quarta-feira, 9 de março de 2011

Mensagem de Sua Santidade, o Papa Bento XVI, para a Quaresma de 2011

Hoje, quarta-feira de cinzas, publicamos a mensagem do Papa para a Quaresma. Fazemos votos que esse período de conversão possa ser para toda a Igreja um verdadeiro Kairós, tempo da graça de Deus. Pelo Jejum, a Oração e a Esmola, que possamos praticar melhor a Palavra que nos foi deixada por Jesus, o Verbo feito carne.

***


«Sepultados com Ele no baptismo, foi também com Ele que ressuscitastes» (cf. Cl 2, 12)

Amados irmãos e irmãs!

A Quaresma, que nos conduz à celebração da Santa Páscoa, é para a Igreja um tempo litúrgico muito precioso e importante, em vista do qual me sinto feliz por dirigir uma palavra específica para que seja vivido com o devido empenho. Enquanto olha para o encontro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a Comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade laboriosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para haurir com mais abundância do Mistério da redenção a vida nova em Cristo Senhor (cf. Prefácio I de Quaresma).

1. Esta mesma vida já nos foi transmitida no dia do nosso Baptismo, quando, «tendo-nos tornado partícipes da morte e ressurreição de Cristo» iniciou para nós «a aventura jubilosa e exaltante do discípulo» (Homilia na Festa do Baptismo do Senhor, 10 de Janeiro de 2010). São Paulo, nas suas Cartas, insiste repetidas vezes sobre a singular comunhão com o Filho de Deus realizada neste lavacro. O facto que na maioria dos casos o Baptismo se recebe quando somos crianças põe em evidência que se trata de um dom de Deus: ninguém merece a vida eterna com as próprias forças. A misericórdia de Deus, que lava do pecado e permite viver na própria existência «os mesmos sentimentos de Jesus Cristo» (Fl 2, 5), é comunicada gratuitamente ao homem.

O Apóstolo dos gentios, na Carta aos Filipenses, expressa o sentido da transformação que se realiza com a participação na morte e ressurreição de Cristo, indicando a meta: que assim eu possa «conhecê-Lo, a Ele, à força da sua Ressurreição e à comunhão nos Seus sofrimentos, configurando-me à Sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos» (Fl 3, 10-11). O Baptismo, portanto, não é um rito do passado, mas o encontro com Cristo que informa toda a existência do baptizado, doa-lhe a vida divina e chama-o a uma conversão sincera, iniciada e apoiada pela Graça, que o leve a alcançar a estatura adulta de Cristo.

Um vínculo particular liga o Baptismo com a Quaresma como momento favorável para experimentar a Graça que salva. Os Padres do Concílio Vaticano II convidaram todos os Pastores da Igreja a utilizar «mais abundantemente os elementos baptismais próprios da liturgia quaresmal» (Const. Sacrosanctum Concilium, 109). De facto, desde sempre a Igreja associa a Vigília Pascal à celebração do Baptismo: neste Sacramento realiza-se aquele grande mistério pelo qual o homem morre para o pecado, é tornado partícipe da vida nova em Cristo Ressuscitado e recebe o mesmo Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos (cf. Rm 8, 11). Este dom gratuito deve ser reavivado sempre em cada um de nós e a Quaresma oferece-nos um percurso análogo ao catecumenato, que para os cristãos da Igreja antiga, assim como também para os catecúmenos de hoje, é uma escola insubstituível de fé e de vida cristã: deveras eles vivem o Baptismo como um acto decisivo para toda a sua existência.

2. Para empreender seriamente o caminho rumo à Páscoa e nos prepararmos para celebrar a Ressurreição do Senhor – a festa mais jubilosa e solene de todo o Ano litúrgico – o que pode haver de mais adequado do que deixar-nos conduzir pela Palavra de Deus? Por isso a Igreja, nos textos evangélicos dos domingos de Quaresma, guia-nos para um encontro particularmente intenso com o Senhor, fazendo-nos repercorrer as etapas do caminho da iniciação cristã: para os catecúmenos, na perspectiva de receber o Sacramento do renascimento, para quem é baptizado, em vista de novos e decisivos passos no seguimento de Cristo e na doação total a Ele.

O primeiro domingo do itinerário quaresmal evidencia a nossa condição do homens nesta terra. O combate vitorioso contra as tentações, que dá início à missão de Jesus, é um convite a tomar consciência da própria fragilidade para acolher a Graça que liberta do pecado e infunde nova força em Cristo, caminho, verdade e vida (cf. Ordo Initiationis Christianae Adultorum, n. 25). É uma clara chamada a recordar como a fé cristã implica, a exemplo de Jesus e em união com Ele, uma luta «contra os dominadores deste mundo tenebroso» (Hb 6, 12), no qual o diabo é activo e não se cansa, nem sequer hoje, de tentar o homem que deseja aproximar-se do Senhor: Cristo disso sai vitorioso, para abrir também o nosso coração à esperança e guiar-nos na vitória às seduções do mal.

