domingo, 20 de março de 2011

Jejum e abstinência

Nesse II Domingo da Quaresma, apresentamos esse texto do Pe. Júlio Maria sobre o jejum e a abstinência. Foi retirado do livro polêmico Luz nas trevas. Não obstante o tom apologético, consideramos que é eficiente para despertar os bons sentimentos quaresmais.

***


I – A razão de ser


A Igreja, ciosa de seguir em tudo as prescrições e os conselhos do Divino Mestre, prescreveu o jejum e a abstinência, como penitência, em certos dias do ano.

O jejum consiste em privar-se de uma parte dos alimentos habitualmente usados, e refere-se à quantidade do mesmo alimento.

A abstinência consiste em privar-se de carne em certos dias, por espírito de penitência, e refere-se, pois, à qualidade do alimento.

Jesus Cristo prescreve o jejum sem indicar o dia deste jejum; aconselha esta prática como meio de alcançar o perdão das faltas, de expiá-las e de domar as paixões da carne. Tudo isto está claramente indicado na Bíblia.

Não tendo Jesus indicado o tempo, nem o dia destas penitências, cabe à Igreja determiná-los, para que os conselhos e preceitos do Salvador não fiquem esquecidos.

Percorramos, meu caro crente, os exemplos, os conselhos e preceitos do jejum, indicando bem os passos, para que o amigo os possa verificar em sua Bíblia.

II – Preceito do jejum

Digo logo, para espantar o meu amigo crente, que o jejum constitui não simplesmente um conselho ou uma lei eclesiástica, mas sim uma lei divina, como a oração e a esmola.

A prova é simples: o que Jesus Cristo une num mesmo preceito, deve possuir a força deste preceito. Ora, lemos em S. Mateus que o Salvador fez três preceitos para cumprir a lei e as profecias: esmola, oração e jejum.

O capítulo VI de S. Mateus é a majestosa exposição desta verdade. Jesus Cristo diz ao terminar: Quando jejuardes, não vos mostreis tristes... Ungi as vossas cabeças e lavai o vosso rosto... para não parecer aos homens que jejuais, mas a vosso Pai, que vos recompensará (16,17,18).

Em outro lugar o Salvador ensina que há tentações, que só se combatem à força de oração e do jejum (Mt 17, 20).

Ora, todos nós somos tentados. Todo homem é tentado pela sua própria concupiscência, diz S. Tiago (1, 14). Para resistir a estas tentações precisamos, pois, recorrer à oração e ao jejum.

Eis já o quanto é claro e irrefutável.

Examinemos agora se o tal preceito foi praticado pelo próprio Salvador.

III – Exemplo de Jesus Cristo                   

O grande modelo a imitar é Jesus Cristo. Ele é o caminho: Ego sum via veritas et vita (Jo 14,6). Ora, lemos em S. Mateus que antes de iniciar a sua grande obra – a fundação da Igreja – o Salvador foi conduzido ao deserto, onde jejuou durante quarenta dias e quarenta noites (Mt 4,1-2).

Como é que os amigos protestantes, que pretendem seguir a Bíblia à risca, não imitam a Jesus Cristo jejuando, em vez de atacarem o jejum praticado pelos católicos, em imitação do seu divino modelo? Que contradição! A Bíblia está repleta de exemplos de jejum. Em toda parte, em todas as necessidades encontramos a oração e o jejum, como duas práticas inseparáveis, para aplacar a Deus e obter os seus benefícios.

O jejum é como o sustento da oração. É boa a oração acompanhada do jejum, diz Tobias (12,8). Voltei meu rosto para o Senhor, meu Deus, para o rogar, o conjurar em jejuns, diz Daniel (9,3-4).

O ímpio Acab, provocando a justiça de Deus, por causa da vinha de Nabot, jejuou coberto de um cilício e alcançou certa indulgência.

Os ninivitas, urgidos que fizessem penitência, observavam o jejum, para alcançarem a clemência de Deus, etc., etc.

IV – A origem da quaresma

A quaresma, ou os quarenta dias de jejum, praticados na Igreja Católica, foi instituída pelos Apóstolos, em lembrança do Jejum de Jesus Cristo.

A prova desta asserção encontra-se na regra traçada por Santo Agostinho: “Toda prática, diz ele, recebida por toda a Igreja e cuja origem não pode ser atribuída nem a um bispo, nem a um papa, nem a um concílio, deve ser considerada como uma instituição apostólica.”

Ora, a quaresma foi sempre observada por todas as nações cristãs e não se pode fazer remontar a sua origem a uma instituição humana, posterior ao tempo dos apóstolos; logo foi instituída por eles.

Os amigos protestantes dizem que tal prática foi instituída pelo Concílio de Nicéia. É falso, pois o Concílio de Nicéia realizou-se em 325, e encontramos já nos escritos de Tertuliano e de Orígenes, no ano 200, a menção positiva da quaresma.

S. Jerônimo, no ano 400, escreveu: “Segundo a instituição apostólica, observamos um jejum de 40 dias.” (Ep. ad Marcel. ).

S. Leão é mais positivo ainda: “Foram os apóstolos, -diz ele- que, por inspiração do Espírito Santo, estabeleceram a quaresma.”

“Jejuamos em qualquer outro tempo, - diz também S. Agostinho- se quisermos, mas durante a quaresma, pecamos se não jejuamos”.

