igreja, à Eucaristia e Maria Santíssima.

Uma atitude que distinguia as obras do Pe. Júlio: ele procurava não confiar nas seguranças humanas. Fazia questão de entregar tudo o que fazia à Divina Providência. Quando começou a construção do grande prédio do Colégio Pio XI, claro que tinha perspectivas financeiras. Mas não tinha tostão em caixa. E a obra não teve de ser interrompida nenhuma vez, por falta de dinheiro.

Apesar de sua nunca bem entendida sua paixão pela França (ele se dizia francês, apesar de ser belga e flamengo, falava com notável entusiasmo dos heróis franceses, da literatura francesa, da língua francesa que ele fazia questão de dizer que sabia, porque temos de conhecer "nossa língua"); apesar disso, quis se abrasileirar, desde os tempos de Macapá, no sentido que quis entender o povo, amar o Brasil e sua gente, fundar uma Congregação religiosa brasileira (a sua foi a primeira Congregação religiosa masculina brasileira e continuou sendo a única durante décadas). E mais que isso, em 1940 requereu sua naturalização. Ser brasileiro, deixar de ser francês, foi um grande sacrifício, um exercício de "kénosis", de esvaziamento afetivo por amor de Cristo, como um testemunho de despojamento pessoal em nome do amor ao povo ao qual dedicou praticamente toda sua vida sacerdotal. (Ele veio para o Brasil quatro anos apenas depois de ordenado padre, e nunca mais voltou à Europa, nem em visita, durante mais de 32 anos que viveu ainda.) O título de cidadão brasileiro lhe foi entregue solenemente em 31/10/1941, pelo Juiz de Direito de Manhumirim.

(Este texto é uma resenha e um rearranjo do livro “Pe. Júlio Maria, sua vida e sua missão”, de Dom Antônio Afonso de Miranda, sdn, o primeiro religioso da Congregação do Pe. Júlio Maria escolhido para ser bispo, hoje Bispo Emérito de Taubaté, SP, e que foi o primeiro biógrafo do seu Fundador.)

[Continua...]