O Evangelho da Transfiguração do Senhor põe diante dos nossos olhos a glória de Cristo, que antecipa a ressurreição e que anuncia a divinização do homem. A comunidade cristã toma consciência de ser conduzida, como os apóstolos Pedro, Tiago e João, «em particular, a um alto monte» (Mt 17, 1), para acolher de novo em Cristo, como filhos no Filho, o dom da Graça de Deus: «Este é o Meu Filho muito amado: n’Ele pus todo o Meu enlevo. Escutai-O» (v. 5). É o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus: Ele quer transmitir-nos, todos os dias, uma Palavra que penetra nas profundezas do nosso espírito, onde discerne o bem e o mal (cf. Hb 4, 12) e reforça a vontade de seguir o Senhor.

O pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na liturgia do terceiro domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23). Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho.

O domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: «Tu crês no Filho do Homem?». «Creio, Senhor» (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes. O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como «filho da luz».

Quando, no quinto domingo, nos é proclamada a ressurreição de Lázaro, somos postos diante do último mistério da nossa existência: «Eu sou a ressurreição e a vida... Crês tu isto?» (Jo 11, 25-26). Para a comunidade cristã é o momento de depor com sinceridade, juntamente com Marta, toda a esperança em Jesus de Nazaré: «Sim, Senhor, creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo» (v. 27). A comunhão com Cristo nesta vida prepara-nos para superar o limite da morte, para viver sem fim n’Ele. A fé na ressurreição dos mortos e a esperança da vida eterna abrem o nosso olhar para o sentido derradeiro da nossa existência: Deus criou o homem para a ressurreição e para a vida, e esta verdade doa a dimensão autêntica e definitiva à história dos homens, à sua existência pessoal e ao seu viver social, à cultura, à política, à economia. Privado da luz da fé todo o universo acaba por se fechar num sepulcro sem futuro, sem esperança.

O percurso quaresmal encontra o seu cumprimento no Tríduo Pascal, particularmente na Grande Vigília na Noite Santa: renovando as promessas baptismais, reafirmamos que Cristo é o Senhor da nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou quando renascemos «da água e do Espírito Santo», e reconfirmamos o nosso firme compromisso em corresponder à acção da Graça para sermos seus discípulos.

3. O nosso imergir-nos na morte e ressurreição de Cristo através do Sacramento do Baptismo, estimula-nos todos os dias a libertar o nosso coração das coisas materiais, de um vínculo egoísta com a «terra», que nos empobrece e nos impede de estar disponíveis e abertos a Deus e ao próximo. Em Cristo, Deus revelou-se como Amor (cf 1 Jo 4, 7-10). A Cruz de Cristo, a «palavra da Cruz» manifesta o poder salvífico de Deus (cf. 1 Cor 1, 18), que se doa para elevar o homem e dar-lhe a salvação: amor na sua forma mais radical (cf. Enc. Deus caritas est, 12). Através das práticas tradicionais do jejum, da esmola e da oração, expressões do empenho de conversão, a Quaresma educa para viver de modo cada vez mais radical o amor de Cristo. O Jejum, que pode ter diversas motivações, adquire para o cristão um significado profundamente religioso: tornando mais pobre a nossa mesa aprendemos a superar o egoísmo para viver na lógica da doação e do amor; suportando as privações de algumas coisas – e não só do supérfluo – aprendemos a desviar o olhar do nosso «eu», para descobrir Alguém ao nosso lado e reconhecer Deus nos rostos de tantos irmãos nossos. Para o cristão o jejum nada tem de intimista, mas abre em maior medida para Deus e para as necessidades dos homens, e faz com que o amor a Deus seja também amor ao próximo (cf. Mc 12, 31).

No nosso caminho encontramo-nos perante a tentação do ter, da avidez do dinheiro, que insidia a primazia de Deus na nossa vida. A cupidez da posse provoca violência, prevaricação e morte: por isso a Igreja, especialmente no tempo quaresmal, convida à prática da esmola, ou seja, à capacidade de partilha. A idolatria dos bens, ao contrário, não só afasta do outro, mas despoja o homem, torna-o infeliz, engana-o, ilude-o sem realizar aquilo que promete, porque coloca as coisas materiais no lugar de Deus, única fonte da vida. Como compreender a bondade paterna de Deus se o coração está cheio de si e dos próprios projectos, com os quais nos iludimos de poder garantir o futuro? A tentação é a de pensar, como o rico da parábola: «Alma, tens muitos bens em depósito para muitos anos...». «Insensato! Nesta mesma noite, pedir-te-ão a tua alma...» (Lc 12, 19-20). A prática da esmola é uma chamada à primazia de Deus e à atenção para com o próximo, para redescobrir o nosso Pai bom e receber a sua misericórdia.

Em todo o período quaresmal, a Igreja oferece-nos com particular abundância a Palavra de Deus. Meditando-a e interiorizando-a para a viver quotidianamente, aprendemos uma forma preciosa e insubstituível de oração, porque a escuta atenta de Deus, que continua a falar ao nosso coração, alimenta o caminho de fé que iniciámos no dia do Baptismo. A oração permite-nos também adquirir uma nova concepção do tempo: de facto, sem a perspectiva da eternidade e da transcendência ele cadencia simplesmente os nossos passos rumo a um horizonte que não tem futuro. Ao contrário, na oração encontramos tempo para Deus, para conhecer que «as suas palavras não passarão» (cf. Mc 13, 31), para entrar naquela comunhão íntima com Ele «que ninguém nos poderá tirar» (cf. Jo 16, 22) e que nos abre à esperança que não desilude, à vida eterna.