Eis, pois, bem demonstrado que a quaresma é uma instituição dos Apóstolos, instituída por eles, talvez por ordem ou conselho de Jesus Cristo, para lembrar e imitar o jejum de 40 dias do próprio Salvador.

V – O jejum na antiga e nova lei

O jejum da sexta-feira, como já disse, não existe senão na cabeça do protestante à cata de objeções; mas se existisse, teria inda a sua razão de ser, o seu fundamento. Este fundamento seria a Lei da Igreja.

A Sagrada Escritura prova a necessidade do jejum, sem determinar os dias deste jejum. Os apóstolos instituíram a quaresma. A Igreja de Jesus Cristo possui uma autoridade divina, igual à autoridade dos apóstolos, pois o papa é o legítimo sucessor dos apóstolos. É, pois, inegável que o Papa possa prescrever jejuns ou suprimí-los, em certos dias, para um fim útil ou conveniente. O jejum, como mortificação do corpo, é um preceito divino; o modo prático de exercê-lo deve ser regulamentado pela Igreja, por lei eclesiástica, que obriga a consciência.

A Igreja recebeu do seu divino Fundador o poder de legislar, ou formar leis; tal poder pertence necessariamente à autoridade de governar que S. Pedro recebeu do Salvador: Dixit ei (Pedro): Pasce oves meas (Jo 21,17).

Não se pode negar este poder à autoridade eclesiástica, tanto mais que a antiga lei dava tal poder a seus chefes, como lemos na Bíblia.

Jozafaz fez publicar um jejum em toda a Judéia, o que foi aprovado pelo Senhor, que lhe concedeu o favor implorado.

Esdras publicou também um jejum pela feliz jornada dos judeus que voltaram do cativeiro da Babilônia. Publiquei um jejum, diz ele; nós jejuamos, pois, e tudo nos sucedeu com felicidade (1Esd 8,21-23).

Jeremias publicou igualmente um jejum em Jerusalém, para toda a multidão que vinha de Judá, a fim de aplacar as vinganças do Senhor (Jer 36,9).

O profeta Zacarias faz menção de quatro jejuns, ordenados por Deus (Zac 3,19).

Eis como a Igreja do Antigo Testamento preceituava o jejum e determinava o tempo e o modo de praticá-lo, por ordem divina. É, pois, lógico que a Igreja do Novo Testamento goze do mesmo poder de que gozava a Igreja antiga, que era apenas o esboço, o símbolo e a Imagem da Igreja de Cristo.

VI – A abstinência de carne

Devemos, pois, concluir que a Igreja tem o direito de impor, em certos dias determinados, o dever de jejuar e de abster-se de certos alimentos por lei positiva do poder eclesiástico.

Se tem o poder de prescrever o jejum, deve ter também o de prescrever a abstinência de certos alimentos. Tal abstinência não é novidade; existiu na lei antiga, como existe hoje na Igreja Católica.

Os próprios apóstolos prescreviam tal abstinência. Abster-vos-ei das carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue e dos animais sufocados, dizem os Atos (15,29).

Se os apóstolos prescrevem de abster-se de certas carnes, podem naturalmente prescrever tal abstinência em tempo e dias marcados, como fez a Igreja, prescrevendo em certos países a abstinência de carne, nas sextas-feiras, em lembrança da morte do divino Salvador. É claro, simples e incontestável.

VII – Conclusão


A conclusão é irrefutável. A Igreja Católica, fiel aos ensinamentos da Bíblia, apóia-se em todas as suas doutrinas sobre o texto sagrado, e faz dele o pedestal divino dos dogmas, da moral, e até das cerimônias do culto.

O protestantismo, ao contrário, limita-se em exaltar a Bíblia, e na prática afasta-se completamente dos ensinos da mesma Bíblia. Jejuar e abster-se de certos alimentos é uma prática que vem do berço da humanidade: pouco importa que o protestante proteste, porque a sua lei, a base do seu credo é protestar contra a verdade católica.

Se a Igreja proibisse o jejum e a abstinência, os amigos protestantes citariam centenas de textos para provar que o jejum e a abstinência são preceitos divinos. E estes textos podem ser encontrados, de fato.

A Igreja, firme em sua resolução divina, sustenta a verdade; e o protestante, embora não encontra nenhum texto, absolutamente nenhum, contra o jejum e a abstinência, protesta e quer ver textos que provem que se deve jejuar nas sextas-feiras.

Pe. Júlio Maria De Lombaerde, "Luz nas Trevas". Págs. 202-208

sexta-feira, 18 de março de 2011

A Caridade do Pe. Júlio Maria


Por Pe. Aureliano de Moura Lima, sdn
Conselheiro Geral

A caridade supera a justiça, porque amar é dar, oferecer ao outro do que é ‘meu’; mas nunca existe sem a justiça, que induz a dar ao outro o que é ‘dele’, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso ‘dar’ ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é ‘inseparável da caridade’, é-lhe intrínseca. (CinV, 6).