Em síntese, o itinerário quaresmal, no qual somos convidados a contemplar o Mistério da Cruz, é «fazer-se conformes com a morte de Cristo» (Fl 3, 10), para realizar uma conversão profunda da nossa vida: deixar-se transformar pela acção do Espírito Santo, como São Paulo no caminho de Damasco; orientar com decisão a nossa existência segundo a vontade de Deus; libertar-nos do nosso egoísmo, superando o instinto de domínio sobre os outros e abrindo-nos à caridade de Cristo. O período quaresmal é momento favorável para reconhecer a nossa debilidade, acolher, com uma sincera revisão de vida, a Graça renovadora do Sacramento da Penitência e caminhar com decisão para Cristo.

Queridos irmãos e irmãs, mediante o encontro pessoal com o nosso Redentor e através do jejum, da esmola e da oração, o caminho de conversão rumo à Páscoa leva-nos a redescobrir o nosso Baptismo. Renovemos nesta Quaresma o acolhimento da Graça que Deus nos concedeu naquele momento, para que ilumine e guie todas as nossas acções. Tudo o que o Sacramento significa e realiza, somos chamados a vivê-lo todos os dias num seguimento de Cristo cada vez mais generoso e autêntico. Neste nosso itinerário, confiemo-nos à Virgem Maria, que gerou o Verbo de Deus na fé e na carne, para nos imergir como ela na morte e ressurreição do seu Filho Jesus e ter a vida eterna.


terça-feira, 8 de março de 2011

[Comentários Apologéticos] O destino do homem

2º Domingo depois da Epifania (Segundo a forma extraordinária do Rito Romano)

Evangelho: Jo 2,1-11

1.         Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus.
2.         Também foram convidados Jesus e os seus discípulos.    
3.         Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: Eles já não têm vinho.    
4.         Respondeu-lhe Jesus: Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou.       
5.         Disse, então, sua mãe aos serventes: Fazei o que ele vos disser. 
6.         Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. 
7.         Jesus ordena-lhes: Enchei as talhas de água. Eles encheram-nas até em cima. 
8.         Tirai agora , disse-lhes Jesus, e levai ao chefe dos serventes. E levaram.           
9.         Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo     
10.       e disse-lhe: É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora. 
11.       Este foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galiléia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.


Comentário Apologético

Lendo o Evangelho de hoje, ficamos encantados pelo desvelo da Santíssima Virgem, a sua atenção carinhosa com os recém-casados.

Tudo isso converge admiravelmente para a grande finalidade que Jesus tinha em vista: manifestar a sua glória e robustecer a fé de seus discípulos, como diz o Evangelista na última frase de sua narração: Jesus deu início a seus milagres e manifestou a sua glória.

Manifestar a glória de Deus era, de fato, o resumo da vida de Jesus como deveria ser o resumo de nossa própria vida.

Jesus veio neste mundo para glorificar o seu Pai; e nós estamos neste mundo para esta mesma glorificação.

Deus nos deu um destino conforme a nossa natureza, nossas faculdades e tendências, o qual devemos prosseguir durante a nossa vida inteira.

Meditemos hoje este belo assunto, mostrando:

1º Qual é o nosso destino.
2º Como devemos alcançá-lo.

Estas considerações complementarão o que já vimos anteriormente da imortalidade e da liberdade da nossa alma.

I – Qual é o nosso destino

O destino do homem é a glorificação de Deus e a possessão do soberano bem, que é Deus.

O homem, pela sua alma imortal e livre, tende irresistivelmente a esta felicidade perfeita, e não encontra pleno repouso senão depois de tê-la encontrado, diz Santo Agostinho.

Notemos bem que o homem não foi criado para um fim natural. Se o fosse, ele deveria encontrar no cumprimento dos preceitos da lei natural uma beatitude natural.

O destino que Deus escolheu para nós:
Convivermos com os Santos contemplando-O face-a-face.
Ora, tal beatitude não existe, porque o homem foi elevado por Deus à ordem sobrenatural. 

É pois unicamente nesta ordem sobrenatural que está o seu destino e sua felicidade.

A vida presente pode oferecer ao homem satisfações que agradam ao corpo, como saúde, força, honras e fortuna; pode até dar um certo contentamento à sua alma pela ciência e pela virtude; pode apresentar a seu coração as afeições da amizade e da gratidão, porém nenhum destes bens passageiros pode saciá-lo completamente.

Somente Deus pode plenamente satisfazê-lo, porque só Ele possui tudo o que corresponde às aspirações do homem. Estas aspirações são: conhecer, amar e servir a Deus neste mundo, e possuí-lo no outro.

Conhecer a Deus é aplicar a nossa inteligência a estudar suas obras e perfeições.

Amar a Deus é dar-lhe o primeiro lugar em nosso coração, e não admitir nenhuma afeição reprovada por ele.

Servir a Deus é obedecer a seus mandamentos com prontidão e constância.

Tal é o fim do homem; é para conseguir este fim que Deus lhe deu o nobre destino sobrenatural de possuí-lo um dia na glória do Céu.

II – Como devemos alcançá-lo

Para realizar este destino o homem não pode ficar entregue a si mesmo; ele precisa de uma orientação: tal orientação está claramente indicada na Lei de Deus.

Do mesmo modo que Deus não podia criar o homem sem dar-lhe um destino de acordo com a sua natureza, assim o seu poder criador deveria orientar o homem pelas Leis, cujo cumprimento deveria recompensar e cuja violação devia castigar.

Deus, como criador, tem este direito, e o homem, como criatura, tem o dever de seguir estas leis.

A ordem da divina sabedoria, diz Santo Tomás, dirige tudo para um fim conveniente por meio de leis.

E quando Deus nos deu estas leis?

A primeira lei foi dada no momento da criação, e chama-se lei natural, fazendo, por assim dizer, parte da natureza do ser racional.

É chamada lei natural em oposição à lei sobrenatural ou revelada, de que já tratamos precedentemente. A lei natura refere-se a Deus, ao próximo e a si mesmo.
Para com Deus nos ensina o dever de adoração, do respeito, da submissão e da dependência absoluta.

Para com o próximo nos impõe o dever de tratá-lo, como queremos ser tratados por ele.

Para conosco, nos obriga a conservar a nossa vida e a nossa dignidade.

O homem conhece estas leis pela consciência e pela razão.

Há no homem um duplo instinto: um instinto físico que lhe faz conhecer o que agradável ou desagradável aos sentidos; e um instinto moral, que lhe faz experimentar alegria ou tristeza. É este instinto moral que chamamos consciência.

O que a consciência nos faz perceber, a razão no-lo mostra com clareza.

A razão nos mostra a obrigação de seguir a consciência, sob pena de sermos castigados por Deus.

III – Conclusão

A conclusão a tirar destas considerações é a necessidade de deixar-nos guiar pela nossa consciência, no caminho do bem, para evitar dois excessos: o escrúpulo que estreita exageradamente o caminho do céu e o relaxamento que o alegra além da medida, arrastando pouco a pouco ao pecado formal.

A nossa alma imortal tem um destino certo e imperioso. Deus lhe deu três faculdades essenciais que devem convergir para Ele:

A inteligência, que deve conhecê-lo;
O coração, que deve amá-lo,
A vontade, que deve serví-lo.

Estas faculdades para não deslizarem no erro e no vício devem seguir a lei marcada por Deus, lei que se manifesta pela consciência e pela razão, quanto à parte natural, e pela submissão a Deus, quanto à parte sobrenatural.

Assim fazendo, conseguiremos o nosso eterno destino, que é glorificar a Deus e salvar a nossa alma.

Exemplos

1.    Os diversos reinos

Num exame escolar, um professo perguntou aos alunos a que reino pertence a pedra!

- Ao reino mineral, foi a resposta.
- E as plantas?
-Ao reino vegetal.
-E os animais?
-Ao reino animal.
-E o homem?

Silêncio completo. Os alunos entreolharam-se... De repente um pequenito levantou-se e respondeu: - Ao reino de Deus.

Não podia ser mais exato.

2.    Salvar a alma

Um soberano pediu ao Santo Padre Bento XII uma decisão contra a sua consciência.

O pontífice respondeu:

-Sim, se tivesse duas almas, eu podia sacrificar uma para serví-lo; mas como tenho somente uma, não posso perdê-la para lhe agradar.

3.    Representação da alma
É difícil representar uma coisa invisível... Os primeiros cristãos procuraram fazê-lo, entretanto.

Para figurar a presença da alma no corpo, representavam um pássaro numa gaiola. A gaiola era o corpo; o pássaro era a alma; no dia da morte o pássaro escapa da gaiola.

Geralmente este pássaro era uma pomba: símbolo da pureza que era a alma a conservar, depois de tê-la adquirido pelo batismo.

Outras vezes, a alma era figurada por um cavalo em plena carreira, para conquistar o prêmio destinado ao vencedor.

O prêmio destinado à alma cristã é o céu.

domingo, 6 de março de 2011

Pensamentos Julimarianos [V]

"Nossos olhos mortais seriam fracos demais e sobretudo muito terrestres, para aprender tanta glória e tanto amor... Só no céu, quando Deus não tiver mais que poupar nossas fraquezas, é que Ele poderá manifestar-nos Sua Bem-Amada, Sua Privilegiada, Seu Tesouro, e Sua e Nossa Mãe."

-Pe. Júlio Maria De Lombaerde
Princípio da Vida de Intimidade com Maria Santíssima 

sábado, 5 de março de 2011

O Segredo da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria [VI]




CAPÍTULO III
A META E O CAMINHO

Antes de entrarmos nos pormenores da doutrina que queremos desenvolver aqui, é mister considerar e determinar teologicamente a meta final e o caminho que nos deve conduzir até lá. Evitaremos assim, toda hesitação em questões delicadíssimas de tão profundo alcance na vida espiritual.