Ao iniciar com as palavras de Bento XVI em sua última encíclica Caritas in Veritate (CinV), quero dizer que o Pe. Júlio Maria foi um homem que exerceu a caridade na verdade. Deu de sia para aquelas realidades sofridas que ele buscou transformar a partir de dentro. Tudo o que ele tinha de mais precioso: sua vida, suas provisões, sua estima e honra, sua terra natal, sua família distante, ser caluniado, injustiçado, ameaçado, noites de sono, lazer, tudo o Pe. Júlio ofereceu para as obras que realizou pelo bem das pessoas e da Igreja.

O Bispo missionário na África pediu uma esmola para os pobres africanos. O jovem Júlio Emílio (mais tarde Pe. Júlio Maria) decidiu oferecer a sua vida pela missão. Não quis dar algo, mas deu-se a si mesmo. E fê-lo sem recuar jamais. Passou pela África, retornou à Europa, foi enviado para o Brasil e por aqui viveu 32 anos sem jamais voltar à sua terra natal. Dedicou-se totalmente à missão que lhe foi confiada. Mais. Não se satisfazia em cumprir o estabelecido. Talvez esse seja seu grande mérito. Foi além. Fundou três Congregações Religiosas para cuidar dos pobres que lhe eram muito caros.

Preocupava-se com os doentes: arranjou uma farmácia e ajudou a construir um hospital. E as crianças abandonadas? Um patronato para elas! O que fazer pela juventude sem perspectiva? Irmãs para a educação e fundação de colégios! O que fazer com os idosos abandonados? Asilos, abrigos! E a formação moral, intelectual, religiosa do povo, como fica? Livros, jornais, Congregações para dar-lhes apoio e suporte!

Vejam que o Pe. Júlio Maria não parava. Olhava o mundo com o olhar de Jesus. Não se limitava a uma caridadezinha de assistência aqui ou acolá, não. Os projetos pululavam em seu coração e sua mente. Arranjava jeito e gente para levar adiante seus projetos. Contagiava, aquecia o coração de seus seguidores. E os entusiasmava de tal maneira que levavam adiante suas iniciativas.

Hoje estamos tentando alavancar, de modo novo, a ‘caridade na verdade’ que sustentou as obras sociais do Pe. Júlio Maria. Muitas vezes somos premidos pelas exigências legais da filantropia e deixamos de realizar o bem caritativamente. Corremos o risco de realizar os projetos sociais em vista do cumprimento duma exigência jurídica. Será que não estamos querendo apenas ser justos, isto é, dar o que é do outro? E o Papa diz que o plus da caridade é que nela damos o que é nosso, daquilo que é meu. Aí está a verdade da caridade. “Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a atividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os atuais” (CinV, 5).

Vale a pena mencionar ainda Caritas in Veritate (6): “A ‘cidade do homem’ não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo”.

Nas pegadas do Pe. Júlio Maria queremos que a nossa ação social seja marcadamente eucarística: “Façamos ação social eucarística” dizia nosso fundador. Para isso é preciso superar a mentalidade do jogo de interesses que caracteriza nossa sociedade neoliberal e entrarmos na lógica da Eucaristia: amar até o fim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

"O Padre Júlio Maria era um homem de Deus"

- Monsenhor Aristides Maques da Rocha, para o senhor, quem era o Pe. Júlio Maria?

- “O Pe. Júlio Maria era um homem de Deus. Manhumirim não era nada. Manhumirim é o que é hoje, graças ao Pe. Júlio Maria. Em Manhumirim, ele fundou a Congregação dos Padres e das Freiras.

Andei muitas vezes com ele. Acompanhei-o em muitas missões e participei de muitos retiros espirituais pregados por ele para o clero de Caratinga. Era ele quem pregava o retiro para nós.

As virtudes brilhavam na barva dele.

Quando a torre da Catedral de Caratinga ficou pronta, quem a benzeu foi ele, em 1929. Eu o convidei e Dom Carloto aprovou. De Caratinga, fui com ele para o Rio de Janeiro.

O Pe. Júlio Maria era um santo, e muito santo. Muito admirável.

Um milagre aconteceu comigo e ele. Nós dois viajávamos de carro para Manhuaçu. O carro perdeu o freio e precipitou-se pela pirambeira abaixo. Eu queis saltar fora. Mas ele me segurou pelo braço e disse: “Não é preciso saltar não, Monsenhor”. O carro, desgovernado, parou lá embaixo, na beira do rio, e não aconteceu nada.”

Monsenhor Aristides Marques da Rocha,
insigne clérigo dos inícios da Diocese de Caratinga,
que conviveu com o Pe. Júlio Maria.

Entrevista feita pelo Pe. Demerval A. B., SDN, em 18 de março de 1979.

terça-feira, 15 de março de 2011

Mensagem de Bento XVI sobre a Campanha da Fraternidade 2011


Ao Venerado Irmão
Dom Geraldo Lyrio Rocha
Arcebispo de Mariana (MG) e Presidente da CNBB

É com viva satisfação que venho unir-me, uma vez mais, a toda Igreja no Brasil que se propõe percorrer o itinerário penitencial da quaresma, em preparação para a Páscoa do Senhor Jesus, no qual se insere a Campanha da Fraternidade cujo tema neste ano é: "Fraternidade e vida no Planeta", pedindo a mudança de mentalidade e atitudes para a salvaguarda da criação.