Precisemos, pois, rigorosamente,o papel da Virgem Imaculada em relação a Jesus Cristo e a nossa alma. Este ponto de vista, substancialmente contido no axioma, hoje clássico: – “Ad Iesum per Mariam” – “A Jesus por Maria” – é a base fundamental da espiritualidade mariana.

I. Presença de Jesus em nós

É por não terem compreendido esta meta e esta via, que certos autores, embora louvem e exaltem a Virgem Santíssima, não lhe dão, entretanto, o lugar que merece e deve ocupar conforme os desígnios divinos. Receando exagerar, diminuem-lhe o valor. E deste modo, mostram-nos Maria diminuída, muito abaixo do ideal de nossos corações e da realidade. Oxalá possamos evitar este escolho e mostrar Maria tal qual é, em todo o esplendor de seu poder e condescendente misericórdia!

Nosso Senhor disse de si mesmo, que Ele é para todos: “ o caminho, a verdade e a vida”. São Paulo, na sua linguagem enérgica, nos diz que a sua vida sobrenatural é Cristo: “Mihi vivere Christus est”.

Jesus Cristo deve viver e crescer em nós. “Cresçamos, – diz ainda o grande Apóstolo – cresçamos em Cristo, de toda maneira, por toda espécie de boas obras, santificando-nos em todas as coisas”.

Jesus Cristo vive em nós, porque é o princípio e a causa eficiente de nossa vida sobrenatural, da mesma forma que é o exemplar de nosso estado de graça.

Quem examina a fotografia de alguém, diz: “É ele mesmo!” De igual modo e com mais razão se pode dizer da alma em estado de graça: “É Cristo mesmo!”.

Jesus reside em nós pela fé e pela caridade, segundo sua própria palavra: “Se alguém me ama... meu Pai o amará, e viremos a ele, e faremos n’Ele nossa morada” – Jo 14, 23.

Mas como entender esta presença de Jesus Cristo em nós? Não pode ser pela substância de sua humanidade. Esta sagrada humanidade só está substancialmente em nós na Comunhão Eucarística. Resta apenas um outro meio de sua presença: pela divindade.

E como está Ele em nós pela divindade?

Mediante a graça, que é uma participação à natureza divina. “Pela graça – diz São Pedro – participamos da natureza divina” – “Divinae consortes naturae...”. Escutemos a este respeito o grande Santo Tomás – I. q. XLIII, a. 3.

“Acima do modo comum, pelo qual Deus habita em toda criatura, há um modo especial, por que Ele exclusivamente habita na criatura racional, e é como o conhecido está naquele que o conhece, e o amado no amante” – Sicut cognitum in cognoscente et amatum in amante.

“Mas, como a criatura que conhece e ama – trata-se do conhecimento pela fé, e o do amor pela caridade – alcança Deus mesmo por sua operação, resulta disso que Deus, por este modo de presença, não só está presente na criatura, mas nela habita, como em um templo”.

II. Participação da natureza divina

Notemos ainda que a graça não muda a nossa natureza na de Deus. A natureza divina é incomunicável. Ficamos totalmente homens. Só Deus nos pode dar uma perfeição modelada sobre sua natureza – um grande teólogo, Franzelin, caracteriza a nossa participação na natureza divina por duas palavras: formaliter et analogice. É uma forma de maneira de ser divina. Mas, em Deus, ela é a essência; em nós, acidente. Isto nos permitirá operar como Deus, enquanto a criatura for capaz de assim agir.

Qual é a operação própria de Deus?

É a de conhecer-se e amar-se com um amor correspondente a este conhecimento. Logo, quando, pela graça, Deus nos faz conhecê-lo e amá-lo aqui na terra na ordem da fé, e no céu, na ordem da glória, participamos, verdadeiramente da natureza divina. Temos em nós a vida de Deus. Pois, como disse Nosso Senhor, “a vida eterna consiste em conhecer-te, a ti só, Deus verdadeiro, e Àquele que enviaste, Jesus Cristo” – Jo 17,23.

Pela fé e pela caridade alcançamos a própria essência de Deus! Não diz São João que a essência de Deus é caridade? – “Deus Caritas est”. Sem dúvida, a fé não faz conhecer a Deus senão imperfeitamente. Ela no-lo mostra, diz São Paulo, “como num espelho”. Mas, um dia, na glória, a nossa inteligência poderá vê-lo face a face.

E quanto à caridade, que sempre acompanha a graça, ela é, nesta vida, da mesma natureza que na pátria celeste. É um amor de amizade, pelo qual Deus e a alma se dão mutuamente. “Possessio Dei fruendum”, diz a teologia.

Possuímos a Deus para d’Ele gozarmos. Ora, como não se pode gozar plenamente senão daquilo que está substancialmente presente, é preciso concluir que a divindade habita em nós, substancialmente pela caridade.

Eis o que está sólida e irrefutavelmente estabelecido. É o fundamento da teologia ascética e mística. Nossa vida é Cristo. O aumento da nossa vida (pois tudo que vive deve crescer) é ainda Cristo crescendo em nós. A glória será também Cristo coroando-se a si mesmo em nós.

Que inefável bondade de Deus!... Que glorioso destino para nós!...

A vida de nosso corpo é a alma; a vida de nossa alma é Cristo. Nossa vida é, portanto, verdadeiramente, Cristo. Qual a união que existe entre nós e a nossa vida, entre nossa alma e nosso corpo? Tal deve ser também a união existente entre Jesus e nossa alma.

III. Nossa deificação

Assim sendo Jesus Cristo é o fim e a via de nossa deificação. São Dionísio, o Areopagita, diz de fato: “A deificação da criatura consiste, quanto possível, na semelhança e na união com Deus” – Deificatio est Deo; quantum fieri potest, assimilatio et unio. – Hierarch. Ecc. 1,3.

Quanto mais íntima for nossa união com Jesus Cristo, tanto maior será também nossa graça e nossa semelhança com Ele, pois, união e semelhança com Deus, é o resultado da sua presença sobrenatural em nós.

E tanto nos adiantamos em santidade quanto crescemos em Jesus Cristo, ou, melhor, quanto Ele cresce em nós. “Todos os dons – afirma Santo Tomás – nos advêm da união a Jesus Cristo, da participação à sua graça”.

É esta verdade, tão consoladora e tão sólida, que constitui a base da nossa dependência de Maria Santíssima.

IV. Jesus e Maria

Até agora só tratamos de Jesus Cristo, de sua vida em nós, e de nossa união com Ele que é nosso termo e nosso caminho. Mas de Jesus a Maria a transição é fácil e suave. Se entendermos bem como cresce em nós a graça, ser-nos-á fácil deduzir o papel da Santíssima Virgem neste divino crescimento; Jesus Cristo nunca se separa de Maria. O fim de nossa devoção é vivermos numa completa dependência de Jesus Cristo. Mas para estabelecer esta completa dependência o meio escolhido pelo próprio Deus é Maria Santíssima.

Terminemos com esta verdade profunda e básica: Jesus Cristo vive em nós; deve ver coroada em nós sua obra; e para realizar este mistério de amor fez-nos participantes da natureza divina, para que fôssemos capazes de produzir obras dignas de Deus.

* * *

Pedimos aos leitores pouco afeitos a leituras teológicas não se esmoreçam diante da aparente aridez deste começo.

É necessário pôr um fundamento sólido, inabalável. Depois, é preciso mostrar aos homens de estudo e de leituras sérias, que a devoção à Mãe de Deus se baseia nos dogmas mais sagrados de nossa santa religião, e não é, como alguns pensam, efeito de sentimento, ou de piedoso entusiasmo.

Ponderemos este capítulo e o que dele deriva e, pouco a pouco, das aparentes trevas surgirá a luz precursora dum incêndio de amor, que abrasará nossos corações em face desta obra-prima das mãos do Todo-Poderoso – Maria.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O Divino Solitário

Desconhecido, solitário, mudo,
Ali Jesus habita sossegado -
Mas neste seu silêncio ele diz tudo,
E tudo diz ao mundo revoltado.

“Porque não queres ter o forte escudo
Deste meu santo amor - amor sagrado?”
E indiferente, gargalhando rudo,
Lá vai o mundo a rir desenfreado...

“Meu filho!” Eis que esta voz harmoniosa
Aos ouvidos do calmo solitário
Traz um céu de delícia candorosa.

E Jesus volta o olhar que se irradia,
E estremecendo o plácido sacrário
Repete ardente: Minha Mãe! Maria!

Dos "Sonetos Eucarísticos do Frei Solitário, SDN"


quinta-feira, 3 de março de 2011

A vida da Virgem em Nazareth...

Quem, durante a vida de Maria, passasse diante da casinha de Nazareth, nada notaria que destoasse da existência comum às famílias operarias: pobreza, trabalho, retraimento, eis o que caracterizava a aparência do lar humilde que abrigou o mais formoso dos filhos dos homens, e a mais santa das filhas de Eva.

Esta verdade não foi logo compreendida pelos artistas que porfiaram por fixar em suas telas a vida de Nossa Senhora em Nazareth.

É natural.

As coisas de Deus são, como as ciências terrestres, aprofundadas aos poucos. O tempo, a reflexão, a experiência ensinam a desembaraçar a verdade das meadas do erro. A meditação cristã foi ao culto mariano o que é a picareta ao veio precioso escondido nas entranhas do sub-solo. Até encontrar o ouro da verdadeira devoção marial, foi mister cavar e remover muitas idéias menos justas.

É assim que os primitivos pintores da Idade Média representavam a Virgem em atitudes hieráticas, numas posições solenes, com ares severos e feições um tanto duras. Maria rigidamente sentada, carrega com uma sacerdotal gravidade a Jesus que parece, não o menino amorável de Nazareth, mas sim o Soberano Senhor das coisas e o Doutor Universal. Nestas pinturas há mais o reflexo do temor reverencial do que do amor filial que à Virgem nos deve prender.