Pensando no lema da referida Campanha, "a criação geme em dores de parto", que faz eco às palavras de São Paulo na sua Carta aos Romanos (8,22), podemos incluir entre os motivos de tais gemidos o dano provocado na criação pelo egoísmo humano. Contudo, é igualmente verdadeiro que a "criação espera ansiosamente a revelação dos filhos de Deus" (Rm 8,19). Assim como o pecado destrói a criação, esta é também restaurada quando se fazem presentes "os filhos de Deus", cuidando do mundo para que Deus seja tudo em todos (cf. 1 Co 15, 28).

O primeiro passo para uma reta relação com o mundo que nos circunda é justamente o reconhecimento, da parte do homem, da sua condição de criatura: o homem não é Deus, mas a Sua imagem; por isso, ele deve procurar tornar-se mais sensível à presença de Deus naquilo que está ao seu redor: em todas as criaturas e, especialmente, na pessoa humana há uma certa epifania de Deus. «Quem sabe reconhecer no cosmos os reflexos do rosto invisível do Criador, é levado a ter maior amor pelas criaturas» (Bento XVI, Homilia na Solenidade da Santíssima Mãe de Deus, 1º-01-2010).

O homem só será capaz de respeitar as criaturas na medida em que tiver no seu espírito um sentido pleno da vida; caso contrário, será levado a desprezar-se a si mesmo e àquilo que o circunda, a não ter respeito pelo ambiente em que vive, pela criação. Por isso, a primeira ecologia a ser defendida é a "ecologia humana" (cf. Bento XVI, Encíclica Caritas in veritate, 51). Ou seja, sem uma clara defesa da vida humana, desde sua concepção até a morte natural; sem uma defesa da família baseada no matrimônio entre um homem e uma mulher; sem uma verdadeira defesa daqueles que são excluídos e marginalizados pela sociedade, sem esquecer, neste contexto, daqueles que perderam tudo, vítimas de desastres naturais, nunca se poderá falar de uma autêntica defesa do meio-ambiente.

Recordando que o dever de cuidar do meio-ambiente é um imperativo que nasce da consciência de que Deus confia a Sua criação ao homem não para que este exerça sobre ela um domínio arbitrário, mas que a conserve e cuide como um filho cuida da herança de seu pai, e uma grande herança Deus confiou aos brasileiros, de bom grado envio-lhes uma propiciadora Bênção Apostólica.

Vaticano, 16 de fevereiro de 2011


segunda-feira, 14 de março de 2011

O primeiro milagre

Meditação do Evangelho de João, 2,1-11.

O Evangelho nos apresenta hoje o primeiro milagre operado pelo Salvador. Este primeiro milagre tem uma relação íntima com o último, que é a instituição da Sagrada Eucaristia. Neste primeiro milagre Jesus Cristo mudou a água em vinho, como na Última Ceia, mudará o vinho em seu sangue.

Ele faz aqui uma transubstanciação, mudando a substância da água na substância do vinho; como para preludiar a esta outra transubstanciação, na qual mudará a substância do vinho, na substância do seu sangue.

No milagre das Bodas de Caná - o primeiro de Jesus -
Ele prenuncia a instituição da Eucaristia.
O milagre de cana é uma figura e um símbolo do que diariamente se opera sobre nossos altares.

Há uma admirável aproximação entre o primeiro milagre, com que Jesus Cristo começou a sua carreira, e aquele com que a terminou: a Última Ceia.

É um fato do mesmo gênero: em ambos estes fatos há uma mudança real, um verdadeiramente vinho, como o vinho do cálice se torna realmente sangue.

O banquete de Cana é a figura do banquete nupcial da nova Lei. Aos servos dos esposos Maria disse: fazei o que ele vos disser; aos ministros da nova Lei Jesus Cristo diz: Fazei isto em memória de mim!

Pode-se dizer que Jesus começa num destes fatos o que deve terminar no outro. Em Caná, Ele inaugura o seu poder, preparando a matéria que deve servir-lhe no cenáculo: o vinho, de certo modo, aproxima-se mais do sangue,  tem com ele mais afinidade [...]. Possui a cor do sangue e exprime a força e a alegria que nos comunica o cálice da salvação.

[...]É o que fez pensar a São João Crisólogo, que o salvador, pelo milagre de Caná, quis dar-nos uma introdução e prelúdio da Sagrada Eucaristia.

Tais são as belas lições que nos ministra o primeiro milagre de Jesus Cristo. Em sua vida, em suas palavras e atos, tudo é significativo, pois tudo obedece a um plano divinamente delineado e executado.

O Salvado, sem revelar o íntimo de seus segredos e as tramas escondidas em sua providência, prepara no silêncio, pouco a pouco, a relação dos mais sublimes mistérios.

Indo do conhecido ao desconhecido, do sensível ao espiritual, Ele prepara o espírito os apóstolos para que na Última Ceia, sem dizer uma palavra explicativa, sem o mínimo comentário, Ele possa realizar, em termos claros e positivos o que havia mostrado, em parábolas, em símbolos, no decurso de sua vida.

Vemo-lo aqui mudar a água em vinho, fazer uma verdadeira conversão de substância ou transubstanciação, para preparar a grande conversão da substância do vinho em seu próprio sangue.

E para que a relação seja mais perfeita e sensível, aqui Ele não diz uma palavra. Podia ter dito: Isto é o vinho, ou isto é a água mudada em vinho... Não! Ele reserva a palavra explicativa para a realidade, na Última Ceia. Então, sim, Ele dirá, do vinho transubstanciado: Isto é o meu sangue!