Esta representação de Nazareth era inexata.

Bem o compreenderam os artistas posteriores que humanizaram o delicioso grupo de Maria e de Jesus.

Jesus aparece ais menino, mais humano, deliciosamente infantil: esperneia, tende os bracinhos, chora, ri sorrir e tem todos os adoráveis caprichos dos petizes acalentados sobre o peito da mamãe. Embora nimbado com o arrebóis da divindade, o Jesus dos pintores ulteriores é mais parecido com o encantador bebê de Nazareth.

Maria desce igualmente de seu pedestal sublime e torna a ser a mãe meiga e solicita. Amamenta, envolve em cueiros, amima, consola, embala beija, abraça e acaricia a Jesus que, deste modo, participa de todos os carinhos que sabe inventar o afeto das mães. Os grandes mestres do pincel medieval nada esqueceram das graciosas atitudes que, verossimilmente, Maria tomou em Nazareth para provar ao seu filho o seu imenso amor, e para desempenhar o seu oficio de Mãe diligente.

Meditem as mães cristãs o seguinte edificante trecho de antigo autor:

“Em Nazareth, Maria repousava o rosto sobre as faces do filhinho a quem amamentava, consolando-o melhor possível, por isso que Jesus, como fazem as criancinhas, chorava freqüentes vezes porque abraçara a miséria de nossa humanidade”. 

Os pintores tiveram no Lar Nazarento uma inesgotável fonte de inspiração, e não deixaram inaproveitada nenhuma das cenas tocantes que fazem das famílias uns santuários de inocência, de pureza e de afetos ternos.

Queira Deus, Nosso Senhor, multiplicar os lares onde, à longínqua semelhança do de Nazareth, reinem, sobrenaturalisados pelo amor de Deus, os belos sentimentos


Fonte: Revista "Voz de Nazareth", nº 4, abril de 1930.

terça-feira, 1 de março de 2011

O Segredo da Verdadeira Devoção [V]

CAPÍTULO II

O CULTO DE MARIA

Devemos honrar Maria Santíssima: ninguém pode duvidar disto. Nossos irmãos separados da verdade católica, os protestantes, têm sido bastante ilógicos recusando à Mãe de Deus a honra e o louvor que sua dignidade e suas virtudes exigem.

O culto de Maria está baseado em razões tão transcendentes, que quem sabe e procura refletir prostra-se necessariamente aos pés desta sublime criatura, para redizer, ou, melhor, para realizar a grande profecia que o Espírito Santo pôs nos lábios d’Ela um dia: – “Beatam me dicent omnes generationes” – “Todas as gerações me proclamarão Bem-aventurada!”.

I. Dignidade de Maria

Devemos honrar Maria Santíssima. Somos-lhe devedores de um culto, que, embora infinitamente inferior ao que prestamos a Deus, é completamente superior ao que é devido a uma simples criatura.

Maria é uma criatura exaltada, glorificada, Bem-Aventurada mais que todas as outras, elevada a uma dignidade quase infinita.

“A maternidade divina, de fato, pertence a uma ordem à parte, chamada Ordem Hipostática, e tem com esta ordem uma relação necessária”, diz o grande teólogo Suarez.

Santo Tomás chega a dizer: “A dignidade de Mãe de Deus é uma dignidade infinita” – “Beata Virgo, ex hoc quod est Mater Dei, habet quamdam dignitatem infinitam, ex bono infinito quod est Deus.” – Summ. I part. XXV. Art. VI.

Pois a esta dignidade, única em sua espécie, corresponde um culto, único também: o culto de hiperdulia que a Igreja só presta à Virgem Santíssima.

Mas não basta honrar Maria... como também não basta somente honrar a Deus.

Contentar-se em prestar a Deus somente um culto de louvor seria cair no erro protestante, que coloca a salvação apenas na fé e ensina que basta crer em Deus e louvá-lo, para ser perfeito cristão.

O bom senso já fez justiça a essas asserções luteranas. Crer é o alicerce; o edifício são as obras. Querendo construir um edifício, quem se contenta só com os alicerces?

A fé é uma semente lançada em nossa alma.

Mas toda semente é destinada a germinar, a crescer e produzir flores e frutos. Do mesmo modo, a fé deve crescer e produzir frutos, que são as obras da justiça. Não é somente a fé que salva, mas as obras produzidas pela fé.

Este raciocínio se aplica tanto ao culto devido a Jesus Cristo quanto ao culto devido à Maria Santíssima. Devemos um culto à Mãe de Deus. É a semente. E esta semente deve produzir flores e frutos. Isto é, este culto deve manifestar-se por obras.

Continuando a comparação, digo que é a flor que vamos presentemente estudar, reservando para um outro estudo “o fruto bendito”.

Qual é esta flor, e qual é este fruto?

A Flor do culto de Maria é o Dom de si mesmo a esta boa Mãe.

O Fruto é a Imitação de suas virtudes.

A prova é de fácil compreensão para todos, e serve de base a toda a Mariologia.