Pe. Júlio Maria De Lombaerde
In Mistagogia Eucarística do PJM.
Pp 33-34

sábado, 12 de março de 2011

A Loucura da Cruz

Hoje, Primeiro Domingo da Quaresma, gostaríamos de oferecer aos nossos leitores uma reflexão do Pe. Júlio Maria, CSsR, sobre a Paixão de Cristo. Isso para incitar os bons propósitos nesse período quaresma, à esteira do que apresentávamos por ocasião da Quarta-feira de Cinzas. [UPDATE:] Favor conferir a ERRATA!

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Verdadeiramente, nós somos loucos, mas loucos de amor por Jesus Cristo. A obra prima da alegria é a Cruz de Jesus Cristo. Esta cruz, que aos olhos do século parece não ser mais que o símbolo da tristeza, do sofrimento e da dor, é, na realidade, o requinte da ventura; e essa loucura de que fala o apóstolo São Paulo, a do cristão que procura assemelhar-se a Jesus Cristo e por Seu amor se torna como que louco, essa loucura é verdadeiramente o supremo arroubo da felicidade.


Sei, o século não entende assim: um Deus flagelado, ferido, ensangüentado, crucificado, morto, parece-lhe um símbolo absurdo. O homem que o cobre de beijos e lágrimas, que pelo repúdio de sua vaidade e de seu orgulho, pela renúncia de suas paixões, que procura reproduzir em si a Cruz de Jesus Cristo, parece-lhe o cúmulo da loucura.



Que importa, porém, os pensamentos do século?! Se na terra já houve uma alegria completa e inefável, a do Amor Crucificado; se as criaturas humanas já foi dado algum antegosto da felicidade, que ardentemente desejam, elas o acharam no contato com Jesus Cristo.



O mundo físico tem muitas alegrias: a vida, a saúde, a força, o espetáculo das cenas variadas da natureza, o aspecto das montanhas, a extensão dos mares, a beleza das planícies, os brilhos do sol, os próprios ruídos da tempestade são fontes de prazer para o homem.



O mundo intelectual tem muitas alegrias: o simples exercício das faculdades do espírito, a rapidez, o fluxo e o refluxo dos pensamentos, os encantos da poesia, as harmonias da música, os atrativos da forma e da cor, a pintura, a escultura, a arquitetura são para o espírito e o coração do homem fontes de emoções deliciosas.



O mundo moral tem muitas alegrias: o amor da família, da pátria, da humanidade; as tranqüilas afeições do lar; os afetos ardentes da juventude; as profundas meditações da idade madura; uma grande esperança que se alimenta; uma grande vitória que se conquista - tudo isso é para o homem perene, inesgotável manancial de alegria.



Pois bem; resumi numa só as variadas alegrias do mundo físico, as alegrias variadíssimas do mundo intelectual e moral; resumi num só todos os gozos puríssimos da inteligência, todos os prazeres mais delicados da imaginação, vós não tereis senão uma pálida sombra desta infinita alegria que se chama - a Cruz.



Strauss escreveu: - "A Cruz com um Deus morto pelos pecados dos homens é para os crentes não somente o penhor visível da redenção, mas também a apoteose do sofrimento. É a humanidade na sua forma mais triste, com todos os seus membros dilacerados e quebrados; a perfeição do cristão e a maldição do mundo. A humanidade moderna, satisfeita de viver e operar, não pode mais achar em tal símbolo a expressão de sua consciência religiosa; e conservá-lo na Igreja é acrescentar mais uma razão às muitas que já o tornam incapaz de existir. A Cruz é um anacronismo, um sinal de decadência e caducidade".



Que ignorância! A Cruz, o poema predileto da humanidade, é o símbolo que se encontra ainda nos lares, em milhares de corações e em todos os túmulos; a Cruz é o alívio do desventurado, a esperança do moribundo. Na alegria ela enternece; na tristeza ela consola; até mesmo no cemitério, nas sombras da morte, a Cruz é um penhor de vida!



Mas a humanidade ama ardentemente o gozo e o prazer; de fato, ela não procura senão a felicidade. A Cruz, portanto, é só aparentemente a apoteose dos sofrimentos; e a maior das felicidades humanas é a dos corações crucificados.



A Cruz é a obra prima da alegria, porque ela é obra de Deus, e Deus é alegria infinita; e compreende mal a criação, mesmo depois da queda primitiva, quem supõe que a dor representa nas obras de Deus mais que um papel secundário.



No mundo físico não é a dor que prepondera: ninguém pode descrever o número, a grandeza e magnificência de suas alegrias, que envolvem o globo inteiro.



No mundo moral, sem dúvida, existe a dor; mas ela procede da prevaricação do homem, e não de Deus, cuja bondade apoderou-se dela, transfigurou-a, e de tal sorte transformou-a, que a dor tornou-se para o homem, na condição em que ficou colocado depois da queda, uma condição da alegria.