II. Lei Circular

Existe na religião católica uma lei fundamental, chamada pelos teólogos: lei circular. É ela que preside a tudo e tudo explica. Esta lei é o dom de si.

Como dizem os teólogos, é uma lei circular: Deus se dá ao homem; o homem deve dar-se a Deus.

Tudo procede de Deus; tudo deve voltar para Ele.

Deus se deu a nós, para nos mostrar como devemos dar-nos a Ele.

E como foi que Ele se deu a nós?

Por Maria.

Como devemos dar-nos a Ele?

Por Maria.

Em Maria está, pois, a mais bela aplicação desta “lei circular”.

Por meio d’Ela, “o dom” vem do alto do céu à terra; e, ainda por meio d’Ela, volta da terra para o céu.

É o papel mediador de Maria entre Deus e os homens. Por criação e por natureza, somos de Deus e para Deus. E Deus quer que, por nossa espontânea vontade, renovemos este dom de nós mesmos, na forma por ele prescrita.

Ora, Ele se deu a nós Por Maria. Logo, Ele quer que, nos demos a Ele também Por Maria.

Deste modo, o dom de si é verdadeiramente uma flor, que desabrocha sobre a haste do culto da Mãe de Deus.

A flor desabrocha antes do fruto. Não é, pois, o fruto. Mas, sem ela, não haveria fruto; seria a esterilidade.

Para darmos ao culto de Maria toda a força e toda a expansão, para recolhermos desta bela haste o desejado fruto da virtude e da santidade, é preciso que façamos desabrochar a flor.

Em outros termos:

Para dignamente honrarmos à Virgem Santa, como Deus quer que Ela seja honrada, é mister que nos demos a Ela, e, por Ela, a Jesus Cristo, seu filho. Sem isto, sem este dom espontâneo e voluntário, a graça divina não circulará em nossas almas; mais abundante e mais ativa, para nos facilitar a reprodução dos exemplos do Salvador, de quem a Virgem Imaculada é a cópia suave e sem mancha. É o que queremos estudar nestas páginas.

* * *

Firmados nos princípios mais sólidos da teologia e nos ensinamentos dos santos, faremos todo o possível para ficar sempre ao alcance de todas as inteligências.

Entretanto, cumpre notá-lo, para serem bem compreendidas e bem apreciadas, estas páginas exigem uma leitura repetida.

Não basta lê-las de um só folego; é preciso relê-las, meditálas, assimilá-las.

Para as almas piedosas, que buscam a perfeição, elas hão de ser um feixe luminoso, hão de descortinar-lhes aos olhos um horizonte talvez desconhecido, e, ao coração, um verdadeiro segredo, o segredo do amor à Santíssima Virgem.

Mas torno a repetir: Estas páginas se dirigem às almas sérias, piedosas, ou, ao menos, desejosas de o serem. Às que são frívolas, elas ocultarão o segredo... Porque em almas que são como a terra das estradas, não pode germinar uma semente divina, disse Nosso Senhor – Mt 13, 18.

Felizes os corações que tudo compreenderem!...

E mil vezes mais felizes os que a praticarem com fervor!...

Os anjos hão de inclinar-se, radiantes e alegres, reconhecendo nestes corações justos a imagem e o sorriso de sua Rainha celestial.

III. Divisão geral

É nosso dever honrar a Santíssima Virgem. E quão suave é este dever! Já tratamos deste assunto em outro trabalho. Expusemos ali o primeiro modo de amarmos a Mãe de Deus. Mas o amor não pode parar aí; ele tem asas...

Quem ama não se contenta com honrar, mas suspira pela posse do ser amado.

E quando este ser não é um objeto inerte e sim uma pessoa, a aspiração natural do amor é dar-se a ela, ser possuído por ela.

É o segundo modo de amar a Virgem Santa.

Dar-se a ela, pertencer a ela, ser d’Ela propriedade, da maneira mais íntima e irrevogável – eis a aspiração de toda alma apaixonadamente cristã.

Mas como realizar isto?

Como identificar-nos com ela, como “perder-nos em Maria”?

Pergunta deliciosa!

Vamos dar-lhe a resposta neste estudo.

Procuraremos, por isso, entre as devoções, a que mais nos une a Maria Santíssima; e depois de encontrá-la estudaremos, até nos pormenores, os seus motivos e a sua prática.

Será assunto de todo este livrinho.

Dividimo-lo em quatro partes:

I . O DOM DE NÓS MESMOS A MARIA,

ou os diversos modos de pertencermos à Virgem Santa.

II. O DOM MAIS COMPLETO DE NÓS MESMOS,

ou a Santa Escravidão ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort.

III. A PRÁTICA DERIVANTE DESTE DOM,

ou a maneira de viver a Santa Escravidão, de percorrer seus vários graus, até a união mais íntima com a Santíssima Virgem.

IV. AS RELAÇÕES DA SANTA ESCRAVIDÃO

com a doutrina da Santa Igreja.

Aconselhamos a leitura de “O Segredo de Maria”, de São Luís Maria Grignion de Montfort, que servirá a um tempo de obra de consulta e base ao sistema de espiritualidade proposta pelo mesmo santo.