É uma alegria a dor que o homem sente vendo o que há de irregular no mundo físico, de trágico e triste no mundo moral. É uma alegria a dor do arrependimento, a contrição dos pecados, a resignação na desgraça, a paciência no infortúnio, a conformidade com a vontade de Deus em todos os estados e condições da vida. É pela dor que a criação reassume a sua alegria; e por isso a dor entra em tudo que há de dramático e patético na vida humana; e por isso glorificar a dor é uma das mais altas funções da música, da pintura e das escultura; e por isso para a humanidade nada tem interesse real se não tem alguma relação com a dor; e por isso a dor é verdadeiramente para a vida de cada homem uma condição necessária de sua alegria.



Onde, porém, perguntareis, colocar a alegria numa vida como a de Jesus Cristo? Onde ver a alegria naquela Cruz?! Pois a Paixão do Homem-Deus não foi o sumo da dor, e por consequência exclusão de toda alegria?!



Sim; a Paixão de Jesus Cristo foi uma dor real, completa e tão vasta que abrangeu toda a Sua vida, desde o primeiro vagido do Presépio até ao derradeiro gemido do Calvário. É só aparentemente que se distinguem o berço do menino Deus e a Cruz do Varão de dores; na realidade se confundem a manjedoura de Belém e o monte Calvário. Para o menino, pela ciência completa de Sua alma e o pleno uso de sua razão, a previsão de Seus opróbrios e ignominias, de Seus sofrimentos e de Sua morte era já uma paixão substancial.



Se as dores físicas da Paixão não Lhe torturavam já os músculos, os nervos e a carne pela vivacidade da Sua previsão dava-Lhe um horror e tremor correspondentes. Aliás, os sofrimentos da santa infância, agravados pela fraqueza física e a impossibilidade voluntária de as fazer conhecer, foram em Jesus Cristo dores físicas perfeitas. Quanto as dores morais, a santa infância é em toda a realidade o começo da Paixão: o presépio é o Calvário que começa.



Exterior e interiormente, Nosso Senhor sofreu desde o primeiro instante de Sua vida terrestre. Derramou lágrimas, sentiu frio, fadigas, terrores, o desprezo e a perseguição dos homens, e todos os tristes resultados da pobreza e do silêncio a que voluntariamente se condenou. Nasceu fora dos muros de uma cidade, súdito de um imperador romano; ainda menino, teve necessidade do exílio para escapar ao furor de um déspota; os elementos, que Ele próprio tinha criado, o sol, o vento, a chuva, molestaram o Seu corpo infantil; a Sua infância reuniu todas as condições da pobreza, e o pleno uso de Sua razão, a plena ciência de Sua alma, sem dúvida Lhe tornaram penitências cruéis todas as fraquezas que em nós são o resultado do pecado, mas nEle eram os mistérios da Encarnação.



A vista interior que Ele tinha dos pecados de todos os homens; de suas perfídias e ingratidões; das vicissitudes de Sua Igreja; dos combates improfícuos do Amor Divino pela salvação de tantas almas que recusaram, que recusam e que hão de recusar tantos testemunhos da Sua misericórdia, aumentavam sem dúvida, esses sofrimentos exteriores da santa infância.



Onde, portanto, ver a alegria numa existência tão atribulada e na qual ainda mesmo os sofrimentos futuros não eram simples profecias, eram já uma paixão substancial?!



Pois a alegria está ali, a maior das alegrias que tenha feito na terra palpitar um coração. A todos os instantes, desde o Presépio ao Calvário, durante mesmo o abandono na Cruz, e não obstante todos os sofrimentos da Paixão, Jesus Cristo era bem-aventurado, era perfeitamente feliz, Sua alma palpitava de alegria.



Parece-nos impossível no coração de Jesus Cristo a harmonia de uma tão grande alegria com uma tão grande dor; mas isso somente porque não compreendemos as operações das duas naturezas - divina e humana- numa só pessoa, nem compreendemos a dupla vida de viajor e compreensor que a alma de Jesus levava na terra.



Mas a razão esclarecida pela teologia nos diz que a alegria em Jesus Cristo não foi menos real que a dor. A dor teve uma revelação exterior - a Paixão; e por isso vemo-la melhor. Como, porém, poderemos compreender a vida de Jesus Cristo sem a alegria?



Ele era na terra o próprio Verbo revestido da nossa natureza; era o próprio Deus, e não podemos compreendê-lO senão como uma imensa alegria.



Deus é a bem-aventurança, a perfeição, a felicidade, a alegria; e o Verbo de Deus não é senão a infinita alegria do Pai substancial e perfeitamente reproduzida no Filho, unidos ambos por um amor substancial, que não é também senão um coninfinito de alegria.



Mas, se Deus é alegria, tudo que procede de Deus não pode ser senão a alegria.



A criação foi a primeira efusão da alegria; a redenção a segunda, porque a redenção não se fez senão para que o mundo reassumisse o seu destino primitivo.



Sendo o Verbo o próprio Deus e sendo Deus uma infinita alegria, esta alegria que se comunica a todas as Suas obras comunica-se também à Sua humanidade santa.



Que inefáveis alegrias as do Verbo encarnado!



Alegria da perfeição da Sua humanidade; do pleno uso da Sua razão; da perfeita ciência da Sua alma; da Sua soberania e realeza sobre a criação; da completa visão que Ele tem de Deus; da perfeita adoração que Lhe presta; do Seu amor pela Mãe Imaculada que Ele próprio criou; pelos homens Seus irmãos, que veio resgatar; pela Igreja, Sua noiva, que veio esposar; pela própria Cruz, que, desde o primeiro instante da Sua vida terrestre, plantava com gozo inefável no centro do Seu coração, como o símbolo da Sua vitória e o emblema da redenção!




O Criador no seio da Sua criação! Um homem perfeito compreendendo todas as leis do mundo físico, todos os mistérios do mundo moral!



Uma alma humana tendo a visão de todos os enigmas do universo; de todas as vicissitudes da humanidade! Nada Lhe sendo desconhecido no passado, no presente, no futuro!



Ele vê todos os séculos futuros; vê o combate improfícuo de todas as civilizações contra a Sua Cruz; vê o desenvolvimento sucessivo e completo da Sua obra, as Suas vicissitudes, os seus triunfos; vê em toda a série de idades os Seus milhões de adoradores; os milhões de súditos de Sua Mãe; vê a vitória decisiva e final da Sua Igreja; vê, enfim, glorificada a nova humanidade, de que Ele foi o Salvador!



Que alegrias inefáveis! Que júbilo infinito!



Por isso é feliz nas Suas próprias dores; por isso Ele encontra a alegria na própria presciência de Sua Paixão; por isso, ávido, como Ele próprio o dizia, pelo batismo de sangue, na Agonia do Jardim, antecipa o Seu sacrifício e na Cruz do Calvário sacia a sede do Seu amor!



Vede: a Cruz, que aos olhos do século parece não ser mais que um símbolo de tristeza, é, entretanto, a obra prima da alegria; e, portanto, a maior das felicidades humanas é essa loucura de que nos fala São Paulo.



O século sempre entendeu esta loucura erradamente, servindo-se dela para zombar da fé, caluniar o cristão e apresentá-lo como o refugo da natureza humana, cuja ciência consiste em bestializar a inteligência, obliterar o sentimento e atrofiar o coração.



Nunca foi esta a doutrina da Igreja, que, bem longe de assim entendê-lo, quando, no século 17, homens saídos de seu seio, mal interpretando as palavras do Apóstolo, fizeram uma guerra encarniçada à ordem natural, à razão humana, ao desenvolvimento da inteligência e às necessidades legítimas do coração, condenou essa doutrina - o Jansenismo - e reprovou a sua moral.



A loucura da Cruz, como a entende a Igreja, não é, pois, a mutilação do homem; não é a renúncia de seus sentimentos, nem do que eleva o seu espírito, dilata o seu coração e alegra a sua vida.



A doutrina da Igreja, é que a Graça não destrói a natureza: purifica-a, aperfeiçoa-a.



Santo Agostinho dizia que a Encarnação não é senão um vasto sistema higiênico e curativo para a natureza humana; e, se bem compreenderdes este pensamento do egrégio doutor da Igreja, vós tereis a justa idéia do que seja a loucura da Cruz.



Nas práticas da vida cristã, nas humilhações do homem que quer purificar-se, há uma espécie de loucura; mas loucura somente para os instintos depravados da natureza corrompida. Como em todo remédio há uma parte por assim dizer ignóbil, vil, desprezível, repugnante à natureza; há também isso no aparelho curativo da Igreja.



O homem é também doente do espírito e do coração; e os remédios de que precisa esta sua enfermidade são, como os do corpo, duros, amargos, repugnantes à vaidade e ao orgulho.



É uma loucura humilhar-se, abater-se pedir perdão das ofensas, amar os inimigos?! Pois é a loucura da Cruz!



É uma loucura ser casto, renunciar aos gozos animais, rivalizar com os anjos?! Pois é a loucura da Cruz!



É uma loucura repudiar a avareza a ambição da glória, o furor do bem-estar?! Pois é a loucura da Cruz!



Reparai, porém: esta loucura é um verdadeiro remédio, porque nos despoja do velho homem, restaura as partes nobres da nossa natureza, que só se purifica e regenera pela crucificação, isto é, pelo aniquilamento de suas partes más.



E não foi essa loucura que regenerou o mundo, quando, num momento solene da história, para libertá-lo da gangrena romana, foi preciso lavá-lo no sangue das virgens, dos confessores, dos mártires?!



E, hoje, que falta ao nosso século? É justamente a loucura da Cruz!



Porque o homem moderno é tão vaidoso, tão cheio de ambições, tão sensual, tão rebelde? Porque não ama a Cruz de Jesus Cristo e zomba do cristão que procura reproduzi-la em si? Porque na política a impostura, a mentira, a perfídia? Na ciência - o orgulho, na literatura - a luxúria, nas artes - a prostituição do belo, o repúdio de todas as formas nobres da imaginação? Porque o estadista, o sábio, o filósofo, o poeta e o artista não conseguem fazer feliz a humanidade moderna?



Percorrei o mundo inteiro, batei a todas as portas; perguntai aos homens, nos palácios ou nas choupanas, se eles são felizes; e um gemido doloroso saído de todos os corações vos responderá: não, não somos felizes.



Mas porque o homem moderno, no meio de tantos esplendores da civilização material, é verdadeiramente desgraçado?



Porque ele não ama a Cruz de Jesus Cristo.



Vós, homem moderno, podeis pretender todas as glórias: a de terdes surpreendido, com um pedaço e vidro, o infinitamente pequeno nas profundezas da terra, o infinitamente grande nas profundezas do céu; a de terdes dado aos vossos olhos o prodigioso óptico poder de verem no solo o arbusto crescer, a verem no espaço o astro girar; a de terdes reunido nas vossas exposições universais as riquezas espalhadas pelo globo; a de terdes consorciado nos vossos museus as faunas e as floras do mundo inteiro; a de terdes pelejado com os seus ventos e tempestades, medido mesmo a profundeza dos seus oceanos.



Há uma glória, porém, que vós não podeis reclamar: a de terdes medido a inanidade dos vossos prazeres, domado os ímpetos do vosso orgulho, medido a profundeza incomensurável da vaidade universal, que não deixa ver na Cruz de Jesus Cristo a salvação do mundo, e na loucura da Cruz - a sabedoria verdadeira!




Fonte: A Paixão pelo Pe. Júlio Maria, cruzada da Boa Imprensa - Rio, 1937

quinta-feira, 10 de março de 2011

O Padre Júlio Maria que eu conheci

Por Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn
Bispo emérito de Taubaté

Ele tinha o olhar flamejante e firme

Dom Antônio Affonso de Miranda, sdn
Bispo Emérito de Taubaté-SP
Conheci o Pe. Júlio Maria em 1933.

Menino de doze anos, transpus os umbrais do Seminário Apostólico de Manhumirim, acompanhado de meu saudoso pai, que vinha entregar-me a um outro pai, que haveria de exercer sobre minha vida tão imensa influência.

Tarde escaldante de primeiro de fevereiro. Após longa espera na sala de visitas, entrou o Pe. Júlio Maria, que vinha do Colégio das Irmãs. Alto, longa barba, olhar flamejante, firme. Mas bondoso, afável.

Foi a imagem que me ficou presa n’alma de criança tímida e ansiosa, ao contato passageiro de uns quinze minutos.

Nos dias seguintes, aquela imagem, que mais incutia temor e reverência do que inspirava amizade, se acentuou no meu espírito. Pe. Júlio era para mim um homem extraordinário, que nunca tinha visto semelhante, e que criava em mim um misto de medo e de segurança. Medo, não sei de quê. Certamente, de seu olhar penetrante e de seu rosto às vezes austero. Mas, segurança, confiança no futuro, nas horas incertas, quando ele ensinava.

Tímido quando o procurava, enchia-me de alegria quando ele falava. E me sentia amparado, forte, decidido a ser homem, como ele era.

O outro lado do homem

Muito mais tarde, quando fui noviço e professo, nosso relacionamento se acentuou. Vi, então, de perto, mais que o homem, o enorme homem, forte e austero. Comecei a perceber o religioso, o homem que rezava, o penitente, o pobre, o padre que amava a Igreja.

Eu amadurecia, perdera em parte a timidez, e começava a apreender novos aspectos nas pessoas e nas coisas. E o Pe. Júlio Maria como que desabrochava numa nova figura diante de mim.

Vi, então, que aquele que me parecia severo, era, atnes de tudo, severo consigo mesmo. Enérgico, sua energia era virtude que vencia o comodismo humano.

Ele fazia o que pregava. Ensinava a pobrez, e era pobre. Dizia que era preciso rezar, e rezava com alma aberta e confiante. Pregava o zelo, e o mostrava na sua conduta de padre, que não conhecia momentos de descanso.

Foi ao lado deste Pe. Júlio Maria que vivi doze anos. Cinco anos impressionado pela figura do homem, sete edificado pela presença do padre, do fundador, e só hoje sei dizer: do carismático, do enviado, do homem de Igreja.

O outro lado da história

Há fatos que a gente presencia na vida e só balanceia mais tarde. Eles ficaram como absorvidos na sequencia do dia a dia. Foi assim que participei de alguns acontecimentos da vida familiar do grande missionário de Manhumirim, cujo alcance somente agora posso avaliar.

E mesmo alguns fatos de sua vida passada, que pesquisei e escrevi em sua biografia, somente hoje, amadurecidamente, consigo poderar, atinando com seu alcance no contexto da História.

Vejo que a maioria dos episódios, ou a contextura de todos eles, na vida do Pe. Júlio Maria, tinha um sentido de projeção para o futuro.

Homem que se entregara à Igreja, para seu serviço, e que fora eleito para uma especial missão de Igreja, o Pe. Júlio Maria não construiru para si uma obra no presente. Ele, sem o saber, e sem nós o lobrigarmos também, edificava a própria Igreja, enquanto configurava uma Igreja particular e local, dando-lhe traços específicos e crinado uma realidade nova e importante, que haveria de influir para o futuro.

Quando ele morreu, naquela tarde trágica, inundada de chuvas, cheia de angústia na casa imensa, que aguardava à hora do jantar o seu sorriso e que recebeu o seu cadáver, eu senti que tudo ia começar de novo.

Isto é, parecia-me que principiava a façe oculta da História. Tudo ia começar de novo: o Pe. Júlio reconstruindo, lentamente, a sua obra na luz de Deus.

Não me enganei. Uma história nova se iniciou. E era a verdadeira. A História.

Fonte: Miranda,sdn, Dom Antônio Affonso de. Pe. Júlio Maria, Testemunho de Uma Nova Igreja. Belo Horizonte: O Lutador, 2ª Edição.